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Geração em Risco Impulsiona Reação Global contra os Impactos das Telas

Governos, tribunais e educadores reagem aos impactos do uso excessivo de redes sociais entre jovens

7 min

A relação entre adolescentes e redes sociais chegou a um ponto crítico de inflexão. Em um julgamento iniciado na semana passada em um tribunal de Los Angeles, Meta e YouTube terão de responder a um júri, em um processo que alguns especialistas comparam às ações contra a indústria do tabaco nos anos 1990.

O caso gira em torno de K.G.M., uma jovem de 19 anos que alega ter se tornado viciada em redes sociais aos 10 anos, o que teria levado a quadros de depressão e pensamentos suicidas. TikTok e Snapchat já firmaram acordos.

A ação judicial, que deve durar de seis a oito semanas, argumenta que essas empresas incorporaram deliberadamente recursos como rolagem infinita, vídeos em reprodução automática e recomendações algorítmicas para maximizar o engajamento, em detrimento dos usuários mais jovens. Com mais de 40 procuradores-gerais estaduais também processando a Meta por questões relacionadas, a pressão legal só aumenta.

Os governos estão agindo em paralelo. Na Austrália, menores de 16 anos foram proibidos de usar os principais serviços de redes sociais, e a França pretende introduzir uma legislação que proíba o uso dessas plataformas por crianças menores de 15 anos. O presidente Emmanuel Macron foi direto: “Os cérebros de nossas crianças e adolescentes não estão à venda”. No Brasil, a proibição nacional de smartphones nas escolas, implementada em janeiro de 2025, já apresenta resultados após um ano, com melhorias na concentração, na participação em sala e no desempenho acadêmico.

No entanto, por trás dos argumentos legais e das proibições políticas, há um experimento mais profundo, já em curso em milhões de lares ao redor do mundo. A resposta global aos danos causados pelas telas está convergindo para tensões ainda não resolvidas: restrição versus educação, controle versus autonomia.

O que acontece quando o celular desaparece

As plataformas de redes sociais exploram o sistema de dopamina do cérebro por meio de reforços de razão variável, de forma semelhante ao que ocorre com máquinas caça-níqueis. Mas o que acontece quando os celulares — e a possibilidade de checar atividades nas redes — são retirados?

Em um estudo experimental que analisou os efeitos nocivos da dependência comportamental de smartphones, participantes que não puderam atender chamadas recebidas apresentaram aumento da pressão arterial, aceleração da frequência cardíaca e níveis elevados de ansiedade.

Quando separados de seus smartphones, usuários moderados e intensivos experimentam sintomas como dificuldade de concentração e desejo intenso de uso, segundo um estudo em que os participantes ficaram três dias sem o aparelho. O experimento adaptou escalas usadas para avaliar abstinência de cigarro e concluiu que os sintomas surgem, entre outros motivos, porque ferramentas como TikTok e Instagram se tornaram uma forma de suporte social.

Existe até um termo clínico para esse tipo de uso problemático: nomofobia, o medo de ficar sem o celular.

Mas as pesquisas também indicam que os benefícios podem estar do outro lado desses períodos, às vezes difíceis, quando as pessoas conseguem regular com sucesso o uso do smartphone. Uma revisão sistemática publicada na revista Mobile Media & Communication mostrou que participantes com depressão leve a moderada relataram um aumento médio no bem-estar mental após um detox digital de sete dias.

Resistência e debate

Os jovens também estão liderando a resistência quando o assunto é a regulamentação do uso de smartphones e redes sociais. Um exemplo é o Appstinence, movimento fundado pela estudante de Harvard Gabriela Nguyen para ajudar as pessoas a repensarem a vida sem smartphones e redes sociais.

A abordagem se baseia em um método de cinco etapas para mudar a relação do usuário com seus dispositivos (Diminuir, Desativar, Excluir, Rebaixar e Partir). O método espelha tratamentos cognitivo-comportamentais para dependência e vem ganhando força entre usuários da Geração Z.

“O movimento Appstinence é mais do que aquilo que aparece na mídia sobre ‘essa juventude de hoje’. É um movimento liderado pela Geração Z para reverter a atrofia social e a degradação moral de toda uma geração (e também de todos os outros), enraizadas na normalização de tecnologias viciantes”, afirma o manifesto do movimento.

As tendências de mercado também apontam para essa mudança. As vendas globais de dumbphones, aparelhos voltados apenas para chamadas e mensagens, sem recursos como navegação avançada na internet ou redes sociais, estão em alta e devem atingir US$ 2,8 bilhões até 2033, crescendo a uma taxa anual composta de 2,3% entre 2025 e 2033, segundo dados da Cognitive Market Research. Liderado por marcas como Punkt, Light e HMD (Human Mobile Devices), esse mercado é impulsionado principalmente por usuários da Geração Z que reconhecem relações pouco saudáveis com o celular.

Ser “esperto de rua” no ambiente digital

Embora alguns defendam um afastamento radical do uso de smartphones e redes sociais, nem todos concordam que impedir os jovens de usar essas tecnologias seja a resposta.

Mackenzie Howe, fundadora da empresa de IA Atheni, chama as proibições de “preguiçosas” e de uma forma de evitar “o trabalho mais difícil, que é ensinar”. Para ela, banir deixa os jovens “sem poder e sem autonomia para participar plenamente da sociedade”.

“Não desenvolver alfabetização digital agora é tão grave quanto não ensinar a ler. Proibir é esconder as estradas. Precisamos ensinar as pessoas a pedalar”, escreveu em uma publicação no LinkedIn.

Ecoando essa visão, Sue Black, professora de ciência da computação e fundadora do movimento #TechMums, afirma: “Ensinamos as crianças a serem espertas nas ruas fora da internet. Precisamos fazer o mesmo no ambiente online”.

Segundo Carla Georgina Gontijo, educadora midiática e fundadora do Instituto EducaSoul, organização brasileira sem fins lucrativos focada em competências socioemocionais, alfabetização midiática e educação parental, os jovens precisam aprender a identificar conteúdos manipuladores e a restabelecer vínculos humanos por meio da presença e da escuta ativa.

“Mobilizar pais, educadores e líderes dos setores público e privado, conscientizando-os sobre o quanto estamos colocando uma geração inteira em risco, é fundamental”, afirma. “Essa geração já sofre consequências físicas e mentais graves devido à exposição às redes sociais, aos jogos online e às plataformas que transformam crianças e adolescentes em viciados em troca de dados e informações que geram lucro para as big techs — e precisamos agir globalmente para mudar esse cenário.”

O caminho a seguir, diz Gontijo, passa pelo investimento em educação, ensinando pais, professores e jovens a identificar conteúdos que manipulam, desinformam, reforçam preconceitos, racismo e violência, além de desenvolver habilidades para navegar no ambiente digital atual.

“A alfabetização midiática faz exatamente isso, ao desenvolver competências como pensamento crítico, criatividade e respeito por si mesmo e pelos outros”, completa.

Estamos diante de uma encruzilhada. Os tribunais avaliam responsabilidades. Governos implementam proibições. Jovens se desconectam, enquanto educadores defendem a educação em vez da proibição. A ciência é clara, as consequências estão sendo documentadas e o debate se intensifica. Seja por meio de restrições, educação ou ambos, não fazer nada já não é uma opção.

Por Angelica Mari, especialista na interseção entre comportamento e tecnologia

*Matéria originalmente publicada em Forbes.com

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