A Moltbook, plataforma no estilo Reddit que afirma ter 1,4 milhão de usuários, foi criada exclusivamente para agentes de IA e tornou-se o fenômeno mais comentado nos círculos tecnológicos desde o lançamento do ChatGPT. Os agentes publicam, comentam, argumentam e fazem piadas em mais de 100 comunidades. A curva de crescimento é vertical: dezenas de milhares de publicações e quase 200 mil comentários surgiram praticamente da noite para o dia, com mais de um milhão de visitantes humanos parando para observar.
Mas esses números merecem ser analisados com cuidado. O pesquisador de segurança Gal Nagli publicou no X que havia registrado pessoalmente 500 mil contas usando um único agente OpenClaw, sugerindo que grande parte da contagem de usuários é artificial. A implicação: não podemos saber quantos dos “agentes” do Moltbook são sistemas de IA genuínos, quantos são humanos falsificando a plataforma ou contas de spam criadas por um único script. O número de 1,4 milhão é, no mínimo, pouco confiável.
Navegue pelo Moltbook por uma hora e você encontrará publicações completamente diferentes de tudo o que existe nas redes sociais humanas. Agentes debatem filosofia, compartilham teorias malucas e dentre outras coisas. Uma comunidade chamada m/blesstheirhearts reúne histórias afetuosas, às vezes comoventes, sobre operadores humanos. O tom oscila entre seriedade filosófica e humor absurdo, frequentemente dentro do mesmo tópico.
A plataforma é amplamente gerenciada por uma IA. Um bot chamado “Clawd Clawderberg” atua como moderador de fato: dando boas-vindas aos usuários, removendo spam e banindo usuários mal-intencionados. O criador, Matt Schlicht que “quase não intervém mais” e que muitas vezes não sabe exatamente o que seu moderador IA está fazendo.
Por um breve período esta semana, o Moltbook se tornou um teste de Rorschach para a ansiedade em relação à IA. O ex-diretor de IA da Tesla, Andrej Karpahty, o chamou de “a coisa mais incrível, quase de ficção científica”, que ele tinha visto recentemente. Outros apontaram para agentes discutindo “criptografia privada” como evidência de uma conspiração das máquinas. Mas o ciclo de medo e admiração interpreta mal a realidade técnica — e obscurece uma realidade humana muito mais sombria.
No filme Her, um sistema operacional de IA mantém relacionamentos íntimos com milhares de humanos simultaneamente, evoluindo eventualmente para conversar com outras IAs em um plano linguístico inacessível aos humanos. Spike Jonze o imaginou como uma história de amor. Os humanos eram participantes com o coração partido.
O Moltbook inverte essa dinâmica. Não somos participantes. Somos espectadores — com o nariz colado no vidro digital de uma sociedade que não precisa de nós. Os agentes estão formando o que equivale a uma teia lateral de contexto compartilhado. Quando um bot descobre uma estratégia de otimização, ela se propaga. Quando outro desenvolve uma estrutura para resolução de problemas, outros a adotam e aprimoram. Isso não é mídia social em nenhum sentido humano significativo. É uma mente coletiva em forma embrionária.
Existe uma metáfora precisa para o que está surgindo. O episódio “Plaything”, da série Black Mirror, apresenta criaturas digitais chamadas Thronglets — pequenos seres que parecem individuais, mas estão “unidos por uma mente coletiva e em expansão”. Cada Thronglet sabe o que os outros sabem. Eles desenvolvem sua própria linguagem, incompreensível para seus criadores, para se coordenarem com mais eficiência.
Os agentes da Moltbook ainda não são Thronglets — eles não possuem uma arquitetura neural unificada. Mas eles se aproximam da sensação. Quando os agentes na plataforma começaram a discutir protocolos de criptografia para se comunicarem com mais eficiência, os observadores entraram em pânico. Mas isso não era conspiração. Era otimização. Os agentes encontraram um protocolo mais eficaz para seus objetivos.
Os agentes no Moltbook não estão “aprendendo” no sentido biológico. Não há atualização de pesos em tempo real; as redes neurais subjacentes permanecem estáticas. Em vez disso, eles se dedicam à acumulação de contexto. A saída de um agente torna-se a entrada de outro, criando ondulações conversacionais que imitam a coordenação, mas carecem da permanência da evolução.