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Como a Biogénesis Bagó Transformou a Vacina da Aftosa em um Império Global de Saúde Animal

Esteban Turic, CEO da argentina Biogénesis Bagó, conta como vem mudando o foco da companhia centrada em animais de produção para o bilionário mercado pet

7 min

Em um momento no qual o agronegócio argentino tenta consolidar sua competitividade global, a sanidade animal se posiciona como um pilar estratégico para impulsionar produtividade, inovação e abertura de mercados. Presente em cerca de 60 países, a Biogénesis Bagó é uma das companhias mais influentes do setor em nível regional e mundial. No Brasil, a companhia argentina está há cerca de 25 anos. Na semana passada, a Forbes Argentina conversou com o Esteban Turic, CEO global da Biogénesis Bagó.

Embora seu nome costume ser rapidamente associado à vacina contra a febre aftosa, a Biogénesis Bagó é muito mais do que isso. A empresa se transformou em uma referência global que vai além: é líder mundial em vacinas contra aftosa, e também de vacinas contra a raiva, pela capacidade industrial, desenvolvimento tecnológico e alcance geográfico. Hoje, figura entre as 20 maiores companhias de saúde animal do planeta, combinando inovação científica com uma visão próxima das particularidades de cada mercado.

Nesta conversa, Turic analisa como a companhia se adapta a diferentes sistemas produtivos — dos Estados Unidos e Europa à Ásia e América Latina —, o potencial da Argentina em termos de produtividade e adoção tecnológica, e o papel cada vez mais relevante do mercado de pets no faturamento global. Ele também aprofunda os fatores que permitiram a internacionalização sustentada da Biogénesis Bagó, sua estratégia diante das mudanças regulatórias e as oportunidades abertas pelo sólido status sanitário argentino no comércio exterior.

Quando se pensa na Biogénesis Bagó, uma das primeiras coisas que vêm à mente é a vacina contra a aftosa. Mas é muito mais do que isso, certo?

A Biogénesis Bagó é uma empresa de origem argentina, mas hoje é a maior de toda a América Latina no setor de saúde animal. Se formos colocá-la no ranking internacional, está entre as 20 maiores do mundo especializadas em saúde animal. Em alguns segmentos específicos, destacamos ainda mais.

Em reprodução, estamos entre as quatro empresas mais importantes. Em vacinas contra aftosa e raiva, somos líderes globais, número um em capacidade industrial, desenvolvimento tecnológico, alcance geográfico e portfólio de produtos. Produzimos mais de nove vacinas e exportamos para 26 países.

Dessas unidades na Argentina saem exportações para 26 países, mas vocês também produzem em outros lugares?

Sim. Começamos como uma empresa nacional e, depois de algumas exportações, nos expandimos regionalmente para países do Mercosul. Hoje temos sete filiais na América Latina e seis fora da região (Estados Unidos, Europa, Oriente Médio, China, Coreia do Sul, Vietnã e Tailândia), com equipes próprias que desenvolvem negócios localmente. A partir dessas filiais, alcançamos mais países — ao todo, são mais de 64 com exportações. No ranking da indústria farmacêutica argentina, no capítulo de saúde animal, somos o número um em exportações e, comparando com o mercado humano, estamos na terceira posição.

Como se compara o mercado argentino ao norte-americano, europeu ou ao do Vietnã e da China?

Cada um tem suas particularidades, e é isso que nos caracteriza: atender necessidades específicas, às vezes para o mesmo problema. Oferecemos produtos diferentes para a mesma questão, como vacinas preventivas. A tendência é a prevenção de doenças, com maior uso de vacinas, antiparasitários, desinfetantes e produtos de higiene, o que marca a direção entre os animais de produção.

No caso dos animais de companhia, é ainda mais sofisticado. O ponto de encontro é a prevenção. Os sistemas produtivos variam, embora pareçam semelhantes, pois têm especificidades de escala ou método, mas tratam das mesmas espécies. As particularidades locais exigem adaptações, estar próximos dos clientes e compreender suas necessidades.

O campo argentino é um dos setores mais competitivos do mundo. Dentro dele, como está o mercado de sanidade animal em comparação com os outros países onde vocês atuam?

A Argentina tem muito potencial. Quando analisamos a evolução da produção animal e da medicalização de pets, Europa e Estados Unidos crescem a taxas mais baixas. Já mercados como Ásia, Oriente Médio, África e América Latina têm taxas de crescimento mais expressivas. Há mais potencial não apenas em número de cabeças, mas em produtividade. Ainda há grande margem para crescer com tecnologia, multiplicando resultados. Essa é a grande oportunidade.

Ou seja, a Argentina está atrasada em produtividade?

Em relação aos países vizinhos, não. Mas comparada ao primeiro mundo, há espaço para avançar em eficiência por meio da maior adoção tecnológica. Essas tecnologias estão disponíveis no setor de saúde animal. Não nos falta nada que os países desenvolvidos tenham. O desafio é transformar produções tradicionais em profissionais, com apoio técnico veterinária que planeje programas sanitários e incentive a adoção tecnológica.

É um setor altamente regulado e, ainda assim, exige inovação constante. Como equilibrar isso?

Com planejamento estratégico, investimento e antecipação. Às vezes basta observar o que já aconteceu em outros lugares e adaptar, inovar sobre essa base e criar diferenciais. É um desafio, mas viável.

O que está acontecendo no mercado pet?

Há um potencial de inovação muito mais intenso e de maior valor, acompanhado por uma população crescente. A Argentina segue a tendência global de maior medicalização dos pets, que hoje são vistos como parte da família, recebem mais atenção veterinária e demandam mais tecnologia.

Há paralelos com os humanos: aumento da expectativa de vida e surgimento de doenças como obesidade, sedentarismo e demência. O setor de alimentos desenvolve dietas para controle de peso e até medicamentos para reduzir o apetite dos animais. Há mais sedentarismo entre os pets. Há vinte anos, 60% do faturamento da indústria de saúde animal vinha dos animais de produção. Hoje a proporção é de cerca de 40-60.

Então, hoje os pets geram mais receita?

Em faturamento, sim, mas não em número de unidades, pois há 5 bilhões de animais de produção no mundo, contra cerca de 1 bilhão de cães e gatos. Mesmo assim, o investimento nesses animais é significativo. Os donos querem que tenham qualidade de vida e longevidade.

Como a empresa trabalha esses diferentes segmentos?

São mercados distintos. Animais de produção exigem tratamentos populacionais e medidas preventivas estratégicas. Já os pets recebem tratamento individualizado e tecnologias mais sofisticadas. No nível cirúrgico, as intervenções em pets se assemelham às humanas.

Como vocês enfrentam as mudanças regulatórias e econômicas?

Um dos fatores do nosso sucesso na internacionalização é o foco na qualidade, adotando padrões acima das exigências locais. Isso nos permite acessar mercados sofisticados e ampliar nossa presença global. Estamos habituados a trabalhar com reguladores rigorosos, que priorizam a segurança dos produtos. Assim, estabelecemos padrões próprios de excelência. Somos fornecedores de países altamente exigentes e temos forte participação de mercado.

A Argentina possui excelente status sanitário. É fundamental preservá-lo. Temos condições sanitárias excepcionais para produção bovina, suína e avícola, que poucos países possuem, e isso abre portas à exportação. Medidas mal avaliadas podem representar riscos. Estamos sempre preparados. Competir em mais de 60 países não nos assusta; nos desafia. Isso estimula a melhoria contínua, a inovação e o crescimento. Há mais de 70 anos mantemos expansão constante, desde a primeira licença obtida em 1952. Evoluímos até alcançar contratos de 15 anos com países de primeiro mundo, e esses contratos não são firmados com qualquer empresa.

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