1. Início
  2. /
  3. Forbes WSB - Wine, Spirits and Beers
  4. /
  5. Como Esta Startup Transformou o Drink sem Álcool em Negócio de R$ 10 Milhões
Forbes WSB - Wine, Spirits and Beers

Como Esta Startup Transformou o Drink sem Álcool em Negócio de R$ 10 Milhões

Conheça os bastidores da criação da Lucia, o aperitivo nacional que esgotou seu estoque em 8 horas e mostra um novo caminho no mercado dos não-alcóolicos

6 min

A onda do detox etílico, em alta especialmente durante o Janeiro Seco, não se limita mais ao primeiro mês do ano. Cada vez mais o público tem se mostrado mais seletivo acerca do que consome. Entre os brasileiros, houve um aumento da parcela da população que afirma não consumir álcool de 55% em 2023 para 64% em 2025, segundo dados da pesquisa Ipsos-Ipec, encomendada pelo CISA (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool).

Nessa alta, o setor de bebidas se mobiliza para abocanhar uma fatia do mercado, de olho no seu potencial bilionário. No Brasil, quem surgiu recentemente – e já com sucesso – foi o drink sem álcool Lucia. O aperitivo 100% autoral, o primeiro não alcóolico do mercado nacional, teve sua estreia em agosto de 2025 e chegou a ter um de seus estoques esgotado em apenas 8 horas. 

“A Lucia nasceu de uma inquietação pessoal e coletiva”, afirmam as fundadoras da marca, Bertha Jucá e Victória Linhares, em entrevista à Forbes. Depois de uma estreia de ouro, em que a expectativa de alcançar um faturamento de R$ 10 milhões passou de dois anos para apenas um, as fundadoras também revelam que há um pipeline em desenvolvimento para novos sabores. A longo prazo, o plano também vislumbra expansão para bares, restaurantes, hotéis e experiências gastronômicas.

Zero Álcool e Uma Fórmula Mais Limpa

Sob a premissa de que sem álcool não significa sem graça, a Lucia foi desenvolvida com a mesma lógica técnica e gastronômica de um destilado ou de um coquetel clássico. Como parte da base ética e técnica do produto, mais um desafio foi imposto: criar uma fórmula que também fosse mais “limpa”.

Além de zero álcool, a fórmula também é vegana, sem glúten, sem sódio, sem açúcares adicionados e livre de transgênicos. Bertha e Victória explicam que não queriam que a bebida dependesse de aditivos para funcionar. Sem poder aderir a atalhos comuns da indústria, a dificuldade técnica foi elevada.“Isso exigiu mais testes, mais tempo e mais cuidado, mas era inegociável para manter coerência entre produto, marca e discurso”, pontuam. 

Divulgação/LuciaBertha (à esquerda) e Victoria, fundadoras da Lucia

Logo no início do desenvolvimento da Lucia, esse inegociável se mostrou como o próprio ponto de partida. José Luiz Soares, da plataforma de conteúdo “Do Pão ao Caviar” e um dos criadores da fórmula, conta que foram degustadas 26 bebidas sem álcool de mercados da Europa e Estados Unidos. A conclusão foi objetiva: muitos dos mocktails do mercado eram excessivamente doces, lineares ou cansativos após poucos goles. 

O objetivo era que a bebida entregasse corpo, densidade, resistência em boca, complexidade aromática e camadas de sabor. “Foram testados mais de 400 aromas e extratos naturais, passando por mais de 40 versões até chegar ao equilíbrio desejado”, lembra Soares. 

Imersão Total para Um Drink Complexo

O processo de criação do Lucia envolveu uma experiência imersiva de cinco dias sem celulares ou distrações. Organizada pela Mesa Company, consultoria brasileira especializada em promover soluções para empresas, a imersão envolveu 20 pessoas, entre elas: as fundadoras, José e Michelly Rossi – mixologista do Bar dos Arcos e do Riviera Bar em São Paulo –, que também assina a fórmula. 

Depois do primeiro diagnóstico acerca das opções já existentes no mercado, a decisão foi iniciar do zero. Sem uma receita pronta, o processo foi guiado por percepções sensoriais. “A Michelly trouxe a ideia da base de cupuaçu, que se mostrou fundamental por oferecer textura, volume de boca e notas aromáticas delicadas”, diz Soares.

É esse cuidado sensorial e técnico que pode ser visto como um dos diferenciais da Lucia. José Soares nos guia pelas nuances e efeitos dos ingredientes: “Amargor para sustentação, frescor para equilíbrio, dulçor controlado e uma picância sutil na língua, capaz de gerar surpresa e alongar a experiência”.

Divulgação/LuciaA fórmula foi criada por José Luiz Soares e Michelly Rossi

Ele ainda ressalta que os extratos utilizados na imersão foram criados artesanalmente em tempo real, a partir de plantas e ingredientes selecionados. Tudo foi testado – formas de extração, misturas e proporções – até alcançar a fórmula final desejada, ao final dos cinco dias de imersão. O trabalho, no entanto, não terminou depois do “nascimento sensorial da Lucia”, como Soares define essa experiência, uma vez que esse primeiro resultado era o mocktail em sua forma artesanal.

“Quando levamos a fórmula para o laboratório, iniciou-se uma segunda etapa igualmente rigorosa: traduzir aquela experiência sensorial para o ambiente industrial”, explica o criador. Especialmente pela dinâmica diferente dos extratos naturais industriais dos feitos manualmente, foi necessário uma dedicação técnica para que esse segundo resultado ficasse o mais próximo possível da bebida criada na imersão. 

Experiência Pessoal e Tendência Mundial

Bertha e Victória pontuam, que em suas próprias rotinas e círculos sociais, já observavam uma mudança de comportamento na redução no consumo de álcool. “A marca nasce desse encontro entre repertório técnico, sensibilidade estética e leitura de comportamento. Não queríamos criar apenas uma bebida, mas um novo código social para o ato de brindar”, refletem. Essa análise não é individual e faz parte de uma tendência mundial.

Divulgação/LuciaO empreendimento acompanha uma expansão do mercado de bebidas sem álcool

De acordo com dados de 2023 da IWSR, uma das principais consultorias de análise do mercado de bebidas, a parcela de pessoas que não consomem álcool tem aumentado em diversos países, como França, Alemanha e Espanha. Uma tendência comportamental que tem sido acompanhada por uma mudança no mercado, na medida em que o setor de não-alcoólicos espera crescer cerca de US$ 4 bilhões (R$ 21,45 bi) até 2028, segundo dados de 2024 da consultoria.

No cenário brasileiro, o Estudo Estratégico sobre Bebidas com Zero e Baixo Teor Alcoólico 2024 do IWSR mostra o país como mercado-chave de crescimento para bebidas sem álcool. O case da Lucia é um dos exemplos de como essa tendência tem influenciado o mercado nacional. Com uma primeira rodada de captação de R$ 4 milhões, liderada pela Zavii Venture Builder – que depois se tornou sócia da marca –, o empreendimento já espera faturar R$ 10 milhões em seu primeiro ano. 

Para a investidora, Lucia representa a entrada em uma nova categoria de consumo premium, com grande potencial de consolidação e M&A. “Ela tem tudo o que a gente procura em uma marca: produto com diferencial claro, fundadoras com autoridade e autenticidade, narrativa potente e timing de mercado”, afirma Renan Georges, fundador e CEO da Zavii.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.