O nome pode mudar. Transição, reinvenção, pivotagem. A busca por um termo moderno não altera o fato de que mudanças de carreira sempre ocorreram. No entanto, atualmente elas se tornaram mais frequentes e vêm ocorrendo por motivos mais diversificados.
Uma das causas é a demografia: as pessoas estão vivendo e permanecendo profissionalmente ativas por mais tempo. Outro é a tecnologia. Evoluindo muito mais rapidamente do que algumas décadas atrás, ela cria e destrói atividades (e empresas) com muito mais frequência.
Isso afeta a vida dos profissionais. Para continuar no mercado e driblar a insatisfação (ou mesmo o desemprego), eles precisam desenvolver novas habilidades continuamente e pôr em prática competências que nunca haviam sido testadas, de modo a ampliar e a prolongar suas jornadas profissionais.
Conexões valiosas
Tatiana Iwai, professora do Insper, em São Paulo, diz que os casos mais bem-sucedidos de transição de carreira normalmente são de pessoas que costumavam explorar seus múltiplos “eus”; e testavam atividades paralelas enquanto ainda atuavam em suas posições. Outra característica é uma rede de conexões valiosas e diversificadas. Não só amizades, mas um círculo de acesso disponível e a experiência acumulada na atividade original.
É o caso do empresário cearense e bilionário Forbes Amarílio Macêdo, de 81 anos. Sua primeira transição ocorreu faz tempo. Aos 17 anos ele deixou o seminário para trabalhar nas empresas da família, o grupo alimentício J.Macêdo. Após uma bem-sucedida carreira executiva e depois de concluir sem solavancos um processo de transição que colocou a terceira geração da família no comando da empresa, ele em vez de se aposentar passou a uma segunda transição: está se tornando promotor do desenvolvimento. Pretende criar uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE) em Quixeramobim, no interior do Ceará, que vai levar o nome de ZPE Sertão Central.

O empresário quer aproveitar a experiência do Porto do Pecém, cuja área está totalmente ocupada, e instalar empresas interessadas na região em um terreno de sua família que se conecta ao porto pela Ferrovia Transnordestina. Ele já investiu R$ 20 milhões no projeto e contratou dezenas de pessoas. “O empreendimento ocupará 600 hectares de uma área total de 6 mil que pertence à minha família”, diz ele. “Planejamos um complexo industrial com terminal de aviação.”
Escolha precoce
Mentora de executivos que querem mudar de carreira, a psicanalista e professora do Insper Maria Aparecida Rhein Schirato diz que a escolha profissional se dá em um momento “ingrato”. Ainda muito jovem, a pessoa tem de escolher uma atividade que, supostamente, vai desempenhar por toda a vida. Com o tempo, ela pode concluir que a escolha não estava alinhada com suas aspirações, o que leva a uma transição.
O ex-advogado mineiro Vinicius Alves faz parte esse grupo. Ele chegou a ser sócio de um escritório de direito tributário em Belo Horizonte, mas admite que a advocacia nunca o entusiasmou. Em 2015, um amigo empresário falou da destinação de resíduos industriais. Pouco depois, Alves foi visitar a P&G e viu produtos aptos para o consumo destinados ao descarte. Teve a ideia de comprar as mercadorias e recolocá-las em supermercados antes de o prazo de validade expirar. Nasceu a Gooxxy, uma empresa de tecnologia, que, no primeiro semestre de 2026, vendeu R$ 1 bilhão em produtos de Nestlé, Bauducco, Vigor e Danone. Alves não revela o faturamento.
O negócio, que começou em 2016 no quarto de empregada de um apartamento em São Paulo, atualmente ocupa 50 mil metros quadrados em oito centros de distribuição em sete estados brasileiros. Como a logística do descarte é um problema para as empresas, a Gooxxy foi convidada pelas companhias com quem negocia a atuar no México e na Colômbia. Em 2027, deve começar no Chile e na Argentina. “Resolvemos um problema da indústria e permitimos que pessoas de menor renda consumam produtos e marcas desejadas.”
Adaptação às mudanças
As mudanças na tecnologia e na demografia, que obrigam as pessoas a mudar de carreira, também facilitam esse processo.
“Mudanças de carreira ocorrem por eventos externos e internos. Os externos podem ser uma demissão, ser preterido em uma promoção, um evento imprevisível, como a pandemia, ou uma nova tecnologia, como a inteligência artificial”, diz Iwai. “Já os internos são uma insatisfação com a trajetória atual, um momento de epifania ou o desejo de explorar novas áreas.”
As mudanças na carreira do industrial Sergio Janikian exemplificam os dois casos. Ele não iniciou a carreira empreendendo.
“Comecei minha carreira no marketing das antigas Lojas Glória, trabalhei em uma fábrica de velas do meu pai e em uma indústria de galvanoplastia do meu sogro”, diz. “Na década de 1990 fui trabalhar no Brás e cheguei a uma grande malharia.”
No início dos anos 2000, seu chefe lhe disse para participar de uma concorrência da prefeitura de São Paulo para vender uniformes escolares. Os preços eram os melhores, mas a empresa foi desclassificada por falhas na documentação. O empresário fez um acordo com os vencedores para fabricar os uniformes, mas o dono da malharia desistiu do negócio.
Janikian decidiu, então, se tornar empresário e estruturou uma operação em paralelo ao trabalho. Alguns anos depois a sociedade se desfez, mas ele não desperdiçou a experiência adquirida. “Segui vendendo para governos, pois tinha aprendido tudo sobre licitações”, diz. Criou uma empresa que produz ou importa cerca de 600 produtos, entre cadernos, borrachas, canetas e massa de modelar, e atende 10 milhões de alunos de escolas públicas. O faturamento previsto para 2026 é de R$ 800 milhões.
Epifania e autoconhecimento
“O aumento da expectativa de vida e as preocupações com a previdência fizeram as pessoas perceber que vão trabalhar por mais tempo, frequentemente até os 80 anos”, diz Tania Casado, professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo e criadora do Escritório de Carreiras na universidade. “Isso aumenta a rejeição a ambientes insatisfatórios e incentiva a busca por trabalhos que ofereçam significado e proporcionem saúde mental e bem-estar.”
É o caso do jovem administrador André Hamra. Aluno dedicado, sempre foi o gênio da turma. Filho de uma família de classe média de Catanduva, no interior de São Paulo, aos 15 anos ele foi selecionado para um programa da Fundação Estudar, ligada ao empresário Jorge Paulo Lemann, onde ouviu uma palestra do empresário André Street, bilionário fundador do banco Stone. “No fim do evento pedi a ele um emprego e uma bolsa para estudar no exterior”, afirma Hamra.

Conseguiu os dois. Com patrocínio de Street, foi admitido na Wharton School, da Universidade da Pennsylvania. Sempre que voltava ao Brasil, fazia trabalhos temporários para a Stone e para a Ambev para retribuir. Formou-se e foi trabalhar na Stone. Por sete anos, liderou projetos bilionários.
Apesar do sucesso, Hamra teve um momento de epifania. Ao conversar com pessoas em situação de rua em São Paulo, descobriu gente com habilidade em matemática ou gastronomia que não conseguia pôr esses talentos em prática. Em 2021, depois de terminar um MBA na Universidade Stanford, nos EUA, ele abriu mão dos R$ 10 milhões em ações que receberia se ficasse dez anos na Stone. E lançou a Refer.
A empresa de tecnologia usa IA generativa, analisa o candidato e o ajuda a buscar emprego em áreas que ele ignorava ter potencial. Deu tão certo que ele vendeu 15% do negócio por US$ 2,5 milhões em 2025 (levando o valuation da companhia a US$ 16,7 milhões). “Realizei uma profunda análise pessoal para chegar à conclusão de que meu propósito é ajudar pessoas a fazer o que elas amam”, diz Hamra.
Guinada na carreira
O processo da paulistana Leila Araújo foi mais radical. Ela nasceu no Capão Redondo, bairro de classe média baixa em São Paulo, uma região de altos índices de violência. Desde cedo trabalhava com os pais, evangélicos, em um misto de bar e mercadinho. Começou a trabalhar antes de obter o diploma de comércio exterior. Na primeira entrevista de emprego, ela omitiu onde morava para se esquivar do preconceito geográfico. Questionada sobre suas competências, respondeu sem hesitar: “Faço tudo: controle de estoque, atendimento ao cliente e ao fornecedor, gestão de crise.”

Leila fez carreira na área de tecnologia. Seu primeiro emprego foi na empresa de software Novell (hoje parte da canadense OpenText). Na entrevista, sua disposição de atuar em qualquer atividade e realizar qualquer trabalho foi fundamental, superando a falta do inglês.
Selecionada para uma vaga de analista interna, ela resolveu o problema do idioma e aos 25 anos chegou à posição de gerente de canais. Foi convidada a atuar em Curitiba, na Microsoft e, menos de um ano depois, foi para a Microsiga, atual Totvs. Lá sua carreira deslanchou. Tornou-se diretora de canais com menos de 30 anos. Em 2014 chegou ao Google, onde ficou dez anos.
Mesmo com essa carreira notável, ela queria ser dona do próprio negócio. Em 2025, depois de mais de 30 anos de carreira, um conhecido a procurou oferecendo um restaurante no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Comprou-o e, até o momento, diz já ter investido mais de R$ 1 milhão no projeto, o Lelê. “Estou seguindo com a vida executiva, mas com um novo negócio”, afirma. “É desafiador, mas eu uso toda a minha experiência em vendas, organização de equipes, processos e parcerias.”
Das consultas às fábricas
Às vezes, a transição acontece quase por acaso, como extensão da atividade original. O ortopedista catarinense Carlos Alberto Atherinos Pierri é especialista em medicina esportiva, especificamente joelhos de atletas. Já operou jogadores de futebol famosos, como Sávio, que jogou pelo Flamengo e pelo clube espanhol Real Madrid. Foi pesquisador no Hospital for Special Surgery, nos Estados Unidos.
Desejando inovar e ganhar escala, desenvolveu um aparelho, o Patello, que manipula a patela (antes chamada rótula) de pacientes em recuperação pós-cirúrgica. “A ideia surgiu de uma necessidade do dia a dia”, afirma. “Não encontrei nenhum aparelho para comprar e decidi produzir um do zero.” Com apoio do governo, Pierri desenvolveu um protótipo e patenteou a invenção em 2021.
Poucos meses depois escreveu um artigo sobre o produto na revista americana International Orthopedics. “Recebi a ligação de um americano que queria encomendar 28,8 mil aparelhos”, diz. “Expliquei que possuía apenas um protótipo.” Mas aí se deu conta do oceano de possibilidades de sua invenção.
Criou a healthtech Inovamotion e fechou acordo com uma indústria para produzir os aparelhos. Já vendeu 40 unidades. “Dedico até 80% do meu tempo à prática médica e 20% à atividade de empresário, mas logo vou inverter essa proporção”, diz. A transição, em alguns casos, nunca chega a ser completa. Pierri diz que não quer abandonar a prática médica. “Foi por meio dela que desenvolvi meus produtos.”
*Reportagem publicada na edição 145 da revista Forbes, em setembro de 2026.