O Grupo Ri Happy pediu à Justiça de São Paulo a homologação de um plano de recuperação extrajudicial para renegociar R$ 827,4 milhões em dívidas. Protocolado em 10 de outubro, o pedido reúne seis empresas: Ri Happy, PBKids, Partout, New Toys, Brincar e Divertudo.
Segundo a petição, credores que representam R$ 308,8 milhões, ou 42,38% dos débitos incluídos no plano, já aderiram à proposta. O grupo pede 90 dias para obter as adesões que faltam e solicita a suspensão, por 180 dias, das cobranças judiciais relacionadas às dívidas abrangidas. Essa suspensão ainda depende de ratificação pela Justiça.
Apesar de extrajudicial, o pedido também tramita na Justiça. “O pedido de recuperação extrajudicial, ao contrário do que o nome pode sugerir, também tramita no Judiciário. Mas o caminho dele é diferente e tende a ser mais breve”, diz Tiago Cisneiros, sócio do escritório Loyo, Moutinho, Luzes e Cisneiros. A empresa negocia diretamente com os credores e leva o plano ao juiz para homologação.
A lei permite iniciar o processo com o apoio de credores que representem pelo menos um terço de cada tipo de dívida incluído no plano. A partir do pedido, a empresa tem 90 dias para obter adesões que representem mais da metade desses créditos. Se atingir o quórum e o plano for homologado, ele poderá valer também para credores abrangidos que não assinaram.
No caso da Ri Happy, a petição descreve o passivo abrangido como formado principalmente por dívidas sem garantia, de bancos, fornecedores e shopping centers. As obrigações fora do plano continuam sujeitas às condições originais.
É preciso distinguir o recebimento inicial do pedido da homologação definitiva do plano, segundo Daniela Lubianca, sócia da Tahech Advogados. “Os próximos passos incluem a análise dos requisitos legais, a comunicação aos credores, a oportunidade de apresentação de impugnações e, se necessário, a obtenção de novas adesões”, diz.
Dívida e pressão sobre o caixa
A empresa afirma que a pandemia reduziu as vendas das lojas físicas, enquanto despesas como aluguel e folha continuaram. Também atribui as dificuldades à migração de consumidores para compras online, aos juros altos, ao enfraquecimento do consumo e à concorrência de produtos vendidos por plataformas estrangeiras.
A Ri Happy diz que renegociou cerca de R$ 292 milhões em dívidas bancárias em 2023, com base numa projeção de geração de caixa que não se confirmou. Segundo a petição, o serviço dessa dívida passou a custar cerca de R$ 70 milhões por ano, valor incompatível com o plano de negócios do grupo. O documento também informa que, em 2025, o preço médio das vendas foi de R$ 64,60 nas lojas físicas e R$ 108,60 no canal online.
“A perda de receita tornou-se consolidada, gerando forte impacto no fluxo de caixa da empresa”, afirma o advogado Bruno Boris, fundador do Bruno Boris Advogados. Ele também aponta o custo do endividamento e a concorrência de produtos asiáticos vendidos a preços menores. A empresa cita ainda a carga tributária como fator de pressão sobre as margens.
A pressão financeira, segundo Pedro Abrão, fundador do Pedro Abrão Advocacia & Consultoria Empresarial, começou antes da compra da Ri Happy pela BluSun Capital Partners. A mudança de controle não elimina as dívidas das empresas. “O fato de uma rede continuar vendendo não demonstra, sozinho, que o calendário das dívidas seja compatível com o caixa disponível”, diz.
A petição também menciona que um credor financeiro já ajuizou uma execução contra o grupo. Para Abrão, isso ajuda a explicar a urgência do pedido. Ele lembra que o varejo de brinquedos depende de mercadorias compradas meses antes das vendas de fim de ano. “Quando a dificuldade financeira se torna pública, fornecedores tendem a encurtar prazos ou exigir pagamento antecipado”, diz. Isso pode aumentar a necessidade de caixa antes da Black Friday e do Natal.
As seis empresas incluídas no pedido têm funções diferentes, da operação de lojas e franquias à importação de produtos, gestão de marcas e oferta de recreação infantil. A petição afirma que há garantias cruzadas entre elas em mais da metade das dívidas abrangidas. “Uma dívida assumida por uma sociedade expõe as demais”, explica Abrão. Por isso, o grupo pediu que a Justiça trate as empresas e os débitos de forma conjunta.
Segundo a petição, o grupo tem 204 lojas próprias, 88 franquias, mais de 2.600 empregados diretos e receita líquida média de R$ 1,2 bilhão por ano. A companhia diz que pretende preservar as lojas, as marcas e os canais de venda.
Para Daniela Lubianca, a renegociação precisa vir acompanhada de mudanças na operação. “A reestruturação deve combinar a renegociação do passivo com medidas operacionais capazes de recuperar margens, preservar capital de giro e manter o abastecimento das lojas”, diz. Abrão acrescenta que a homologação não resolve a necessidade de financiar novas compras. “A homologação estabiliza os compromissos abrangidos, mas não injeta recursos nem garante crédito para novas compras.”