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Como Terapias com RNAs e Vírus Modificados Abrem Novas Frentes contra o Câncer Cerebral

Testes baseados em biotecnologia utilizam edição genética de células e vírus, como o Zika, na busca por tratamentos mais eficazes para tumores do sistema nervoso central

8 min

O Brasil deve apresentar 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o que representa uma alta significativa se comparado ao período 2023-25. A doença ainda é uma das principais causas de morte no Brasil, perdendo apenas para as doenças cardiovasculares.

SegundoINCA, 1,54% dos novos casos de câncer são no Sistema Nervoso Central (SNC), sendo 6.500 homens e 5.560 mulheres para cada ano. As causas ainda são alvos de estudos, mas entende-se que a doença sejamultifatorial, resultado tanto de predisposições e questões hereditárias como também de exposição a radiação ionizante e deficiência do sistema imunológico.

No último ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou um novo medicamento para tratamento de tumores cerebrais, o Voranigo (vorasidenibe). O inibidor das enzimas IDH1, em caso de mutações genéticas, foi aprovado para pacientes adultos e adolescentes a partir de 12 anos diagnosticados com glioma difuso de baixo grau, submetidos à intervenção cirúrgica prévia.

Diversas empresas e instituições embarcaram na empreitada de desenvolver soluções para o câncer do SNC, por meio de biotecnologia, como é o caso do Hospital Sírio-Libanês, que possui um centro dedicado ao desenvolvimento de novas abordagens para diagnóstico e tratamento dos tumores no cérebro e na medula espinhal. Algumas alternativas incluem desde terapias-alvo e imunoterapias até novas formas de transpor a barreira hematoencefálica.

Terapias com RNA

A Aptah Biosciences, empresa sulista que compõe o portfólio da Vesper Ventures, optou por uma outra abordagem: controlar a capacidade de evolução dos tumores, em vez de apenas eliminá-lo. A adaptação do câncer é muito mais rápida que a capacidade das terapias alvo de mitigá-lo, tornando a corrida de combate insuficiente. A proposta da Aptah é limitar a evolução do tumor por meio de tecnologias proprietárias, que apostam em terapias comRNA para reduzir erros de transcrição e variabilidade das células cancerígenas.

A empresa patenteou a RNA WicoTM (RNA Widespread Correction), uma plataforma voltada para o desenvolvimento de moléculas que endereçam erros no processamento do RNA. Segundo Rafael Bottos, fundador, a primeira indicação para tratamento é o câncer de glioblastoma, um dos tumores mais adaptativos existentes.

O glioblastoma costuma apresentar uma área central de necrose, formada por células que morreram devido ao crescimento acelerado do tumor. Ao mesmo tempo, as células cancerígenas que permanecem vivas são altamente invasivas e se espalham pelo tecido cerebral. Com a evolução da doença, o tumor pode elevar a pressão dentro do crânio e afetar funções neurológicas essenciais, tornando-se uma das formas mais agressivas de câncer cerebral.

O principal driver de adaptabilidade da célula é o complexo de U1, que transforma o DNA dos diferentes RNAs que nós temos na célula. “Ele é o orquestrador da maquinaria celular, um elemento tão fundamental na biologia celular que alterá-lo hoje é extremamente crítico. São várias pequenas proteínas que têm que se montar corretamente para funcionar, só que quando a célula está sob estresse, o conjunto não monta corretamente, o que gera uma entropia celular. Se a maquinaria fica errada, você começa a produzir um monte de RNA ruim, e isso faz com que essa célula comece a proliferar e se adaptar, perdendo a identidade dela”, explica Bottos.

A Aptah quer, através do medicamento, retardar a capacidade de adaptação e evolução das diferentes células cancerígenas em todo o cérebro. A droga, na dosagem correta, não tem efeito sobre células saudáveis, enquanto é capaz de retardar as que são cancerígenas, tornando-as um alvo muito mais fácil para o sistema imune e para as terapias convencionais.

Bottos explica que a solução é como um gabarito: a molécula não está silenciando nada, mas sim garantindo que aquele complexo funcione exatamente como ele foi criado para fazer. A molécula da Aptah se acopla aos diferentes genes da célula e garante que o complexo de U1 restabeleça a qualidade de transcrição celular. “Isso faz com que, em células cancerígenas, ele não se adapte. Por não se adaptar, a célula morre ou pelo sistema imune inato ou pelas terapias convencionais”, acrescenta o CEO.

Além do glioblastoma, a droga foi testada em mais dez tipos de câncer, com excelentes resultados, segundo Bottos. O executivo explica que câncer do SNC é apenas o primeiro alvo, levando em conta a condução de estudos pré-clínicos para melanoma, osteossarcoma e linfoma, além de doenças autoimunes e neurodegenerativas.

Atualmente, a Aptah está na fase pré-clínica da solução, o que envolve estudos em animais e na produção do ativo, já dentro dos padrões do FDA Internacional. A fase clínica deve começar em 2028, enquanto o licenciamento da droga é previsto para até 2030. A Aptah já levantou US$ 9,5 milhões, e está levantando mais 20 milhões de dólares para finalizar a fase inicial.

Terapias com vírus modificados

Outra alternativa que vem sendo explorada envolve a modificação de vírus específicos para a destruição de células cancerígenas. É nessa seara que a Vyro Biotechnologies está avançando.

Em 2015, o Brasil viveu uma epidemia de Zyka Vírus, transmitido por meio do Aedes Aegypti, resultando em casos de microcefalia em bebês, um dos sintomas da síndrome congênita do vírus. Durante a gestação, o crânio do bebê não se desenvolve adequadamente, resultando em uma malformação que impede o crescimento normal do cérebro.

Um estudo guiado pelaProfessora do Departamento de Genética da USP Mayana Zatz em parceria com Luiz Caires, cofundador da Vyro, e Oswaldo Keith Okamoto, também cofundador, começou a analisar padrões genéticos no acometimento da doença, por meio da análise de bebês e mães infectados peloZika. Enquanto muitas mães tiveram bebês afetados, outros não apresentaram a condição, o que ajudou na descoberta de um padrão de suscetibilidade genética à formação de microcefalia, publicado na Nature Communications.

“As células neuroprogenitoras, que formam o cérebro do bebê ainda na gestação, são muito parecidas com as células tumorais de alguns tipos de tumores infantis e adultos. Estou falando de glioblastoma, meduloblastoma e até AT/RT (Atypical Teratoid/Rhabdoid Tumor), que engloba tumores raros e outros nem tão raros assim. Nós submetemos esses tumores ao Zika Vírus, e constatamos que o vírus consegue inclusive infectar células de câncer colorretal, entre outros tumores que avaliamos. Majoritariamente, os resultados mostraram que ele tem uma enorme capacidade de destruir, literalmente devastar, células de tumores de meduloblastoma e glioblastoma”, explica Caires.

O vírus consegue atravessar a barreira hematoencefálica, que protege o SNC e filtra as moléculas que podem acessar o cérebro. Durante os testes in vivo, foram injetadas células tumorais no cérebro de camundongos e, após uma semana, foi realizada uma pequena cirurgia para injeção do Zika na mesma região do tumor. Ao longo de três semanas, foi possível observar o desaparecimento das massas tumorais — de 30 camundongos, 21 apresentaram o desaparecimento total do tumor — por meio do rompimento da célula infectada. Uma vez rompida, a célula morre, e o vírus se torna potencialmente infectante para as células tumorais vizinhas. O estudo foi, em 2018, publicado na Cancer Research, repercutindo em veículos internaiconais como o The New York Times.

Desde então, a Vyro vem trabalhando para desenvolver uma plataforma de vírus oncolíticos para o tratamento de tumores raros, tratando tumores inclusive em cães. “O diferencial da tecnologia da Vyro reside no fato de termos feito uma cópia totalmente sintética do vírus. Ela funciona exatamente da mesma forma que o Zika Vírus selvagem, porém nós o modificamos geneticamente, inserindo uma sequência específica dentro do seu genoma que o tornou mais eficiente e seguro. Em células normais, o vírus até infecta, mas não prolifera, preservando a célula viva. Já nas células tumorais, ele infecta, prolifera e as destrói, trazendo segurança ao tratamento”, explica Caires.

Como o vírus se replica muito facilmente, é possível ainda utilizar uma dosagem consideravelmente menor do vírus, cerca de 0,01% da utilizada atualmente em outras abordagens. Estudos prévios mostram que em cerca de três dias o vírus já desaparece dos fluidos corporais dos animais, evitando efeitos colaterais a curto, médio e longo prazo.

Atualmente, a Vyro é uma startup acompanhada pela Anvisa em tempo real, desde a concepção da ideia até o produto final, obtendo licenças regulatórias fundamentais, como a da CTNBio e o CQB. A meta é finalizar as etapas pré-clínicas neste ano de 2026, progredindo para a eventual produção de novas cepas mais eficientes em ambientes adequados de biossegurança (NB2).

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