Munidos de vocabulários autorais que aprofundam seus credos, a gaúcha Karin Lambrecht e o paulistano Sérgio Sister exploram a cor, uma das principais ferramentas da arte através dos tempos. A seriedade com que se debruçam em seus trabalhos, sejam eles em papel, tela ou outra mídia, demonstra a incansável busca interior desses artistas que se tornaram mestres da arte abstrata nacional. Karin, hoje mora no sul da Inglaterra, mas viveu e estudou na Alemanha dividida da Guerra Fria; Sérgio vive em São Paulo onde, como estudante universitário, foi preso e torturado pela ditadura militar brasileira. Em suas obras, as abordagens distintas, refletindo os caminhos tortuosos de suas vidas, nutrem-se de experiências íntimas, pessoais. Elas se expressam, principalmente, através do exímio uso da cor impregnada de uma aura de simplicidade envolta em mistério, êxtase e silêncio. Diante do conjunto hipnotizante começamos a entender a contribuição de ambos para a evolução da complexa tradição cromática da pintura.

A exposição também marca um momento histórico para a arte brasileira. Apesar de suas obras já terem sido expostas em conjunto em coletivas passadas, “Sérgio Sister e Karin Lambrecht: Color Clímax” na Galeria Nara Roesler de Nova York, é a primeira vez que uma mostra reúne apenas obras desses dois artífices estelares.
Vale também ressaltar o diálogo poético da montagem criado pela curador, o venezuelano Luis Pérez-Oramas: “Ao longo da história da arte, sempre que se abordam os efeitos e afetos da pintura, a cor surge como o tema mais persistente e, ao mesmo tempo, mais difícil de apreender. (…) é a variedade, a mutação e a multiplicação das superfícies do clímax da cor que aproxima ambos os artistas”.
Algumas reflexões:
Cor e Luz
Karin Lambrecht: Há anos escrevi o ensaio “Razão Ardente”, é dele este parágrafo: “Quando pequena lembro a sensação de um fenômeno natural, que acontece em determinados dias em Porto Alegre durante o pôr do sol, um clarão intenso no céu tingiu o final da tarde de tons laranja e dourado, e os reflexos tingiram o mundo natural a minha volta, o azul celeste desapareceu e eu senti medo.” Até hoje a luz me impressiona, afinal luz é cor.
Sérgio Sister: A luz é central ao meu trabalho. Desde os anos 1980, tento usar a luz de duas maneiras. Procurando fazer com que a luz externa à obra reflita na pintura, criando uma luminosidade mutante, um movimento para a cor, a outra é ativando internamente a cor, de modo que ela se modifique conforme o movimento do espectador diante da obra. Para isso, quase sempre utilizo pigmentos metálicos misturados à tinta. Eles ajudam a produzir os reflexos.

Cores Predominantes
Karin Lambrecht: Vermelho sempre e, na exposição, em várias tonalidades. No Brasil, os solos são muito coloridos, possuem uma riqueza de tons, como Terra Vermelha, aqui, na Inglaterra, predomina o English Red, que vejo nas antigas, belas casas inglesas, construídas em tijolos aparentes. E gosto de intercalar com tonalidades azuis, céu ou mar…
Sérgio Sister: Não tenho preferência por uma cor. Gosto de misturar cores. Raramente uso a cor pura, saída do tubo de tinta. Gosto de aproximações tonais mais do que de contrastes fortes.
Camadas Emocionais
Karin Lambrecht: Para mim, atualmente, pintar é ouvir o silêncio. Meu estúdio é bem silencioso, tem dia que não falo com ninguém. A pintura em camadas de aguadas uma sobre as outras segue o movimento de meu corpo e a luz matinal. Nesse momento, sinto um conjunto de sensações em harmonia com a alma.
Sérgio Sister: Minhas pinturas em tela e em papel sempre têm suas superfícies ativadas. Deixam de ser superfícies lisas para ganhar matérias e materiais, através de camadas mais grossas de tinta e, agora, com a colagem de elementos externos, como o tipo simples de origami e dobraduras de papel, que estou utilizando, que dá uma materialidade expressiva. Ele é feito com kozo japonês, um papel simples mas sensível, e papel de filtro de café.
Influências
Karin Lambrecht: Meu professor de pintura Raimund Girke na Akademie der Künste(academia de arte), em Berlim Oriental, em 1980. Foi meu start da consciência e do amor pela pintura e a arte. Se existisse uma volta ao tempo, adoraria revisitar aquele período.
Sérgio Sister: Morandi, Rothko, Brice Marden, Josef Albers, Mira Schendel, Wilys de Castro, Lygia Clark, só para começar. Além disso, tive muita sorte de conviver com amigos artistas e críticos que me ajudaram muito a pensar o trabalho.
Maturidade Artística
Karin Lambrecht: A maturidade talvez seja o que denominamos late works, ou trabalhos tardios. O corpo vai se transformando, tempo/vida, os movimentos da mão, a artrite surgindo. A coerência continua a mesma pois sempre considerei meu corpo meu instrumento de trabalho, pintar, mover-me como na dança e no teatro.
Sérgio Sister: Em pintura, a prática é fundamental e leva tempo. Ainda estou aprendendo. Acho que a maturidade é ganhar segurança no fazer e liberdade suficiente para não ter medo de errar. Ir mudando sempre.

Admiração Mútua
Karin sobre Sérgio: Sister é um pintor maravilhoso. Ambos pintamos com pigmentos em resina acrílica, em ateliês alquímicos quase em extinção. O olhar de Luis Pérez-Oramas despertou e tornou visível uma relação em nossos trabalhos, não é mesmo, querido Sérgio?
Sérgio sobre Karin: Gosto do trabalho da Karin há muito tempo. Ela já me deu muitas dicas sobre pigmentos porque os conhece como ninguém. Ficamos muito amigos nesta exposição. Além de ser uma grande artista, é uma pessoa doce.
“Sérgio Sister e Karin Lambrecht: Color Clímax”
Curadoria de Luis Pérez-Oramas
Até 28 de fevereiro de 2026
Galeria Nara Roesler, Nova York
Com colaboração de Cynthia Garcia, historiadora de arte, premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) [email protected]
Nara Roesler fundou a Galeria Nara Roesler em 1989. Com a sociedade de seus filhos Alexandre e Daniel, a galeria em São Paulo, uma das mais expressivas do mercado, ampliou a atuação inaugurando filial no Rio de Janeiro, em 2014, e no ano seguinte em Nova York.
Instagram galerianararoesler
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