1. Início
  2. /
  3. Geral
  4. /
  5. Quando o Medo Vai Longe Demais: A Ciência por Trás das Fobias
Geral

Quando o Medo Vai Longe Demais: A Ciência por Trás das Fobias

Fobias podem surgir de experiências pessoais, observação de outras pessoas e até influências culturais; especialistas explicam por que alguns medos se tornam tão intensos

7 min

O que você sente quando uma aranha aparece correndo pelo chão da sala?

A maioria das aranhas é venenosa, mas poucas representam perigo para os seres humanos. Segundo o Instituto de Educação e Pesquisa Ambiental, acredita-se que menos de 10 pessoas morram anualmente por picadas de aranha em todo o mundo, embora seja difícil coletar os dados com precisão.

Ainda assim, muitas pessoas afirmam ter fobia de aranhas. Em muitos casos, as fobias envolvem um medo intenso de algo que, na realidade, não pode causar ferimentos sérios. Mas por que elas são tão comuns e de onde vêm?

Do medo à fobia

O medo é uma emoção essencial para os seres humanos, pois ajuda a protegê-los de situações potencialmente perigosas.

Quando esse medo se torna extremo e debilitante, pode ser classificado como fobia. A diferença pode ser entendida como uma espécie de escala que começa com o medo considerado normal e chega ao ponto em que ele passa a representar uma barreira para a vida cotidiana.

As fobias também costumam ser desproporcionais à ameaça. Em algumas partes do mundo, como no Reino Unido, a maior parte das espécies de cobras não representa risco para os seres humanos. Nesses locais, portanto, o medo extremo desses animais pode ser considerado irracional e classificado como fobia.

Em outras regiões, porém, o medo de cobras pode ser mais justificável.

Inato ou adquirido?

Embora algumas fobias sejam comuns, a maioria dos especialistas não acredita que as pessoas nasçam com esses medos.

Bebês muito pequenos não conseguem sentir medo da mesma maneira, porque a emoção exige que a pessoa reconheça algo como uma ameaça. Para isso, é necessário ter algum conhecimento sobre o mundo.

Se ninguém nasce com medo de aranhas ou cobras, então por que algumas pessoas desenvolvem fobias em relação a esses animais?

Um estudo conduzido pela professora de psicologia do desenvolvimento Stefanie Hoehl, da Universidade de Viena, na Áustria, concluiu que bebês apresentam maior dilatação das pupilas quando observam cobras ou aranhas do que quando veem flores e peixes.

A dilatação das pupilas indica que eles podem estar percebendo possíveis riscos e está relacionada à ativação do sistema noradrenérgico, envolvido na reação de “lutar ou fugir”.

Essa reação provoca sintomas como aumento dos batimentos cardíacos e da pressão sanguínea, além da aceleração da respiração. São sinais de que o corpo está se preparando para correr ou lutar contra um perigo percebido.

Hoehl não considera que os medos sejam inatos, mas afirma que existem determinados elementos do ambiente que podem ser detectados mais rapidamente do que outros, dependendo, em parte, da maneira como se movimentam.

Segundo essa visão, os seres humanos estariam preparados para aprender a ter medo de determinadas coisas presentes no mundo.

A professora de psicologia Vanessa LoBue, da Universidade Rutgers, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, considera que as pessoas podem ser mais propensas a aprender a temer aranhas e cobras do que outros animais porque elas são diferentes.

Cobras, por exemplo, não se parecem com outros animais comuns. Bebês se acostumam a observar animais de quatro patas que caminham, enquanto as cobras se movimentam de outra maneira. As aranhas também apresentam movimentos considerados incomuns.

Especialistas acreditam que essa tendência de temer determinadas coisas pode ser consequência da evolução.

Os primeiros seres humanos viviam em um ambiente imprevisível, e os medos e fobias podem ter sido racionais em alguma etapa do desenvolvimento da humanidade. Com o tempo, porém, alguns desses medos deixaram de ser úteis e racionais no cotidiano.

A predisposição evolutiva para aprender determinados medos, conhecida como teoria da preparação, não é suficiente, por si só, para explicar o desenvolvimento de uma fobia.

Uma experiência negativa direta com um animal ou objeto é uma maneira rápida de adquirir medo, principalmente quando já existe uma predisposição natural.

Também é possível desenvolver medo ao observar as reações negativas de outras pessoas.

Uma pessoa pode ser picada por um animal e se assustar. Se, ao mesmo tempo, alguém próximo, como a mãe, reagir com medo ou tratar a situação como algo muito grave, essa experiência pode aumentar a probabilidade de a criança aprender a temer aquele animal.

Por esse motivo, as fobias podem ser transmitidas ao longo das gerações.

A influência de filmes e livros

As experiências pessoais não são o único fator envolvido. A cultura popular também pode contribuir para a frequência das fobias relacionadas a cobras e aranhas.

Filmes e livros, por exemplo, raramente retratam esses animais como personagens positivos. A forma como são apresentados pode influenciar a maneira como as pessoas passam a percebê-los.

No caso das fobias relacionadas ao mundo natural, conhecidas como biofobias, outro fator pode estar envolvido.

Um estudo de András Zsidó, diretor do Laboratório de Emoções e Cognição Visual da Universidade de Pécs, na Hungria, investigou a possível relação entre o nível de urbanização do ambiente em que as pessoas vivem e a incidência de fobias relacionadas a animais.

A pesquisa concluiu que, quanto mais urbanizada é uma região, mais comuns são as biofobias.

Pessoas que passam mais tempo na natureza e têm mais experiências com o ambiente natural tendem a temer menos os animais que podem encontrar.

Como mais de 80% da população mundial vive atualmente em áreas urbanas, esse fator pode ajudar a explicar por que as fobias relacionadas a animais são tão comuns.

É possível desaprender o medo?

A maioria dos especialistas concorda em dois pontos: é possível desaprender fobias e a melhor maneira de fazer isso é por meio da exposição.

Em situações de desconforto moderado, uma estratégia pode ser aumentar gradualmente o contato com aquilo que provoca medo.

O processo pode começar com pequenas ações, como observar fotos do objeto ou animal que causa medo e aprender informações positivas sobre ele. Depois, a exposição pode ser ampliada de maneira gradual.

Quando a fobia é extrema e provoca grande impacto na vida cotidiana, porém, pode ser mais adequado buscar ajuda profissional.

A pesquisa de Zsidó também sustenta a ideia de que a exposição não apenas ajuda a desaprender medos, mas pode contribuir para impedir que eles se desenvolvam.

A experiência pessoal seria o principal fator para o desenvolvimento do medo. Uma experiência positiva durante a infância, na escola ou em situações semelhantes pode funcionar como um fator de proteção contra o desenvolvimento desse medo.

O medo, portanto, tem uma função positiva e ajuda a proteger as pessoas. Ao mesmo tempo, os especialistas destacam que as fobias não são necessariamente permanentes.

Uma pessoa não está destinada a ter medo de algo específico. Quando existe um medo que ela não deseja manter, existem formas de lidar com ele.

No caso das aranhas, uma fobia pode ter diferentes origens: pode ser adquirida por influência dos pais, por meio de filmes ou por uma experiência limitada com esses animais ao longo da vida. Também é possível que uma combinação desses fatores esteja envolvida.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.