O britânico Richard Barrett, de 81 anos, começou sua carreira como engenheiro no Banco Mundial. Aos 51 anos, mudou de rota para estudar cultura organizacional. Desde então, já publicou mais de 40 livros sobre o tema, como o best-seller “A Organização Dirigida por Valores”, e fundou o Barrett Values Centre, instituição global que avalia se o ambiente de trabalho das empresas é produtivo ou tóxico.
Há três anos, viveu mais uma virada: por um impulso criativo, decidiu se tornar pintor de retratos. A aventura, porém, durou pouco, e ele retornou ao mundo corporativo logo em seguida. “Eu não acredito em carreiras. Se você se conecta com você mesmo, pode começar em uma área, descobrir outra paixão e mudar de rumo”, disse em entrevista exclusiva à Forbes Brasil durante o CONARH, maior evento de RH do país, em São Paulo. “Construa uma vida, não uma carreira”, aconselha o autor.
A vantagem brasileira
Barrett encerrou o evento na última quinta-feira (20) com uma plenária sobre a vantagem competitiva do Brasil no futuro do trabalho: a cultura.
Visitante frequente do país há três décadas, lançou neste ano o livro “The New Brazilian Leader: From Vitality to Coherence” (O Novo Líder Brasileiro: Da Vitalidade à Coerência). “Já trabalhei para muitas empresas brasileiras. E quando paro para olhar, meu trabalho decolou mais no Brasil do que em quase qualquer outro lugar do mundo”, diz.
Os brasileiros, segundo ele, naturalmente têm um diferencial na era da inteligência artificial. “Vocês são muito calorosos e acolhedores. Essa inteligência relacional é a próxima grande revolução nos negócios, porque a IA não consegue duplicar isso.” O desafio, porém, é o foco. “O líder precisa canalizar essa vitalidade em vez de deixá-la disparar para todos os lados.”
Para isso, as organizações precisam de coerência — um misto de diferenciação, integração e adaptabilidade. “Pense no corpo humano: pulmões e coração possuem funções diferentes, mas trabalham em conjunto. Se a mente for brilhante o suficiente, ela sabe se adaptar à situação.”
O especialista, contudo, aponta um traço cultural que pode prejudicar as empresas: o personalismo corporativo. “Na cultura brasileira, as pessoas se reúnem ao redor de personalidades fortes. Mas, quando essa figura desaparece, a empresa consegue continuar? Não necessariamente”, diz. “Você precisa institucionalizar essas qualidades na cultura para que o negócio sobreviva.”
Liderança na era da IA
Com 60 anos de carreira, Barrett acompanhou a transição do aparelho de fax para o computador e, agora, para a IA. O segredo para atravessar tantas revoluções e se manter relevante é a adaptabilidade. “Se você não se adapta, é extinto como um dinossauro. E eu sou muito jovem para ser extinto”, brinca.
Com essa mentalidade, ele fez upload de todas as suas obras em uma plataforma de IA e criou um “clone” digital de si mesmo. “Tenho um parceiro de trabalho que entende perfeitamente a minha visão e sugere novas ideias. Minha produtividade disparou.”
Para o autor, o segredo para ser um líder bem-sucedido nos próximos anos é usar a tecnologia como um auxílio. E, enquanto isso, focar em qualidades humanas como empatia, compaixão, autenticidade e vulnerabilidade. “Precisamos criar empresas gentis. Isso não significa falta de realismo. Você pode demitir funcionários, mas pode fazer isso com gentileza”, afirma. “É uma nova forma de existir: menos medo e mais amor.”