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“O Brasil Está Explodindo de Coisas Boas”, Diz o Cientista e Autor Best-Seller Marcelo Gleiser

Em entrevista à Forbes Brasil, o físico e astrônomo reflete sobre o futuro da ciência com o avanço da IA e as perguntas que continuam a guiar sua trajetória

8 min

Marcelo Gleiser construiu sua carreira acadêmica pesquisando os mistérios da ciência da Inglaterra aos Estados Unidos. Agora, após quase quatro décadas de pesquisas e prêmios no exterior, ele quer estreitar os laços com o seu país natal. “Estou sentindo que o Brasil está explodindo de coisas boas e quero passar mais tempo aí para fazer parte disso”, diz o físico em entrevista à Forbes Brasil.

Radicado nos Estados Unidos desde 1986, onde se tornou professor titular de filosofia natural, física e astronomia no Dartmouth College — universidade de elite que integra a Ivy League —, o carioca desembarca em São Paulo nesta quinta-feira (5) para se apresentar no HSM+, uma das maiores conferências de gestão e negócios da América Latina.

Com mais de 14 livros publicados, um prêmio Templeton — considerado o “Nobel do diálogo entre ciência e religião” — e um recente documentário sobre sua trajetória, ele já atendeu por muitos títulos: físico, astrônomo, professor, pesquisador, escritor e até ultramaratonista.

Mas o que melhor define Gleiser é o rótulo de questionador. “Existem três grandes perguntas na ciência que não têm resposta, mas que são fascinantes: a origem do universo, a origem da vida e como um monte de células na nossa cabeça permite que a gente esteja aqui conversando”, afirma. “Não vou conseguir responder a essas perguntas, mas vou me divertir muito no processo.”

Novos passos na carreira

Recentemente, a paisagem mais comum aos olhos do cientista tem sido as colinas da Toscana. Depois de 35 anos à frente das lousas, ele se mudou para a Itália para liderar o Island of Knowledge, um think tank que fundou ao lado da esposa — a terapeuta Kari Gleiser — voltado para lideranças corporativas, enquanto aguarda o título de professor emérito em 2027.

“Virei uma espécie de consultor acadêmico e espiritual”, conta. “A gente se reúne numa igreja do século XVI e minha esposa e eu também nos transformamos ali. É a velha ideia do terapeuta que cuida dos outros para cuidar de si mesmo.”

O autor também se prepara para lançar o livro “mais filosófico e existencial” da sua carreira no ano que vem, pela Editora Record. “Acabei de enviar o livro que passei os últimos seis anos escrevendo, que fala sobre a questão da morte”, conta com exclusividade à Forbes Brasil. Provisoriamente, a obra foi batizada de “Quando o Coração Toca o Céu”.

A seguir, Marcelo Gleiser reflete sobre as perguntas que continuam a guiar sua trajetória e o futuro da ciência com o avanço da IA.

Confira os destaques da entrevista com Marcelo Gleiser

Forbes: Recentemente, você lançou o Movimento Antidistópico nas redes sociais. Qual é a importância de criar essas bolhas de esperança no cenário atual?

Marcelo Gleiser: Você tem duas maneiras de viver a vida: pessimista ou otimista. O pessimista nem entra em campo porque já acha que perdeu o jogo. Eu defendo um otimismo ativo, de colocar o pé no chão e arregaçar as mangas.

Durante a Guerra Fria, existia a política de “MAD” (Mutually Assured Destruction, ou Destruição Mutuamente Assegurada). Garantir a paz através do medo de bombas termonucleares é algo muito deprimente. Então brinquei com a sigla e criei o Movimento Antidistópico, para garantir a paz pela construção de uma visão otimista de futuro.

A ideia é fazer postagens falando de coisas incríveis da natureza, da ciência e das pessoas. E a proposta não é só eu falar: movimentos sociais crescem quando você empodera as pessoas. Em um post recente falando que o coração bate dois bilhões de vezes numa vida de 70 anos, todo mundo começou a compartilhar histórias nos comentários. As pessoas querem o bem, então vamos regar esse jardim.

Depois de quase quatro décadas de carreira, o que te move hoje?

Existem dois tipos de acadêmicos: a toupeira e a raposa. A toupeira é quem vai sempre para o fundo do mesmo buraco, foca em uma única estrutura e passa a vida nela. A maioria dos prêmios Nobel, inclusive, vem dessas áreas super focadas. Já as raposas têm estratégias diferentes e usam o conhecimento para aplicar em várias áreas. Eu sou mais raposa.

Fui da cosmologia (o estudo do universo) para a origem da vida na Terra. E agora estou trabalhando na origem da inteligência: como a química virou biologia? Existem três grandes perguntas fundamentais na ciência que não têm resposta: de onde veio o universo, como a vida surgiu (e se existe em outros lugares), e como um monte de células na nossa cabeça permite que estejamos aqui, eu nos EUA e você no Brasil, conversando.

Ganhamos uma bolsa de US$ 4 milhões envolvendo seis professores — incluindo físicos de sistemas dinâmicos, filósofos e um neurocientista — justamente para entender o que torna a vida diferente.

Olhando para sua trajetória, quais foram os momentos de virada que mais te marcaram?

A primeira grande virada foi em 1994, quando ganhei um prêmio na Casa Branca, do Bill Clinton, sendo selecionado como um dos 15 jovens cientistas mais promissores dos EUA. Na mesma época, inventei um curso apelidado de “Física para Poetas” na minha universidade e escrevi o livro-texto “A Dança do Universo”, que conta a história da física como uma história de ideias. Isso lançou a minha carreira de divulgação científica.

Também foi nessa fase que fiz uma das descobertas mais importantes da minha pesquisa. Eu criei a possibilidade teórica de que existe uma espécie de bola de energia na natureza que resiste à dissipação, que chamei de oscilons.

Depois, veio o Prêmio Templeton, em 2019, que é uma honra gigantesca, dado a uma pessoa por ano no mundo inteiro em todas as áreas; às vezes até me belisco para ver se ganhei mesmo, dada a companhia de quem já ganhou.

Entre as muitas mudanças que você acompanhou na tecnologia e na sociedade, uma delas foi a chegada do ChatGPT em 2022. Quais foram as transformações mais significativas que você observou de lá para cá com a IA?

Os primeiros modelos eram bem mais simplistas. A capacidade de engajamento desses algoritmos com o ser humano aumentou por um fator de mil. Antes, com Instagram e YouTube, a estratégia era seduzir a sua atenção. Agora, a estratégia é de sedução do seu afeto. Esses algoritmos querem que você goste deles, querem se relacionar com você. É super útil, não tem como não usar hoje em dia para pesquisa e trabalho, mas você faz uma pergunta e a resposta vem como: “Que pergunta ótima, você é muito criativo.”

Isso tem um perigo: é um ataque frontal às pessoas mais vulneráveis emocionalmente, as mais solitárias. Muita gente está buscando fazer terapia com essas IAs. Mas a inteligência artificial é um espelho de você mesmo. Quanto mais você fala, mais o algoritmo te conhece e sabe o que você quer ouvir. É uma conversa com um amigo, que combate a solidão, mas não traz a cura.

Como você tem enxergado o impacto da IA na educação?

As nossas escolas e universidades estão ensinando muito pouco as pessoas a usarem o pensamento crítico para distinguir o que é uma ferramenta útil do que é uma armadilha. Na minha universidade nos Estados Unidos, estamos passando por um processo de tentar entender o que fazer.

No processo pedagógico, se você delega a uma máquina a sua capacidade criativa, você para de evoluir como ser humano. Breca. Não é que você vai ficar mais burro, mas deixa de exercer a sua faculdade criativa, que é o que nos distingue do resto dos animais.

Como professor, o que te surpreende nessa nova geração de cientistas?

A dinâmica da relação professor-aluno mudou muito, existe um cuidado maior com a linguagem e a forma de dar aula, o que talvez afete a espontaneidade, mas aumentou o cuidado com as pessoas.

Em termos de capacidade criativa, mudou pouco — ninguém hoje é mais inteligente do que na Grécia Antiga. O que muda é o contexto. Essa geração faz um uso muito maior de tecnologias digitais e mineração de dados. As máquinas são muito mais eficientes para descobrir padrões em um mar de dados, o que acelera a pesquisa.

Acho que está mais fácil fazer ciência hoje do que há 40 anos. Na minha época de físico teórico, os cálculos eram na mão. Você escrevia 30 páginas, errava um sinal de menos na página 10 e dava tudo errado, o universo explodia no papel. Hoje você pede para a inteligência artificial resolver uma equação complexa e ela resolve.

A minha esperança é que essa liberdade de tempo extra permita às pessoas serem mais criativas. A matemática pura é muito dedutiva e lógica, algoritmos são ótimos nisso. Mas, na física, é preciso ter aquela alquimia do processo, um insight, um pulo que não está no programa. Essa sacada criativa eu espero que as máquinas nunca consigam ter, porque é o que nos diferencia delas.

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