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Como Christopher Nolan Filmou “A Odisseia” com uma Câmera IMAX de Mais de 130kg

Mais do que uma adaptação literária, o longa marca um capítulo técnico inédito ao ser o primeiro em IMAX 70mm

6 min

Christopher Nolan está de volta aos cinemas e dessa vez leva a plateia direto para o mar Egeu. Em A Odisseia, o diretor adapta o poema épico de Homero que narra os dez anos de jornada de Ulisses (ou Odisseu) até retornar a Ítaca após a Guerra de Troia, enfrentando no caminho sereias, ninfas e toda sorte de provações místicas.

Mais do que uma adaptação literária, A Odisseia marca um capítulo técnico inédito na carreira de Nolan: é o primeiro a ser totalmente filmado com câmeras IMAX, algo que, até então, era tecnicamente inviável. O orçamento gira em torno de US$ 250 milhões, segundo a Variety, tornando-o um dos projetos mais ambiciosos da carreira do diretor.

O IMAX 70 mm de A Odisseia

O IMAX de 70mm é, atualmente, o maior formato disponível, com a maior resolução, proporcionando uma sensação de imersão. Apenas 41 salas de cinema no mundo são habilitadas para esse tipo de exibição — e 25 delas ficam nos Estados Unidos.

Ainda indisponível no Brasil, o formato considerado o topo de linha foi a escolha de Christopher Nolan para registrar cada quadro de A Odisseia.

Nas salas equipadas para IMAX 70 mm, o filme será exibido na proporção de tela expandida de 1,43:1, com cada quadro do filme possuindo 15 perfurações e passando horizontalmente pelo projetor. Na prática, isso significa que o filme em IMAX tem uma área cerca de 10 vezes maior que o de 35 mm convencional quando projetado.

No Brasil, o formato clássico do IMAX exibirá A Odisseia integralmente na proporção expandida de 1,90:1, enquanto algumas salas IMAX com Laser exibirão o filme no formato 1,43:1, preenchendo todo o campo de visão, do chão ao teto. Também é possível assistir ao longa em salas de cinema convencionais, em formatos como Dolby Vision.

Processo de produção

Existem, contudo, muitas limitações técnicas para gravar um filme inteiramente em IMAX. O compartimento de película dessas câmeras só permite filmagens contínuas de cerca de três minutos. Levando em consideração que o longa tem 2 horas e 52 minutos de duração (de conteúdo já editado), dá para ter uma ideia do trabalho que a equipe teve. Só o rolo do filme passa dos 18 km de extensão e pesa, em média, 300 kg.

O som também é um desafio. Filmes normalmente não são gravados nesse formato, porque o barulho que a rolagem da película física é alto e prejudica os diálogos. Mas Matt Damon contou ao programa 60 Minutes, da CBS, que Nolan e sua equipe decidiram aceitar o desafio e criar um equipamento que abafasse o som de funcionamento da câmera, permitindo criar cenas mais íntimas e captar diálogos de forma fiel, sem precisar de um segundo processo de dublagem (o famoso ADR).

O novo invólucro para as câmeras, conhecido como blimp, foi o responsável por reduzir drasticamente o ruído produzido pelo equipamento. O trabalho foi feito pelas mãos de Nolan, do diretor de fotografia Hoyte van Hoytema e do engenheiro de som Willie D. Burton, além de uma extensa equipe de profissionais.

Toda essa estrutura transformou a câmera em um equipamento de “apenas” 136 quilos.

Efeitos práticos e manuais

Mas nem só de tecnologia se faz um filme. Nolan é famoso por utilizar técninas manuais. E em A Odisseia não foi diferente.

O tamanho gigantesco da câmera criou um obstáculo: a distância entre os atores e a lente. Ao filmar um diálogo em um ângulo fechado (close-up) no rosto do ator, é comum que o colega de cena fique ao lado da câmera, olho no olho, para ajudar a gerar emoção. Mas, com uma câmera gigante no meio do caminho, isso fica difícil.

Para resolver o problema, o diretor usou um conjunto de espelhos para auxiliar no realismo das cenas. O ator auxiliar ficava ao lado da câmera IMAX olhando para o espelho, de forma que a imagem refletida voltava para a câmera, e o olhar do ator filmado ficava próximo o suficiente da lente.

Matt Damon explicou ao Collider que, em uma cena íntima com Anne Hathaway, ele olhava para um espelho que refletia outro espelho. Assim, o rosto da atriz aparecia próximo da câmera, no lugar certo para a linha de olhar, enquanto o equipamento IMAX permanecia protegido pelo blimp.

Nolan apostou também em locações reais para preservar a veracidade das cenas. O navio utilizado por Odisseu e sua tripulação, por exemplo, era real e estava completamente apto a navegar. As filmagens foram feitas nas águas agitadas do Mediterrâneo e em países como Marrocos, Grécia e Itália.

IMDb

Até a trilha sonora foi um ponto de atenção para Nolan. O diretor pediu a Ludwig Göransson que não utilizasse nenhuma orquestra nas gravações, já que, na época retratada, não existiam os instrumentos que temos hoje. Para isso, o compositor chegou a alugar 35 gongos de bronze de diferentes tamanhos para desenvolver sonoridades inéditas para o longa.

The Nolan Way

Se fosse possível resumir a direção de Nolan em dois elementos centrais, eles seriam: IMAX e produção manual.

Tomando como exemplo Oppenheimer (2023), vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2023, a produção não só foi gravada com câmeras IMAX, como também teve muito trabalho manual envolvido.

Na recriação do Teste Trinity, a primeira detonação nuclear da história, Nolan quis “tirar o CGI da mesa” e desafiou o supervisor de efeitos visuais Andrew Jackson a encontrar soluções práticas para representar tanto a dinâmica quântica quanto a explosão em si. A equipe recorreu a técnicas experimentais em escalas variadas: desde explosões gigantes com explosivos e sinalizadores de magnésio até efeitos minúsculos, usando interações de diferentes partículas, óleos e líquidos.

Os sucessos Batman, o Cavaleiro das Trevas (2008), Interestelar (2014) e Dunkirk (2017) também foram realizados utilizando a tecnologia IMAX.

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