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“Queremos Transformar a Cannabis em uma Cultura Como Qualquer Outra no Brasil”, Diz Pesquisadora da Embrapa

A médica-veterinária e doutora em biologia molecular Daniela Bittencourt está no grupo que vai estruturar pesquisas inéditas com foco em genética, manejo e novas políticas para o novo cultivo

7 min

A autorização excepcional concedida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, em novembro de 2025, marca um ponto de inflexão silencioso, porém estratégico, para o agronegócio brasileiro. Pela primeira vez, a principal instituição pública de pesquisa agropecuária do país passa a estruturar, de forma oficial, um programa científico dedicado à Cannabis sativa, com foco em genética, manejo, industrialização e políticas públicas.

No centro desse movimento está a médica-veterinária e doutora em biologia molecular Daniela Bittencourt, pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e uma das grandes articuladoras técnicas e institucionais da iniciativa.

“Queremos transformar a Cannabis em uma cultura como qualquer outra no Brasil: com tecnologia, rastreabilidade e alto desempenho agronômico”, afirma a pesquisadora.

Mais do que um debate medicinal, o programa nasce com uma ambição clara de inserir a Cannabis no mesmo patamar agronômico de qualquer outra cultura agrícola estratégica, com base científica, segurança regulatória e racionalidade econômica.

Um mercado que cresce antes da regra

Andia/Getty ImagesPlantio de cannabis a céu aberto

A entrada da Embrapa nesse debate ocorre em um momento em que o mercado brasileiro de Cannabis já existe de fato, ainda que não plenamente de direito.

O cultivo nacional avança sustentado por decisões judiciais individuais, principalmente por meio de habeas corpus concedidos a associações de pacientes, em um modelo que permite a produção, mas não oferece previsibilidade jurídica nem instrumentos típicos da política agrícola.

“O Brasil já cultiva Cannabis hoje. A diferença é que esse cultivo acontece de forma fragmentada, judicializada e sem apoio técnico estruturado”, diz Daniela. “Não existe zoneamento agrícola, não existe recomendação oficial de manejo, não existem cultivares registradas. Isso gera risco para quem produz e para o próprio Estado.”

Levantamentos recentes da consultoria Kaya Mind indicam que o país já soma ao menos 27 hectares cultivados com Cannabis para fins terapêuticos, distribuídos entre estufas, áreas abertas e ambientes controlados.

O número ainda é pequeno, mas revela uma base produtiva real, construída à margem da regulamentação agrícola tradicional. Com regras nacionais estabelecidas, as projeções apontam para um salto expressivo, com a área cultivada podendo superar 15 mil hectares no quarto ano de regulamentação, considerando todas as finalidades da planta, como flor, fibra e semente.

Potencial econômico fora da porteira institucional

A expansão ocorre apesar da ausência de regras claras. Em 2025, o mercado brasileiro ligado à cultura canábica, incluindo insumos, acessórios e produtos correlatos, movimentou cerca de R$ 967,2 milhões, consolidando um novo polo de diversificação econômica, segundo o Anuário de Growshops, Headshops e Marcas 2025, produzido pela Kaya Mind.

Ainda assim, trata-se de um setor que opera fora das políticas tradicionais de crédito rural, seguro agrícola, zoneamento climático e pesquisa pública estruturada.

“Quando um mercado cresce sem base agronômica, ele cresce de forma desequilibrada”, afirma Daniela. “A pesquisa pública entra justamente para organizar, gerar dados e permitir que a regulamentação futura seja técnica, e não apenas reativa.”

A autorização concedida à Embrapa cria um precedente institucional relevante, pois pode impactar que forma muito positiva um crescente mercado medicinal, além de diversos outros mercados industriais para a produção de fibras, biocombustíveis, nutrição humana e animal, e até insumos para a construção civil, como a produção de tijolos.

A experiência pessoal que virou questão científica

Andia/Getty ImagesDetalhe de medicamento à base de canabidiol

O curioso de toda essa história, foi como a pesquisadora, uma médica-veterinária acabou comprando a bandeira da Cannabis. Sua aproximação não começou em um projeto formal. Surgiu de uma experiência pessoal durante o período em que atuava como cientista visitante nos Estados Unidos, no auge da pandemia da Covid-19. Distante do Brasil e da família, Daniela enfrentou crises severas de ansiedade.

“Eu cheguei a ter crises diárias de choro descompensado. Era um quadro emocional muito difícil”, relembra. O tratamento com óleo de canabidiol (CBD), adquirido legalmente na Califórnia, trouxe uma resposta rápida. “No quarto dia, as crises cessaram completamente. Aquilo me impressionou muito.”

A vivência despertou uma inquietação profissional. “Eu pensava: como uma planta com esse nível de impacto não está sendo estudada pela Embrapa? Não fazia sentido para mim como cientista”, afirma.

A partir daí, o tema passou a ser tratado como uma lacuna de pesquisa agropecuária, e não como uma pauta ideológica.

A entrada da Cannabis no radar da Embrapa

De volta ao Brasil, Daniela fazia suas recomendações para o estudo da planta. Embora a Embrapa já tivesse emitido pareceres técnicos favoráveis, inclusive em parcerias e avaliações de estudos de demais instituições de pesquisa, ainda não havia uma linha de pesquisa ativa.

O cenário começou a mudar em 2023, com a ampliação do espaço institucional da Cannabis no Brasil. A criação de um Grupo de Trabalho, reunindo pesquisadores de diferentes unidades, permitiu consolidar um diagnóstico técnico do estado da arte da pesquisa da planta no mundo e definir uma agenda estruturada para o Brasil.

“O grupo teve um papel decisivo para tirar a Cannabis do campo da opinião e colocá-la no campo do método científico”, afirma.

Quatro eixos para transformar planta em cultura agrícola

Justin Sullivan/Getty ImagesCultivo de Cannabis

O programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI) da Embrapa para Cannabis foi estruturado em quatro eixos. O primeiro é a formação de um banco de germoplasma e o desenvolvimento de programas de melhoramento genético.

“Sem genética, não existe agricultura moderna. Esse é o ponto de partida”, diz Daniela.

O segundo eixo envolve práticas de manejo agronômico e fitossanitário para diferentes sistemas produtivos. O terceiro trata de pós-colheita e industrialização, incluindo secagem, extração e aproveitamento da biomassa.

O quarto eixo abrange economia e políticas públicas, com foco em inteligência estratégica, zoneamento climático e suporte técnico à regulamentação.

Três unidades da Embrapa lideram os projetos iniciais: Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília (DF), Clima Temperado, em Pelotas (RS), e Algodão, em Campina Grande (PB).

“Cada unidade entra onde tem competência instalada. É assim que se constrói uma política científica sólida”, afirma a pesquisadora.

Cannabis industrial e bioeconomia no horizonte

Para além do uso medicinal, a pesquisadora destaca o potencial do cânhamo industrial como cultura estratégica para o país. “Estamos falando de uma planta com aplicação em fibras, alimentos, cosméticos, construção civil e biocombustíveis. Isso dialoga diretamente com a bioeconomia”, diz.

Segundo Daniela, o Brasil já possui materiais genéticos adaptados, desenvolvidos historicamente por povos originários e agricultores locais, mas carece de validação agronômica e enquadramento regulatório.

“O desafio agora é transformar esse conhecimento disperso em cultivares registradas, produtivas e compatíveis com a legislação.”

Pesquisa agora, agricultura depois

Antes do início efetivo dos experimentos, a Embrapa ainda passará por inspeções presenciais da Anvisa para validação de protocolos de segurança, controle de acesso e rastreabilidade. A expectativa é iniciar os trabalhos de bancada em março de 2026.

“Nossa prioridade é conhecer o que o Brasil já tem. Não começamos do zero”, afirma Daniela. “Queremos aplicar à Cannabis o mesmo rigor científico que aplicamos a qualquer outra cultura.”

Ao inserir a planta no universo da pesquisa agropecuária, a Embrapa ajuda a deslocar o debate. “A Cannabis precisa sair do campo da exceção. Ela precisa ser tratada como agricultura”, resume a pesquisadora.

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