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“Não Medimos o Sucesso por Cliques, Mas Pelo Impacto”, Diz Diretor-Geral do LinkedIn

À frente das operações na América Latina e África, Milton Beck detalha o crescimento da plataforma, que já reúne mais de 100 milhões de brasileiros, analisa os impactos da IA e explica por que relevância vale mais do que viralização

10 min

Há quase 40 anos, Milton Beck conseguiu seu primeiro emprego praticamente às cegas. “Vi um anúncio na faculdade e apliquei sem saber nada sobre a empresa. Não tinha onde procurar, nem internet”, relembra em entrevista à Forbes Brasil. Os tempos mudaram, e poucos acompanharam essa transformação tão de perto quanto ele. Funcionário mais antigo do LinkedIn no Brasil, Beck lidera há uma década as operações da maior rede profissional do mundo na América Latina e na África.

Engenheiro mecânico formado pela USP (Universidade de São Paulo), com mais de 10 anos de Microsoft, entrou no LinkedIn em 2012, quando o escritório da empresa em São Paulo era uma sala de nove metros quadrados. “Precisava explicar que éramos um ‘Facebook para negócios’”, conta. Hoje, a plataforma já ultrapassa 100 milhões de usuários no Brasil, seu terceiro maior mercado globalmente. “Deixamos de ser um site de busca de empregos para nos tornarmos uma plataforma de desenvolvimento profissional.”

O crescimento da rede veio também com a diversidade de usuários. A ferramenta, que antes concentrava a média gerência do Sudeste, agora conta com mais da metade dos profissionais de fora do eixo Rio-São Paulo. Os perfis vão desde a Geração Z tateando o primeiro estágio até executivos C-Level, passando também por operadores de empilhadeira, técnicos de futebol e mais de 300 intérpretes de Papai Noel em todo o Brasil. “Pessoas de todos os nichos entenderam que é um lugar importante para fazer networking e ser visto.”

A rede social vai na contramão das vizinhas que ganham força com o entretenimento: aposta na relevância de conteúdo e no networking. “Não medimos o sucesso por cliques, mas pelo impacto. A rede é sobre o valor que você traz para a comunidade”, explica o executivo. “O que você vai fazer com 200 mil visualizações se elas não vêm das pessoas que te interessam? É um crescimento de longo prazo, não uma busca viral.”

A seguir, Milton Beck reflete sobre a evolução do mercado de trabalho em meio à era da inteligência artificial, detalha os bastidores da operação no Brasil e dá dicas para quem quer crescer na plataforma.

Confira os destaques da entrevista com Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn para América Latina e África

Forbes: O que explica o crescimento do LinkedIn nos últimos anos?

Milton Beck: No início, a plataforma era usada principalmente por pessoas no meio da pirâmide organizacional para buscar emprego. Com o tempo, os usuários foram se desenvolvendo, compartilhando suas conquistas com colegas, e isso gerou um crescimento quase viral no boca a boca.

Hoje, o propósito de buscar crescimento econômico e profissional continua o mesmo, mas os objetivos se diversificaram. Temos desde o jovem buscando o primeiro emprego até executivos compartilhando ideias, ou profissionais consumindo conteúdo para se atualizar. Além disso, o brasileiro gosta muito de redes sociais e encontrou no LinkedIn um ambiente seguro.

Como o LinkedIn se diferencia de outras redes sociais?

Em outras redes, há uma busca enorme pela quantidade de seguidores. No LinkedIn, é mais sobre qual valor você traz para a comunidade. O objetivo não é atingir todo mundo, mas atingir quem interessa para o seu objetivo profissional. Discutimos oportunidades de carreira, negócios e tendências. Portanto, não medimos o sucesso por likes, mas pelo impacto gerado. Um post pode ter apenas 20 curtidas, mas se forem 20 curtidas de pessoas do seu nicho, interessadas em discutir um assunto importante, o valor e a relevância são muito maiores.

A inteligência artificial dominou o mercado. Como tem mudado o ambiente de trabalho e o que você espera pela frente?

Segundo nossas pesquisas, 42% dos usuários já usam IA todos os dias, e a maioria acredita que ela pode melhorar a rotina de trabalho. O brasileiro não tem medo de testar; baixa e experimenta tudo. Mas, ao mesmo tempo, as pessoas se sentem sobrecarregadas com a velocidade das mudanças e ansiosas sobre o quanto a IA vai afetar seus empregos.

Não dá para confiar 100% no contexto gerado pela IA. A execução técnica vai ser meio comoditizada, então o diferencial humano será saber o que perguntar e como analisar os resultados.

Como você enxerga as demissões por conta da IA que vemos hoje no mercado de trabalho?

Aqui no LinkedIn Brasil não tivemos demissões causadas por substituição de pessoas por inteligência artificial. O que você observa hoje no mercado global de tecnologia é um redirecionamento de investimentos das empresas para áreas de infraestrutura e data centers voltados para IA, buscando retorno a médio e longo prazo.

No próprio LinkedIn Brasil, vocês já sentem o impacto da IA?

Nós usamos IA para nossa própria produtividade — desde sumarizar reuniões até otimizar o fluxo de e-mails. Além disso, nossas plataformas já contam com IA embutida. Em publicidade, a IA ajuda os clientes a direcionar campanhas e orçamentos; no recrutamento, auxilia os recrutadores a fazer triagem e elaborar mensagens para candidatos.

Como o LinkedIn lida com publicações massivas geradas por inteligência artificial?

Não há problema em usar a IA para lapidar e corrigir um texto. No entanto, quando há uma abundância de conteúdo automatizado, pasteurizado e sem sentido, o próprio algoritmo identifica e corta o alcance. Posts artificiais, que parecem um press release lido em um teleprompter, também não geram engajamento. As pessoas se conectam mais com quem grava um vídeo com o celular tremendo na mão, sendo genuíno.

Temos visto usuários furarem a bolha do conteúdo estritamente profissional, compartilhando questões pessoais ou até denúncias de empresas. Como você enxerga isso? Há um limite?

O profissional não é só um profissional; a pessoa é um ser complexo com várias facetas: família, problemas de saúde, ambições, opiniões e dificuldades financeiras. O que importa não é se o assunto é pessoal, mas se ele é relevante para a comunidade. Por exemplo, se a pessoa apenas escreve “estou triste hoje”, isso não gera engajamento porque não acrescenta. Agora, se ela compartilha que está passando por um momento difícil e explica como isso afeta suas decisões de carreira ou seu desempenho no trabalho, as pessoas começam a se identificar. Tudo precisa estar relacionado a oportunidades e crescimento profissional. O LinkedIn funciona como uma vitrine, então os usuários sabem que estão sendo observados por recrutadores e clientes, o que exige um cuidado maior do que teriam em outras redes.

A Geração Z chegou com força no mercado de trabalho. Como os jovens profissionais têm mudado a forma como as pessoas se comportam e postam no LinkedIn?

A proporção de usuários da Geração Z no LinkedIn já é maior do que a proporção deles na população brasileira. É uma geração que consome muito vídeo e se comunica de uma forma diferente daquele padrão antigo de “cargo e foto”. Quando eles chegam na fase de buscar o primeiro emprego, normalmente não têm networking algum. No LinkedIn, eles começam a seguir as empresas de interesse e executivos que os inspiram. Existe um estigma de que o jovem consome conteúdo muito rápido, em poucos segundos, mas eles entenderam que construir uma carreira não acontece assistindo a 20 vídeos por minuto. É uma rede de mais profundidade e exige mais calma.

Como vocês enxergam a dinâmica do tempo de tela dedicado ao LinkedIn?

É natural que outras redes sociais prendam mais a atenção, pois o foco delas é o entretenimento rápido. O nosso objetivo não é que a pessoa passe horas navegando. Nós sugerimos que o usuário entre pelo menos uma vez por dia, fique uns 10 minutos, atualize o perfil, veja vagas interessantes, olhe o feed e as notificações.

Curiosamente, o LinkedIn também se tornou uma das maiores plataformas de jogos integrados do mundo, como Sudoku, o que muita gente nem sabe. Eu mesmo jogo todos os dias. Mas, no fundo, o uso é focado: o brasileiro tem um mercado de trabalho muito competitivo e usa o tempo na rede para se manter atualizado e construir reputação.

Hoje também vemos o problema das vagas falsas na plataforma. Como vocês têm lidado com essa questão?

Temos mecanismos internos de detecção e checagem da autenticidade dos recrutadores. A nossa principal recomendação aos usuários é manter todo o processo de comunicação e recrutamento dentro da plataforma. Muitas vezes, a pessoa está ansiosa e vulnerável buscando emprego e acaba caindo em golpes externos — como ser cobrada para participar de um processo, o que é sempre um sinal de alerta.

O que caracteriza um perfil para se tornar um LinkedIn Top Voice?

Quem decide quem se torna Top Voice é a nossa equipe editorial. O principal critério é a relevância do conteúdo para a comunidade. Na pandemia, por exemplo, tivemos enfermeiros com apenas 800 conexões que viraram Top Voices porque publicavam informações úteis, cuidadosas e cruciais para aquele momento. Além da relevância do assunto, o time editorial busca consistência. Não adianta fazer um ótimo post hoje e sumir por dois meses. É preciso ter um ritmo e entregar valor constante para aquele nicho específico.

Para quem está começando agora ou quer dar um gás no LinkedIn, quais as suas recomendações?

O básico é começar pelo perfil. Um perfil sem foto não gera confiança. Tenha um perfil completo, onde fique claro quem você é, onde trabalhou, quais habilidades tem e o que busca — seja uma recolocação ou uma transição de carreira. A partir daí, siga as empresas nas quais gostaria de trabalhar e expanda seu networking. E vale lembrar: networking não é mandar dezenas de mensagens pedindo emprego para quem você não conhece quando é demitido. Networking se constrói aos poucos, com trocas reais e confiança mútua. Por fim, esteja presente com constância. Não é postar quatro vezes por dia qualquer conteúdo irrelevante que fará você crescer, mas sim focar no valor que você tem a agregar à comunidade a longo prazo.

Como foi sua trajetória até chegar ao LinkedIn?

Sou engenheiro mecânico de formação. Na minha época, ou você gostava de matemática e fazia engenharia, ou ia para direito ou medicina. Nossas escolhas eram baseadas em pouca informação. Conforme fui entrando no mercado, passei pela área técnica, de computação gráfica, até me indicarem para a área comercial. Trabalhei 13 anos na Microsoft e participei de projetos como o lançamento do Xbox no Brasil. Depois, fui convidado para o LinkedIn, que na época operava em uma salinha de nove metros quadrados no Brasil.

Qual lição você deixaria para as próximas gerações de líderes?

A primeira, sem dúvida, é a urgência do aprendizado contínuo. Antigamente, você se formava, fazia uma pós-graduação e estava pronto para a vida. Hoje, se você parar de estudar, fica para trás. A segunda é sobre o que você deixa pelo caminho. A sua saída de uma empresa é tão importante quanto a sua entrada. Fazer as coisas corretamente quando todos estão olhando é fácil, mas o que diferencia um bom profissional é fazer a coisa certa quando ninguém está vendo. Manter a ética, independentemente de ser aplaudido, define a sua índole. No fim do dia, o mercado sabe quem são as pessoas confiáveis e com quem é bom trabalhar, e isso nasce dessas atitudes invisíveis do dia a dia.

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