O diagnóstico do câncer nos coloca diante de uma questão desafiadora: entender que não cuidamos apenas de uma doença, mas de uma pessoa que tem uma história de vida e carrega medos, desejos e expectativas.
Essa reflexão diária que todos os profissionais de saúde devem fazer se tornou ainda mais clara diante dos resultados de uma pesquisa inédita realizada pelo Instituto Vencer o Câncer, em parceria com o Núcleo de Pesquisa do IBCC Oncologia e com o fomento da farmacêutica alemã Merck, que buscou entender a percepção de pacientes brasileiros com câncer de bexiga avançado ou metastático.
O estudo revela uma informação extremamente relevante ao mostrar que a maioria destes pacientes (85,7%) escolhe, sem hesitar, a qualidade de vida em vez de simplesmente prolongar a sobrevida. Esse dado nos obriga a olhar com mais atenção para o que realmente importa no cuidado oncológico, que é saber ouvir as necessidades e compartilhar informações.
Os pacientes demonstraram alto nível de empoderamento, relatando participação ativa nas decisões sobre o tratamento e confiança na relação com a equipe médica. Entre os participantes do levantamento (60,7% homens e 39,3% mulheres), a maioria atendida por convênios médicos, e mais da metade tinha ensino superior. Isso reflete um público bastante informado e engajado. Ainda assim, mesmo nesse contexto, surgem desafios importantes.
O impacto financeiro do diagnóstico é considerável e mais de 95% tiveram gastos adicionais significativos, mesmo contando com cobertura de planos de saúde. Além disso, muitos apontaram que as barreiras mais duras não são apenas as financeiras, mas também organizacionais, como espera e dificuldades para agendar consultas ou exames.
Este retrato reforça a urgência de ouvirmos mais os pacientes e trazermos suas vozes para o centro das decisões médicas e de cuidado. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 11 mil novos casos de câncer de bexiga anualmente. Muitos casos só são identificados em estágios avançados e o peso da qualidade de vida se torna ainda maior.
A boa notícia é que, mesmo nos casos mais graves, já existem cada vez mais opções terapêuticas capazes de controlar a doença e preservar a tão desejada qualidade de vida. Por isso, nosso maior compromisso deve estar sempre voltado ao ser humano que existe por trás do diagnóstico. O futuro da oncologia precisa, inevitavelmente, estar mais atento às vozes e às necessidades dos pacientes.
*Dr. Fernando Maluf é médico oncologista, cofundador do Instituto Vencer o Câncer e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.
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