O silêncio se manifesta de formas diferentes em cada relacionamento. Para alguns, ele aparece como uma “guerra fria” após uma discussão; para outros, é o espaço vazio no sofá enquanto um dos parceiros se perde em uma maratona de Netflix de três dias. Quem fica para trás frequentemente interpreta essa retirada como evitamento ou rejeição, enquanto lida com perguntas como: “Por que ele(a) não quer falar comigo?” ou “Por que me excluem em vez de resolver as coisas?”.
Mas grande parte do que chamamos de “evitamento” é melhor compreendida como autoproteção fisiológica.
Décadas de pesquisas, da teoria polivagal de Stephen Porges aos estudos de Allan Schore e outros sobre regulação afetiva, sugerem que nosso comportamento social é moldado pela constante avaliação do corpo sobre segurança e ameaça.
Em um dado momento, o sistema nervoso alterna entre três estados principais:
- Ventral vagal: o batimento cardíaco está estável, a digestão ativa, a voz calorosa e os músculos faciais receptivos. Nesse estado, diálogo e intimidade se tornam possíveis.
- Simpático: caracterizado por adrenalina, músculos tensos e foco restrito. O corpo se prepara para lutar ou fugir.
- Dorsal vagal: energia reduzida, evitamento do contato visual e embotamento emocional. O sistema economiza energia se retraindo.
Um parceiro que passa três dias mergulhado em séries provavelmente está nesse estado dorsal, porque lidar com o estresse do ambiente se torna demais. Essa retirada não é uma decisão consciente, mas um reflexo do sistema nervoso para preservar energia e reduzir ameaças percebidas.
Para um observador externo, esse comportamento pode parecer passivo ou negligente. Mas, na maioria dos casos, ocorre após um período de hiperexcitação ou sobrecarga. A sobrecarga empurra o corpo a um desligamento involuntário temporário. O que normaliza um parceiro pode disparar o sistema de alerta do outro.
O parceiro que espera frequentemente entra em excitação simpática (preocupação, pensamentos excessivos, tentativas de restabelecer contato), enquanto o parceiro retraído mergulha mais profundamente na imobilidade dorsal. O que segue não é indiferença, mas dessíncronia entre dois sistemas nervosos.
Um grande obstáculo para compreender o comportamento do outro é que cada pessoa busca segurança de maneiras diferentes sob pressão. Para que haja uma conversa produtiva, esses estilos de enfrentamento precisam ser compreendidos.
Estilos de apego ansioso buscam proximidade, reassurances e mais diálogo para restaurar a conexão.
Estudos de 2020 mostram que indivíduos com apego ansioso têm mais dificuldade com incerteza, envolvendo-se em preocupações e busca de reafirmação como forma de lidar.
Apego evitativo se regula através da solidão, distração ou silêncio. A retirada é a forma preferida de segurança do sistema nervoso. Pesquisas de 2024 mostraram que esses indivíduos usam mais a “supressão expressiva”, reduzir ou esconder a expressão emocional, o que diminui desconforto subjetivo, mas aumenta a excitação fisiológica.
Portanto, passar dias em atividades tranquilas, como maratonar séries, não significa indiferença, mas um esforço consciente de autoregulação, mantendo equilíbrio interno sem depender do outro para conforto.
Como reagir se você é o parceiro observando isso:
Não leve para o lado pessoal: o comportamento deles não é necessariamente sobre você, mas sobre sua capacidade de lidar com o estresse naquele momento.
Mostre gentileza sem pressionar: o objetivo é restaurar sinais de segurança, como tom de voz, postura e proximidade, sem invasão. Pode-se dizer: “Vejo que você precisava de um tempo quieto. Vou dar espaço, e estou aqui quando quiser se reconectar.”
Como se manter regulado enquanto eles se retiram:
A autopreservação é tão importante quanto a empatia: o sistema nervoso pode interpretar a ausência do parceiro como ameaça, desencadeando impulsos de perseguir ou questionar, que são respostas de luta ou fuga.
Co-regulação: a calma de um parceiro ajuda a regular o outro, mas depende da estabilidade interna de cada um. Técnicas como respiração lenta, consciência corporal e toque de ancoragem ajudam a manter seu próprio sistema estável, sinalizando segurança ao outro.
Quando o parceiro estiver pronto para se reconectar (ex.: conversa casual ou proximidade física), evite análises ou confrontos imediatos: comece com contato suave, humor ou atividades compartilhadas. Primeiro restaure a conexão ventral, depois resolvam o problema subjacente.
Acordos para regular futuras retiradas:
Linguagem para sinalizar sobrecarga: frases como “Estou no meu limite” ou “Preciso de um dia para resetar” ajudam a nomear a retirada.
Limites de tempo para solitude: combinar duração (ex.: “Preciso da tarde”) ajuda o parceiro ansioso a se manter calmo.
Rituais de reconexão: atividades simples compartilhadas (chá, cozinhar ou caminhar) indicam que a relação continua intacta.
Esses acordos transformam o desaparecimento silencioso em uma prática estruturada de autoregulação, convertendo o que antes parecia rejeição em descanso intencional.
*Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.