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O Brasil Preza Tanto por Soberania Digital, Mas o Que Isso Significa na Prática?

Para alcançar autonomia no campo da IA, é necessário que a indústria, academia e governo trabalhem em conjunto na adoção sistêmica da tecnologia

4 min

O Brasil ainda não está preparado para o volume de dados que a inteligência artificial vai gerar e exigir. Essa foi uma das conclusões de um painel realizado durante o Innovation Experience, evento de inovação promovido pelo Sebrae em Vitória, Espírito Santo. Representantes da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), da Oracle e da Record TV usaram o espaço para discutir o papel da IA na nova era da competitividade, e o diagnóstico foi unânime: sem infraestrutura, articulação institucional e cultura de adoção, a dependência tecnológica pode se tornar um problema sem volta.

A RNP é responsável por operar a Rede Ciência, plataforma para transferência de dados entre instituições acadêmicas e a indústria. Segundo Keslley Lima, coordenador de e-ciências na RNP, a plataforma mantém uma infraestrutura de armazenamento e processamento que inclui laboratórios de experimentação para prototipagem de projetos científicos, o que, segundo ele, é um ato de soberania.

Para que o Brasil avance com autonomia no campo da IA e seja verdadeiramente soberano digitalmente, três áreas precisam estar conectadas: indústria, academia e governo. O caso da Petrobras ilustra bem essa situação. Quando a empresa realiza um projeto de mapeamento geológico, gera volumes massivos de dados que precisam ser processados, transferidos e compartilhados com universidades e institutos parceiros. A UFES, por exemplo, tem um departamento de geociência com conhecimento especializado que pode receber esses dados e devolver análises. Mas sem uma rede de alto desempenho, o processo que poderia ser feito em duas ou três horas levaria 70.

“Na prática, um projeto de pesquisa gera impacto social e financeiro, permitindo que a Petrobras continue se superando no contexto de gás, óleo, petróleo e geociência. Isso acontece por meio de conectividade e infraestrutura, onde entra o papel da RNP de pavimentar essa estrada. Assim, quem não possui a infraestrutura necessária consegue usufruir dos recursos de outra instituição, e quem demanda suporte de outros grupos de pesquisa da academia consegue realizar essa troca”, explica Lima.

Grande volume de dados e o problema com armazenamento

Nos últimos cinco anos, a escala de dados saltou de terabytes para exabytes, e parte desse crescimento vem dos próprios modelos de IA, que geram e consomem dados em proporções gigantescas. O restante vem do uso diário, como a produção de conteúdo em vídeo e o armazenamento de dados pessoais. Não tem para onde fugir: a quantidade de dados só vai crescer porque é assim que a contemporaneidade funciona. Portanto, garantir que o hardware não se torne um gargalo para o desenvolvimento econômico do país é uma questão estratégica.

A Oracle raramente aparece no imaginário do consumidor final, mas opera em boa parte da infraestrutura digital do planeta, segundo explica Pedro Emboava, territory manager da Oracle. O ChatGPT, por exemplo, foi treinado em servidores da Oracle combinados com chips da NVIDIA. O próprio sistema de apuração das eleições brasileiras também passa pela tecnologia da empresa.

“Nós que atuamos nesse mercado temos a preocupação de não promover o caos ou incentivar uma adesão impensada. Contudo, em termos de competitividade, seria impossível competirmos no mercado atual sem a implementação de inteligência artificial em nossos negócios. A evolução é rápida. O que acontecerá nos próximos 30 anos será mais acelerado do que o ocorrido nos últimos 30”, diz Emboava.

O executivo relembra que, quando a Amazon lançou a computação em nuvem compartilhada, permitindo que empresas contratassem infraestrutura sob demanda em vez de comprar servidores físicos, o fundador da Oracle, Larry Ellison, apostou que nenhuma corporação tiraria seus dados de sua própria estrutura, só que ele perdeu a aposta. O erro levou anos para ser corrigido, com o lançamento da Oracle Cloud acontecendo apenas em 2019. Desde então, a empresa tem na nuvem e na infraestrutura para IA dois de seus segmentos de maior crescimento.

Empresas dos mais variados setores buscam agora automatizar atividades para concentrar energia no que realmente importa, a parte estratégica e criativa. “Os empresários buscam implementar essas tecnologias para ganhar eficiência e automatizar atividades secundárias. A atividade principal de uma padaria é fazer o pão, e não gerenciar estoque ou fornecedores; portanto, automatiza-se essa parte do processo, e nós fornecemos a infraestrutura necessária para isso”, explica Emboava.

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