O coração de Miami, onde a cultura vibrante e a energia cosmopolita se fundem, um fenômeno notável está se desenrolando diante de nossos olhos. Em menos de uma década, a cidade se consolidou como verdadeiro epicentro do esporte e do entretenimento mundial. Dos grandes torneios de tênis ao automobilismo de elite, passando pelo futebol americano, o beisebol e o futebol, Miami tornou-se destino obrigatório para atletas, fãs e investidores globais.
À frente dessa transformação está Tom Garfinkel, CEO do Miami Dolphins e vice-presidente do Hard Rock Stadium. Sob sua liderança, a organização não apenas fortaleceu a tradição do futebol americano na cidade, mas também reposicionou Miami como plataforma global para o esporte e o entretenimento. Nossa conversa revelou a visão estratégica por trás desse movimento, os bastidores de um mercado altamente competitivo e as lições de liderança que moldam essa nova era.
O novo DNA do entretenimento
Garfinkel não começou sua carreira nos palcos esportivos mais grandiosos. Seu primeiro contato com o mundo dos negócios veio por um caminho improvável: atrás do balcão de um bar. Recém-formado pela Universidade do Colorado, sem um plano claro, ele se viu em Chicago dormindo no sofá de um amigo e tentando entrar na indústria esportiva. O trabalho em bares próximos ao Wrigley Field, centenário estádio de beisebol do Chicago Cubs, ensinou-lhe lições valiosas sobre gestão, estratégia e dinâmica do consumidor.
“Eu queria trabalhar com esportes, mas ninguém queria me contratar”, relembra Garfinkel. Foi seu pai quem lhe deu um conselho que mudaria sua trajetória: não importa onde você está, o importante é estar aprendendo. Ele compartilhou ideias sobre como melhorar a operação do bar onde trabalhava e, pouco tempo depois, estava gerenciando três estabelecimentos.
Essa experiência prática abriu portas para cargos executivos na cervejaria Miller Brewing Company e na Texaco, onde liderou programas de motorsport, incluindo Nascar e kart. Mais tarde, ingressou no beisebol, chegando à presidência do San Diego Padres, antes de assumir os Dolphins e o Hard Rock Stadium. Se há um fio condutor nessa jornada, é a percepção de que esporte, hospitalidade e negócios estão mais interligados do que nunca.

No fim do dia, seja um jogo da NFL, um GP de Fórmula 1 ou um grande show, a experiência do público é o que define seu sucesso. “Quando você olha para um evento como a Fórmula 1 em Miami, o que vê? Infraestrutura de primeira linha, espaços premium, gastronomia de alto nível. Esporte é entretenimento, e entretenimento é hospitalidade”, pontua Garfinkel.
F1: uma ideia visionária
O projeto de trazer a Fórmula 1 para Miami foi uma aposta ousada. Começou com um pensamento provocador: e se construíssemos uma pista de corrida ao redor do Hard Rock Stadium?
A ideia inicial era levar o circuito para o centro da cidade, mas as complexidades logísticas, os custos elevados e as barreiras políticas tornaram essa opção inviável. “Eu sempre soube que eventos ao vivo criam novos fãs. Assistir a uma corrida pela TV nem sempre é envolvente para quem não conhece o esporte, mas estar presente no evento transforma a experiência”, diz ele.
O conceito foi apresentado à Fórmula 1 e, após longas negociações – interrompidas temporariamente pela pandemia –, o projeto foi aprovado. Em 2022, o Grande Prêmio de Miami estreou no calendário da F1, trazendo uma nova abordagem para o automobilismo nos EUA.

O evento, realizado no Hard Rock Stadium, foi meticulosamente planejado para oferecer uma experiência premium. Desde os exclusivos Paddock Club e Hospitality Suites até a conectividade fluida do circuito, tudo foi desenhado para transformar o GP em um evento social e esportivo de alto padrão.
“O primeiro ano foi um desafio gigantesco. Tivemos que construir um autódromo em 11 meses, com todas as dificuldades de logística, custos e fornecimento de materiais pós-pandemia”, revela. Desde então, cada edição trouxe melhorias significativas. “Criamos um evento de experiência global, mas com identidade local. Queríamos que os fãs se sentissem em Miami, que vivenciassem o que a cidade tem de melhor em cultura, gastronomia e entretenimento.”
E os números comprovam o acerto dessa proposta. Na última edição, o Brasil foi o quarto maior mercado internacional em número de espectadores, reflexo do crescente interesse dos brasileiros pela Fórmula 1 e pelo próprio Hard Rock Stadium como destino esportivo.
O fator Miami no esporte global
Se há hoje uma cidade que simboliza a ascensão meteórica do esporte como indústria global, essa cidade é Miami. O Hard Rock Stadium já recebeu Super Bowls, finais de College Football, Copa América, Mundial de Clubes e agora se prepara para a Copa do Mundo Fifa 2026. “Miami se tornou polo esportivo e cultural de alcance mundial. Em que outro lugar você pode ver Lewis Hamilton, Messi, Taylor Swift e Serena Williams se apresentando no mesmo palco?”

A resposta inclui a transformação do Hard Rock Stadium em um hub de entretenimento premium. Além dos eventos esportivos, a estrutura recebe alguns dos maiores nomes da música e eventos corporativos de alto nível.
O segredo do sucesso? Gestão, experiência do cliente e inovação. O Precision Club, por exemplo, é um projeto revolucionário que transformou a pista de F1 em um circuito exclusivo para membros. O espaço também foi adaptado para oferecer experiências VIP durante jogos dos Dolphins, como tailgates de luxo nas antigas garagens da F1. “Criamos um ambiente onde os fãs podem vivenciar o esporte de maneira diferenciada, seja no automobilismo, no futebol americano ou no entretenimento em geral”, explica Garfinkel.

O Brasil no radar
Se Miami se tornou referência no esporte, nada mais natural que a entrada do Brasil no radar dos players do setor. A NFL já deu sinais de que pretende expandir sua presença na América Latina, e os Dolphins querem ser o time do Brasil. “Nossa intenção é investir no Brasil como nunca fizemos antes. Queremos construir uma base de fãs forte e, eventualmente, levar um jogo dos Dolphins para São Paulo ou Rio de Janeiro”, revela Garfinkel.

A recente estreia da NFL no Brasil, com o jogo entre Philadelphia Eagles e Green Bay Packers realizado na Neo Química Arena, em São Paulo, foi sucesso absoluto. Mas Garfinkel acredita que um jogo no Maracanã – ou até mesmo na Arena da Amazônia, que sediará a COP30 – poderia elevar ainda mais essa conexão entre Miami e o Brasil. “O Brasil tem uma base apaixonada de fãs de esportes. Estamos apenas começando essa jornada e queremos fazer parte dela de forma mais significativa”, conclui.
O legado
O que Miami está construindo vai além do esporte. Trata-se de uma nova forma de pensar o entretenimento, em que infraestrutura, experiência do público e hospitalidade caminham lado a lado para criar algo verdadeiramente global. Tom Garfinkel e sua equipe não estão apenas administrando times e eventos. Eles estão redefinindo a maneira como vivemos o esporte. E, ao que tudo indica, esse jogo está apenas começando.