Indústria corre para tentar suprir demanda explosiva de respiradores por Covid-19

ReutersConnect/Stephane Mahe
ReutersConnect/Stephane Mahe

A demanda de respiradores em 2019 chegava a 200 equipamentos por mês, mas a nova necessidade do mercado é de 20 mil por ano

Fabricantes nacionais e importadores estão correndo contra o tempo para conseguirem ampliar a oferta no Brasil de equipamentos essenciais para salvar a vida de pacientes graves de Covid-19, antes que o número de casos coloque em colapso o sistema de saúde do país, considerado um dos maiores do mundo.

Entre os equipamentos mais procurados estão os respiradores, também chamados de ventiladores, que levam oxigênio aos pulmões, auxiliando na inspiração e expiração nos casos em que o coronavírus reduz drasticamente a capacidade de respiração dos infectados.

LEIA MAIS: Câmara dos EUA aprova pacote histórico de US$ 2,2 tri contra coronavírus

O que até o ano passado representava uma demanda de algumas poucas centenas de aparelhos por fabricante nacional, agora passou à casa de milhares.

“De 15 dias para cá, o telefone não para de tocar. A demanda está sendo geral, agente públicos, privados, secretários de saúde, governadores. Há uma mobilização por estes aparelhos”, disse o diretor comercial da VentLogos, Eduardo Val. A empresa afirma ser a única fabricante do país a produzir ventiladores que não precisam de componentes importados.

“A demanda antes da crise no final do ano passado era de 150 a 200 equipamentos por mês. Agora a nossa capacidade de produção está toda ocupada em 300 unidades”, disse Val, afirmando que o setor está vendo necessidade de produzir cerca de 20 mil respiradores ao longo deste ano.

O Brasil tem quatro fabricantes nacionais do equipamento, que pode ter preços variando de R$ 20 mil a R$ 200 mil, dependendo da complexidade e procedência. Além da VentLogos, os outros fabricantes no país são Magnamed e KTK, de São Paulo, e Leistung, de Santa Catarina. As duas primeiras não se manifestaram, e a Leistung afirmou, em resposta à Reuters, não poder comentar porque “precisamos trabalhar para ajudar a salvar vidas… nosso tempo neste momento é escasso”.

O Ministério da Saúde recentemente contatou o setor em busca de fornecimento de 15 mil respiradores para ampliar o parque nacional, de cerca de 65 mil máquinas, de acordo com dados da pasta citados pelo setor. Representantes do ministério não responderam a pedidos de entrevista.

A procura por respiradores é grande porque a curva de contaminação do coronavírus tem sido exponencial em várias partes do mundo. No Brasil, o número de casos confirmados subiu 20% da quarta para a quinta-feira, atingindo 2.915, dos quais 194 estavam em unidades de tratamento intensivo. As mortes subiram 35% ante o dia anterior, para 77, segundo dados do ministério.

LEIA TAMBÉM: Porque o fim da pandemia pode não ser o fim do home office

“Do ponto de vista do coronavírus, o que temos observado é que não tinha nenhum país do mundo preparado para fazer frente à curva de aceleração de contaminação. A grande maioria dos países tem dificuldades em ajustar o atendimento a uma explosão de casos”, disse Fernando Silveira Filho, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para a Saúde (Abimed), que representa 200 empresas nacionais e internacionais de equipamentos médicos.

Segundo Silveira, em 2019, as vendas de respiradores no Brasil somaram 1.350 unidades, praticamente todos fornecidos pela indústria nacional. “É um negócio que ninguém nunca viveu antes. Tem que readequar o parque fabril existente… A demanda em qualquer país é explosiva, coisa de 30 mil, 40 mil unidades.”

Ressaltando a urgência na procura pelos equipamentos, nesta semana, o governador de São Paulo, João Doria, ameaçou ir à Justiça contra determinação do governo federal de centralizar no Ministério da Saúde a distribuição dos respiradores pelo país, confiscando os equipamentos do Estado.

A dificuldade de produção de respiradores é grande até para grandes fabricantes internacionais de equipamentos médicos, como a sueca Getinge, que atende o Brasil via importações e afirma ter cerca de 25% de participação no mercado nacional.

Segundo o presidente da companhia sueca para a América Latina, Márcio Mazon, a Getinge está investindo para ampliar sua capacidade de produção de ventiladores em 60% este ano, para 16 mil equipamentos. Esta capacidade adicional servirá para atender clientes distribuídos ao redor do globo, não apenas o Brasil. O respirador mais barato da empresa custa cerca de R$ 60 mil e é o mais procurado.

“Sobre prazos de entrega, é difícil prometer datas neste momento. Estamos entregando à medida que vamos produzindo. Em vez de despachar lotes maiores de uma vez por via marítima, estamos enviando lotes menores por via aérea”, disse o executivo, citando edital recente de compra pela Itália de 5.000 respiradores, dos quais a Getinge supriu 500 unidades.

E TAMBÉM: Boris Johnson testa positivo para coronavírus

Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos (Abimo), Paulo Henrique Fraccaro, a situação só não é mais grave porque a China, fabricante de uma série de componentes usados pela indústria local e internacional de maquinário hospitalar, está conseguindo se recuperar.

“Não tem condição de suprir a demanda, é muito grande. As empresas estão fazendo todo o é possível para atender à demanda do governo, mas vai faltar equipamento”, disse Fraccaro.

Siga FORBES Brasil nas redes sociais:

Facebook
Twitter
Instagram
YouTube
LinkedIn

Baixe o app da Forbes Brasil na Play Store e na App Store.

Tenha também a Forbes no Google Notícias.

Copyright Forbes Brasil. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, impresso ou digital, sem prévia autorização, por escrito, da Forbes Brasil ([email protected]).