O fundador de um dos maiores escritórios brasileiros de advocacia costumava dizer aos advogados jovens que começavam a trabalhar lá (e a alguns jornalistas) que ficava mais fácil entender o Supremo Tribunal Federal (STF) se a corte fosse imaginada como um arquipélago de 11 ilhas. Mais reservadamente, ele acrescentava “e nós rezamos todos os dias para que essas ilhas não entrem em guerra umas com as outras, porque isso dificulta muito a nossa vida”.
Essas orações têm se mostrado pouco eficazes. O STF tem sido uma região conflagrada desde novembro de 2025, quando o Banco Master foi liquidado pelo Banco Central (BC) e seu controverso presidente, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro passou a negociar delações premiadas com a Polícia Federal (PF). As delações de Vorcaro têm causado muita preocupação, pois podem evidenciar relações pouco republicanas do ex-banqueiro com autoridades dos Três Poderes.
Uma delas é o STF, instância máxima do Judiciário. A tensão entre as 11 ilhas atingiu um pico histórico na terça-feira (01), quando o ministro André Mendonça retirou o sigilo do processo que reúne as mensagens trocadas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, que está no STF desde 2017 e é relator, entre outros processos sensíveis, do Inquérito das Fake News.
A decisão de Mendonça veio pouco depois de o jornal O Estado de S. Paulo revelar diálogos nos quais o banqueiro pedia a Moraes que atuasse junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para conter o avanço das investigações sobre o Master. Ao tornar público o material, Mendonça também defendeu que o caso fosse levado ao plenário da Corte, por ele classificado como “instância soberana” para analisar os novos elementos trazidos pela Polícia Federal.
Nas mensagens tornadas públicas, Vorcaro trata Moraes com intimidade — em uma delas, enviada em 14 de novembro de 2025, às vésperas de ser preso, o banqueiro escreve: “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você”. Outros trechos mostram o empresário perguntando ao ministro, horas antes da prisão, se já deveria “estar fora” do país.
Contratos com a esposa de Moraes
Mais grave que a cordialidade, os documentos revelados também mencionam um contrato de cerca de R$ 131,2 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. O Master teria apresentado uma segunda proposta, de R$ 50 milhões, também ligada ao escritório.
Na quarta-feira (02), horas depois de reportagens sobre um encontro seu com Vorcaro virem a público, o STF realizou sua primeira sessão plenária desde a divulgação das mensagens entre Vorcaro e Moraes. Apesar da repercussão, nenhum ministro comentou o episódio publicamente durante a sessão. O ministro Edson Fachin, que ocupa a presidência rotativa do STF, classificou as revelações, em outro momento, como de “especial gravidade” e disse que anunciaria “medidas cabíveis” nos dias seguintes.
A resposta de Moraes veio na quinta-feira (O3). No âmbito do Inquérito das Fake News — do qual é relator —, o ministro encaminhou a Fachin uma decisão acompanhada de relatórios da Polícia Federal que, segundo o próprio texto, apontam “fortes indícios” de irregularidades cometidas por Mendonça na condução das operações Sem Desconto e Compliance Zero, que investigam o INSS e o Banco Master.
Acusações de improbidade
Moraes atribuiu a Mendonça indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade, acusando-o de quebrar a imparcialidade judicial para favorecer grupos políticos e de direcionar as investigações contra o próprio Moraes e contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, “por motivos pessoais e políticos”. Moraes também retirou o sigilo da decisão e determinou ciência à Procuradoria-Geral da República.
O contra-ataque de Moraes não ficou sem resposta. Na sexta-feira (04), Fachin retirou o pedido de investigação contra Mendonça do Inquérito das Fake News — tirando-o, assim, do controle exclusivo de Moraes — e o transferiu para o processo mais amplo que reúne as apurações sobre o caso Master, submetendo a questão à apreciação do plenário. O presidente do STF fixou um prazo comum de cinco dias úteis para que Paulo Gonet e o próprio Mendonça se manifestem sobre a validade e o mérito da acusação.
A relatoria de Toffoli
As suspeitas sobre as relações de Vorcaro com ministros do STF já haviam surgido no fim de novembro de 2025, pouco depois da intervenção no Master, quando o inquérito sobre as fraudes foi distribuído, por sorteio, ao ministro Dias Toffoli. No cargo desde outubro de 2009, quando foi indicado pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Toffoli chegou ao Supremo depois de ter sido advogado-geral da União no primeiro governo petista, e já havia presidido tanto o Tribunal Superior Eleitoral (2014-2016) quanto o próprio STF (2018-2020).
A relatoria de Toffoli durou pouco mais de dois meses e meio. Em 11 de fevereiro de 2026, a Polícia Federal informou a Fachin que mensagens extraídas do celular de Vorcaro faziam menção a Toffoli. No dia seguinte, em sessão secreta, os dez ministros da Corte assinaram uma nota unânime validando todos os atos praticados por Toffoli à frente do inquérito e afastando qualquer motivo de suspeição. No entanto, na mesma reunião, o ministro pediu para deixar o caso. Coube a Fachin indicar seu sucessor: André Mendonça, que assumiu a relatoria por redistribuição eletrônica.
Mendonça está no STF desde dezembro de 2021, indicado pelo então presidente Jair Bolsonaro depois de ter comandado a Advocacia-Geral da União e o Ministério da Justiça e Segurança Pública no mesmo governo. Em suas primeiras decisões à frente do inquérito, ele reverte determinações de Toffoli consideradas “heterodoxas”. Entre elas a retirada do acesso de parlamentares da CPMI do INSS aos dados da quebra de sigilo de Vorcaro, concentrando as informações no presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
O risco institucional
O episódio está sendo considerado como um dos momentos mais graves da história recente do STF. Nunca antes um ministro da Corte havia sido acusado publicamente por um colega relator de crime de responsabilidade, abuso de autoridade e improbidade administrativa a partir de um inquérito em andamento.
A divulgação de mensagens privadas entre um magistrado do Supremo e um banqueiro sob investigação, somada à revelação de um contrato milionário com o escritório da esposa desse mesmo ministro, colocou a Corte na posição pouco usual de personagem central de um escândalo, e não de árbitro dele — um risco que o próprio presidente Fachin já reconheceu reservadamente a interlocutores.
As consequências desse embate ainda são imprevisíveis. A crise ocorre a poucas semanas da eleição presidencial de outubro e reacendeu debates sobre eventual impeachment de ministros — tanto de Mendonça quanto de Moraes, a depender de quem sair fragilizado da apuração.
Internamente, o episódio expôs uma divisão inédita entre os próprios ministros, com parte da Corte reservadamente favorável a Mendonça e outra alinhada a Moraes, cenário que ameaça a imagem de coesão que o STF tenta preservar publicamente. Para especialistas em direito constitucional, o desfecho da disputa — seja pela investigação de um relator contra um colega, seja pela forma como o plenário decidir tratar o caso — deve estabelecer um precedente institucional de longo alcance sobre os limites de poder de um ministro relator e sobre a própria capacidade da Corte de julgar a si mesma. O conflito entre as 11 ilhas parece estar longe de acabar – e deve deixar marcas profundas na geografia do arquipélago.