Empreender é uma maratona em que quase tudo parece jogar contra quem decidiu erguer um negócio.
Há impostos, burocracia, juros, dificuldade para contratar, mudanças no comportamento dos consumidores e uma concorrência que não espera alguém se organizar. Seja em uma startup de tecnologia, seja em uma pequena loja de bairro, manter um negócio vivo exige energia, persistência e capacidade de adaptação.
Nos últimos anos, uma nova variável entrou nessa corrida: a inteligência artificial. A IA não criou todos os desafios do mercado de trabalho, mas colocou um holofote sobre algo que preferíamos não admitir: somos medíocres em muitas coisas. E está tudo bem.
A palavra “medíocre” vem do latim mediocris — algo situado no meio de uma montanha. Não o fundo do vale, tampouco o topo. Era simplesmente estar no meio do caminho. Com o tempo, ganhou conotação negativa, tornando-se sinônimo de falta de talento ou ambição. Mas vale recuperar seu sentido original.
A maioria de nós não será excepcional em tudo, e não há problema nisso. O risco começa quando confundimos estar no meio da montanha com ter concluído a caminhada.
A IA tornou essa reflexão inevitável. Hoje, qualquer pessoa consegue revisar textos, organizar apresentações, resumir relatórios ou estruturar planilhas em poucos minutos. A tecnologia ampliou o acesso ao conhecimento e aumentou a produtividade de forma extraordinária. Ao mesmo tempo, reduziu o valor de entregas medianas. Fazer apenas o básico deixou de ser suficiente.
É impossível competir com uma máquina em velocidade de processamento ou disponibilidade. A IA não dorme, não se cansa e consegue processar volumes de informação incompatíveis com a capacidade humana. Mas essa não é a única disputa possível.
Pessoas constroem confiança, compreendem contextos delicados, assumem responsabilidade por decisões e persistem diante de problemas sem respostas prontas. Conseguem olhar para uma dificuldade concreta e perguntar: como posso resolver isso? Aprendem não por obrigação, mas porque percebem que aquele conhecimento pode abrir um caminho.
Vivemos em uma época de respostas rápidas. Em segundos, encontramos tutoriais, vídeos e cursos para quase qualquer assunto. Essa facilidade é positiva, mas pode alimentar uma ilusão: a de que acessar uma resposta equivale a dominar um tema. Não equivale. Senioridade nasce da profundidade com que alguém resolve problemas — e exige curiosidade, erros, correções e horas diante de situações desconfortáveis.
A formação acadêmica continua relevante, mas já não define os limites de uma carreira. O administrador precisa entender tecnologia. O designer precisa entender o negócio. O vendedor precisa interpretar dados. Ninguém precisa saber tudo — mas ninguém pode paralisar diante do que ainda não sabe. O Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, aponta pensamento analítico, resiliência e aprendizagem contínua entre as competências mais relevantes para os próximos anos.
Para quem empreende, o desafio se amplia: além de manter a empresa viva, é preciso encontrar pessoas dispostas a continuar subindo a montanha — que pesquisam antes de desistir, fazem perguntas melhores e buscam aprender com autonomia. E cabe às empresas criar ambientes nos quais isso seja possível, sem punir tentativas que não funcionam nem centralizar todas as decisões.
A IA não tornou o ser humano irrelevante. Apenas deixou claro que competir pelo básico será cada vez mais difícil. Talvez sejamos medíocres em muitas coisas. E está tudo bem. O que fará diferença é decidir se permaneceremos no meio da montanha — ou se continuaremos caminhando.
Por João Severo, associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)
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