A maioria das pessoas trata a mentira como um único tipo de comportamento, com um único peso moral: alguém ou mente muito ou não mente, e o que importa é a frequência. Um estudo de 2026 publicado no Journal of Social and Personal Relationships, liderado pelos pesquisadores Tim Cole e Kellie Stonebrook, torna essa suposição muito mais complexa.
A equipe entrevistou 567 adultos norte-americanos em relacionamentos românticos sobre sete motivos distintos pelos quais as pessoas enganam seus parceiros. Eles foram:
- Intenção maliciosa: mentir para fazer o parceiro sofrer.
- Busca por atenção: mentir para parecer mais interessante.
- Evitar conflitos: mentir para escapar de uma discussão.
- Apaziguamento emocional: mentir para proteger os sentimentos do parceiro.
- Ocultação de erros: mentir para esconder um ato constrangedor.
- Proteção da privacidade: omitir informações para preservar a autonomia pessoal.
- Evitação sexual: mentir para evitar intimidade física.
Em seguida, os pesquisadores aplicaram uma técnica estatística chamada análise de perfis latentes para verificar se esses motivos se agrupavam em tipos psicológicos reconhecíveis. E, de fato, eles encontraram três perfis, definidos menos pela frequência com que seus integrantes mentem e mais pela finalidade dessas mentiras.
Tipo 1: O Parceiro Transparente
O maior dos três grupos, representando cerca de 38% da amostra, apresentou níveis muito baixos em todos os motivos para mentir avaliados pelos pesquisadores.
Imagine a situação em que um parceiro faz uma pergunta realmente desconfortável — se um antigo amor ainda significa algo ou se o orçamento realmente comporta uma grande compra.
O Parceiro Transparente responde com sinceridade, mesmo sabendo que a resposta pode machucar um pouco. Para ele, o desconforto é algo que o casal enfrenta junto, e não algo que precisa ser evitado.
O que parece ser apenas honestidade costuma ser, do ponto de vista clínico, resultado de um sentimento de segurança na relação. Um estudo de 2010 publicado no Journal of Personality and Social Psychology mostrou que pessoas que se sentem seguras em seus relacionamentos têm muito menos tendência a enganar seus parceiros. Por isso, também sentem menos necessidade de suavizar ou esconder verdades difíceis.
O Parceiro Transparente não é necessariamente mais disciplinado ou moralmente superior aos demais. Ele apenas costuma viver em um relacionamento no qual a mentira parece desnecessária, e não apenas indesejável — uma diferença sutil, mas importante para entender de onde realmente vem a honestidade.
Tipo 2: O Pacificador Estratégico
O perfil mais comum do estudo, representando quase metade da amostra, mentia principalmente por motivos de autoproteção e preservação do relacionamento.
É o parceiro que, ao ser perguntado como foi uma conversa difícil com a mãe, responde que “foi tudo bem”, quando claramente não foi, porque sabe que tocar no assunto naquela noite apenas reabriria uma ferida para a qual nenhum dos dois tem energia.
Também é aquele que conta uma pequena mentira sobre como um gasto compartilhado foi feito, não para esconder algo grave, mas para evitar uma discussão recorrente que nunca chega a uma solução, independentemente da honestidade com que é conduzida.
Psicólogos que estudam a regulação emocional entre casais mostram que parceiros frequentemente administram as emoções um do outro com o mesmo cuidado com que administram as próprias — um fenômeno conhecido como regulação emocional interpessoal.
Sob essa perspectiva, as mentiras do Pacificador Estratégico funcionam menos como ocultação e mais como uma espécie de “triagem” do relacionamento: uma avaliação sobre quais verdades, ditas em determinado momento, realmente beneficiam a relação.
Esse julgamento nem sempre é correto. O mesmo impulso que evita um conflito em uma noite pode, acumulado ao longo dos anos, impedir que o casal enfrente os atritos necessários para resolver problemas recorrentes. Ainda assim, a motivação principal é proteger a relação, e não prejudicar o parceiro — exatamente o que diferencia esse perfil do terceiro.
Tipo 3: O Estrategista Antagônico
O menor grupo, reunindo cerca de 14% dos participantes, é o que merece maior atenção, segundo os pesquisadores.
Esse perfil apresentou níveis elevados em praticamente todos os motivos para mentir, incluindo razões raramente observadas nos outros grupos: manipular a percepção do parceiro sobre acontecimentos, provocar ciúmes, chamar atenção ou evitar tanto a intimidade emocional quanto a física.
É o parceiro que inventa o interesse de outra pessoa apenas para testar a lealdade do companheiro, ou insiste que um compromisso cancelado nunca havia sido confirmado, fazendo com que o outro comece a duvidar da própria memória.
O estudo associa esse perfil a níveis significativamente maiores de apego inseguro e a um conjunto de características conhecido como “tétrade sombria” da personalidade — maquiavelismo, narcisismo, psicopatia e sadismo. Um estudo de 2021 publicado na revista Personality and Individual Differences concluiu que esses traços aumentam a propensão à mentira, inclusive em situações específicas dos relacionamentos.
Esse grupo também relatou níveis muito menores de satisfação no relacionamento, em linha com um estudo de 2025 publicado na revista Behavioral Sciences, que relacionou pontuações mais altas em traços da personalidade sombria a menor satisfação conjugal.
Nesse perfil, a mentira não serve para evitar conflitos nem para proteger sentimentos. Ela funciona como uma ferramenta de manipulação deliberada, cujos custos recaem quase inteiramente sobre o parceiro enganado.
O Que os Três Tipos Revelam
Quando os três perfis são analisados em conjunto, surge um princípio importante: a frequência das mentiras é um indicador fraco; a motivação por trás delas é muito mais reveladora.
Um parceiro que, ocasionalmente, suaviza uma verdade desagradável para manter a paz pode parecer muito semelhante, à primeira vista, a alguém que mente para desestabilizar ou controlar o outro. Mas, quando se considera o motivo da mentira, os dois comportamentos praticamente não têm relação.
Isso muda a pergunta mais importante. Em vez de questionar “meu parceiro mente para mim?”, já que o estudo sugere que praticamente todos fazem isso em algum momento — especialmente no perfil do Pacificador Estratégico –, vale perguntar “para que essa mentira serve?”
Mentiras motivadas pelo desejo de evitar conflitos ou proteger o outro tendem a indicar um padrão relativamente saudável e associado a vínculos seguros.
Já mentiras usadas para manipular, provocar ou manter distância emocional apontam para algo muito mais preocupante. Segundo a pesquisa, elas costumam fazer parte de um perfil mais amplo de personalidade e de apego que se manifesta em diversos aspectos do relacionamento — e não apenas nas mentiras em si.
*Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com