Imagine dois profissionais concorrendo à mesma vaga. O primeiro construiu a carreira em grandes empresas, tem uma formação reconhecida e reúne exatamente as experiências descritas na oportunidade. O segundo chegou à mesma área por caminhos diferentes, desenvolveu habilidades em outros setores e talvez nunca tenha ocupado um cargo com aquele título. Em um processo seletivo tradicional, é provável que o primeiro chame mais atenção. Mas será que ter o currículo mais parecido com a vaga significa ser o profissional mais preparado para ela?
Ao longo da minha carreira, conheci profissionais excelentes que dificilmente seriam encontrados em uma busca convencional. Pessoas que mudaram de área ou desenvolveram capacidades valiosas em experiências distantes da função que passaram a exercer. Essas trajetórias me ensinaram que identificar talentos exige disposição para enxergar possibilidades que nem sempre estão evidentes em um currículo.
Durante muito tempo, os processos de contratação foram estruturados a partir de critérios específicos, como formação acadêmica, cargos e empresas anteriores. Essa lógica é bastante funcional, mas criou limitações, especialmente diante da diversidade de trajetórias profissionais e da velocidade com que as habilidades exigidas pelo mercado estão mudando. O risco é continuar procurando profissionais a partir de referências padronizadas para responder a desafios que hoje são muito diferentes dos que tínhamos no passado.
Uma pesquisa do LinkedIn mostrou que 84% dos profissionais de Recursos Humanos no Brasil consideram que a falta de candidatos qualificados tornou as contratações mais difíceis. Ao mesmo tempo, 42% apontam como um fator de maior complexidade o uso crescente de inteligência artificial por candidatos para adaptar currículos e candidaturas aos requisitos específicos de cada vaga, tornando mais difícil avaliar o real alinhamento entre o perfil e a posição. Temos, portanto, um cenário curioso: as empresas recebem cada vez mais informações sobre candidatos, mas continuam enfrentando dificuldades para encontrar as habilidades que realmente precisam.
É nesse contexto que vejo uma das aplicações mais promissoras da inteligência artificial. A tecnologia permite analisar informações profissionais de maneira mais contextualizada e ampliar as buscas para além das correspondências exatas entre uma vaga e um currículo. Isso abre espaço para encontrar profissionais que talvez não aparecessem nos filtros tradicionais. Mais do que tornar as buscas rápidas, a grande oportunidade é torná-las mais inteligentes.
No LinkedIn, temos acompanhado essa evolução de perto. Recentemente, disponibilizamos em português o Hiring Assistant, um agente de IA que apoia recrutadores na identificação de profissionais com base em suas qualificações e habilidades. Para mim, o mais interessante dessa nova forma de contratar é pensar nas possibilidades que surgem quando as equipes de RH conseguem dedicar menos tempo às buscas operacionais e mais atenção às pessoas que de fato estão por trás dos currículos.
Essa mudança transforma bastante o papel de quem trabalha com recrutamento. Com o apoio da tecnologia, os profissionais de RH podem aprofundar conversas, compreender as motivações e construir uma visão mais completa sobre os candidatos. Afinal, uma boa contratação exige entender as necessidades da empresa, as expectativas de quem busca a oportunidade e a capacidade daquela pessoa de contribuir para os desafios do negócio.
Existe ainda uma questão fundamental nessa discussão: os vieses que influenciam nossas escolhas. Muitas vezes, tendemos a reconhecer valor em pessoas que estudaram nos mesmos lugares ou seguiram trajetórias semelhantes às nossas. Nem sempre fazemos isso conscientemente, mas essas referências podem limitar nosso olhar. A inteligência artificial pode ampliar esse campo de visão e favorecer buscas orientadas por competências, desde que, é claro, os sistemas sejam avaliados continuamente para evitar a reprodução de distorções nos dados. E reforço: a responsabilidade pelas decisões continua sendo inegociavelmente humana.
Para os candidatos, essa nova dinâmica também representa uma oportunidade de repensar como apresentam suas experiências. Demonstrar o que se aprendeu, quais problemas foram resolvidos e como esse conhecimento pode ser aplicado em novos contextos se torna crucial. Uma mudança de carreira ou uma experiência empreendedora, por exemplo, pode revelar competências que um cargo, isoladamente, dificilmente conseguiria traduzir. O importante não é apenas mostrar por onde se passou,
mas o que se construiu e aprendeu ao longo do caminho.
Olhando para os próximos anos, um dos grandes desafios das empresas será compreender melhor as habilidades necessárias, rever exigências que já não fazem sentido e preparar lideranças para reconhecer competências em trajetórias diversas. Para mim, esse é um dos maiores potenciais da inteligência artificial: não apenas transformar como encontramos talentos, mas mudar nossa percepção sobre quem pode fazer a diferença. Talvez os profissionais de que mais precisamos sejam justamente aqueles que ainda não aprendemos a procurar.
*Milton Beck é Diretor Geral do LinkedIn para América Latina e África
Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.
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