Viver com um vício é como viver em uma prisão.
Muitas pessoas em recuperação de um vício de longo prazo frequentemente relatam como é libertador não ter mais uma substância controlando tudo o que fazem. Infelizmente, muitas outras têm dificuldade em aceitar que têm um problema, o que atrasa o início da recuperação.
Um estudo de 2015 publicado na revista Drug and Alcohol Dependence mostra que a negação pode ser a maior barreira para a sobriedade ou abstinência. Os pesquisadores destacam que, apesar de o vício reduzir significativamente a qualidade de vida, é comum que a pessoa negue o problema, mesmo quando os efeitos são evidentes para todos ao redor.
Uma das razões para isso é que muitas pessoas ainda veem o vício por meio de estereótipos. A mídia popular nos ensinou a “reconhecer” alguém com vício pelo jeito como essa pessoa se parece, age ou pela ausência de um estilo de vida funcional e socialmente aceito.
De acordo com um artigo do National Institute on Drug Abuse (NIDA), o vício é um distúrbio crônico e recorrente, caracterizado pela busca compulsiva e uso de drogas, apesar das consequências negativas.Esses sintomas não se limitam às drogas, também podem se aplicar à comida, sexo ou até redes sociais.
Ainda que a negação seja uma das razões mais prejudiciais, ela não é a única coisa que mantém alguém preso à sua substância de escolha. Pessoas com vício costumam criar justificativas mentais para manter o comportamento, evitar a perda do que mais dependem e não gerar alarme entre os que estão ao redor.
Duas mentiras que mantêm as pessoas presas ao vício
1. “Minha vida não está desmoronando”
Muitas pessoas só acreditam que têm um problema quando percebem os efeitos diretos do vício em suas vidas. Se ainda conseguem cumprir compromissos de trabalho ou buscar os filhos na escola, pode ser difícil reconhecer o impacto diário do uso da substância.
O chamado “dependente funcional” é alguém que mantém trabalho, relacionamentos e responsabilidades, mesmo estando preso ao vício. Essa falsa sensação de normalidade reduz as chances de buscar ajuda.
Segundo um artigo de 2014 publicado no Canadian Medical Association Journal (CMAJ), essas pessoas estão em maior risco, pois quem está à volta costuma não intervir, muitas vezes, nem percebe o problema.
O Dr. Steven Melemis, especialista em vícios, afirma ao CMAJ:
“O emprego é sempre a última coisa que a pessoa perde. Alguém com vício sabe que precisa do trabalho, antes de tudo, para continuar sustentando o vício.”
Nesses casos, em vez de olhar apenas para a qualidade de vida, é essencial refletir sobre a relação com a substância:
- Você consegue passar um dia sem usá-la?
- Já tentou parar antes e não conseguiu?
- Precisa adaptar toda a sua rotina ao uso?
Esses podem ser sinais de que, mesmo “funcionando”, a pessoa precisa de ajuda. Esconder melhor não significa que o problema sumiu, só adia o inevitável.
2. “Eu não sou tão ruim quanto aquela pessoa”
Você já julgou alguém que bebe às 10 da manhã, mesmo depois de ter tomado duas garrafas de vinho na noite anterior? Ou já se sentiu aliviado por não ser aquela pessoa que sempre fica bêbada nas festas?
Comparar-se com os outros é uma das estratégias mais comuns para negar o próprio vício.
Mas só porque você consegue se controlar em algumas situações, ou usa a substância a partir de uma posição de privilégio, isso não significa que não esteja lutando contra um vício. O vício tem muitas formas e pode se apresentar de maneiras diferentes em cada pessoa.
Uma pesquisa de 2024 do site DrugAbuse.com revelou que 22% dos trabalhadores em empregos tradicionais admitem usar drogas ou álcool no ambiente de trabalho, e 16% dizem ter percebido colegas fazendo o mesmo.
Ainda assim, essas pessoas muitas vezes são rotuladas apenas como “bebedores pesados” ou “usuários recreativos”.
Enquanto mantêm uma vida aparentemente funcional, fica difícil se enxergarem como alguém com um problema, o que mantêm o ciclo do vício.
Identificando o vício
Um estudo de 2011, publicado no International Journal of Environment Research and Public Health, lista os seguintes comportamentos comuns em pessoas com vício:
- Engajar-se no comportamento para obter prazer ou alívio
- Estar constantemente pensando nisso
- Sentir alívio temporário após o uso
- Perder o controle
- Sofrer consequências negativas
Admitir que se tem um vício nunca é fácil. Muitas pessoas enfrentam vergonha, culpa ou medo de serem um fardo ao pedir ajuda. Mas, embora o caminho da recuperação não seja linear, ele só começa com a aceitação do problema e com a disposição de buscar apoio e desenvolver a autocompaixão.
A autoconsciência é o primeiro passo poderoso para a mudança — e tudo começa ao questionar nossas próprias defesas mentais.
* Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.