A fofoca é um dos poucos comportamentos humanos universais que quase ninguém defende. Ela parece mesquinha, fútil e um pouco maldosa. Alguns chegam a considerá-la o equivalente conversacional da comida ultraprocessada. Ainda assim, pesquisadores que contabilizaram sobre o que as pessoas realmente conversam continuam chegando à mesma conclusão desconfortável: uma grande parcela das conversas cotidianas é sobre outras pessoas que não estão presentes.
Um estudo de 2024 publicado na Language and Cognition estimou esse número em até 85%, acima até mesmo da estimativa clássica que colocou a fofoca no mapa científico. A diferença entre o que dizemos sobre a fofoca e o quanto realmente a praticamos é a parte mais interessante.
O antropólogo evolucionista Robin Dunbar há muito tempo defende que esse tipo de conversa não é uma falha de caráter. Na verdade, seria uma das razões pelas quais a linguagem humana se tornou tão elaborada. A fofoca era uma forma de acompanhar reputações, alianças e obrigações em grupos grandes demais para serem monitorados diretamente.
Um estudo de 2024 publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) analisou por que essa função de monitoramento teria evoluído: a fofoca dissemina informações sobre reputação que fazem as pessoas cooperarem com os próprios indivíduos que compartilham essas informações, permitindo que o sistema de reputação — e a cooperação construída sobre ele — se sustente. Sob essa perspectiva, a fofoca não é o oposto da inteligência social. É um exercício bruto dela.
Isso significa que a questão relevante nunca foi saber se alguém fofoca, mas como. Dois hábitos, em particular, tendem a separar as pessoas que usam a fofoca como uma ferramenta de pensamento daquelas que a usam como uma arma.
Você fofoca para entender, não para condenar
Preste atenção a uma conversa sobre uma terceira pessoa ausente e, em geral, é possível perceber em poucos minutos para onde ela está caminhando. A maioria das fofocas chega imediatamente a uma conclusão. As pessoas podem dizer coisas como “ela é difícil”, “ele é arrogante” ou “aquela família inteira é uma bagunça” e, depois, passam o resto do tempo reunindo evidências para confirmar um veredito que já haviam dado.
A versão mais perspicaz da fofoca soa diferente. Ela é cheia de perguntas. Por que alguém faria isso? O que precisaria ser verdade para que aquilo fizesse sentido para ele? Esse tipo de conversa trata o comportamento intrigante de outra pessoa como um quebra-cabeça, e não como uma falha de caráter — uma tarefa cognitiva muito mais difícil do que parece.
Presumir que alguém é simplesmente uma pessoa ruim não custa nada; reconstruir as pressões, os incentivos e os medos que fizeram uma escolha parecer razoável para aquela pessoa exige um esforço real. Pessoas que fofocam dessa maneira estão fazendo simulações sociais, literalmente.
Um estudo de 2025 publicado na Nature Human Behaviour descobriu que decidir para quem contar uma fofoca depende de um mapa mental, em tempo real, de toda a rede social, acompanhando quem é próximo de quem muito além das duas pessoas que estão sendo discutidas.
Há um sinal útil aqui. A fofoca curiosa tende a passar mais tempo na incerteza (“ainda não entendo completamente”) enquanto a fofoca baseada no desprezo termina em certeza. Encerrar o caso rapidamente pode ser satisfatório, mas significa que nenhuma informação nova é processada.
Sua fofoca alerta em vez de ferir
O segundo hábito está relacionado à função. Algumas fofocas existem para diminuir a posição de outra pessoa. Outras existem para proteger alguém de ser prejudicado. É o caso, por exemplo, de avisar discretamente que determinado gerente leva o crédito pelo trabalho dos outros ou que o novo sócio de um amigo deixou um rastro de contas não pagas.
Os pesquisadores chamam esse segundo tipo de fofoca pró-social, e essa é uma das descobertas mais contraintuitivas da psicologia social. Um estudo de 2024 publicado na PNAS analisou exatamente quanto desse tipo de conversa é necessário para que os integrantes de um grupo consigam concordar sobre quem é confiável — e descobriu que, depois que a fofoca ultrapassa esse limite, a cooperação se estabiliza por conta própria. Nesse contexto, a fofoca funciona como um sistema informal de justiça baseado na comunicação.
A inteligência está na calibragem. A fofoca pró-social é específica, em vez de generalizante; é compartilhada com quem realmente precisa da informação, em vez de divulgada para uma audiência; e se concentra no comportamento, não na identidade. É a diferença entre dizer “fique atento aos prazos com ele, porque ele perdeu os três últimos” e “ele é inútil”. Uma é uma transferência de dados. A outra é uma tentativa de ganhar status.
Até mesmo a fofoca bem-intencionada pode assumir um viés negativo, porque é o mau comportamento que costuma ser relatado. Um estudo de 2025 publicado no Journal of Experimental Social Psychology descobriu que pessoas que ouvem muita fofoca podem acabar desenvolvendo uma visão excessivamente cínica sobre aqueles ao seu redor. A proteção tem um custo, e as pessoas que fazem isso melhor parecem saber disso.
O que esses dois tipos de fofoca têm em comum
A fofoca curiosa reúne informações sobre por que os seres humanos fazem o que fazem.
A fofoca protetora distribui essas informações para quem precisa delas. Nenhuma das duas é realmente sobre a pessoa ausente; elas servem para compreender um mundo social complexo demais para ser navegado sozinho.
A ausência desses hábitos também é reveladora. Uma fofoca que nunca gera uma pergunta, nunca chega a alguém que poderia fazer algo a respeito e sempre faz com que quem fala pareça um pouco melhor do que o alvo não é inteligência social. É autopromoção às custas de outra pessoa.
A maioria das pessoas continuará fofocando independentemente do que alguém aconselhe. Portanto, o objetivo realista não é a abstinência, mas perceber, no meio da conversa, se aquele diálogo está tentando entender alguma coisa ou apenas tentando vencer.
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*Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com