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O Que Você Procura Quando Liga o Celular?

Em um ambiente onde a comparação é constante e a validação parece vir dos números, vale refletir: o que realmente estamos buscando toda vez que abrimos o celular?

3 min

Certo dia, um paciente chegou ao meu consultório visivelmente ansioso. Tinha acordado cedo, como sempre, e a primeira coisa que fez foi pegar o celular. Queria saber quantas curtidas havia recebido em um post feito na véspera. Não era a primeira vez que ele fazia isso. Ao contrário: era o seu ritual da manhã.

Enquanto ele falava, percebi que estava me reconhecendo na descrição. Eu fico chateado quando algo que posto nas redes não é curtido. Também olho para os números, que, racionalmente, sei que não medem nada do que importa. Parei para me perguntar: por que fazemos isso? Para quê?

Comparações sempre existiram, desde que o homem é homem. E não são necessariamente ruins; nos ajudam avaliar opções, a tomar decisões mais assertivas e até a dar sentido ao mundo ao nosso redor.

Getty ImagesÀs vezes, a pergunta mais importante não é quantas curtidas recebemos, mas por que precisamos dela

O problema não está no ato de comparar, mas na escala em que isso passou a acontecer. Antes, comparávamos com quem conhecíamos. Agora, a comparação acontece com quase tudo o que é exposto no feed – em tempo real e sem parar.

Acontece que a vida que está exposta ali como se fosse em uma prateleira é editada para parecer melhor do que é. O algoritmo não mostra o que é verdadeiro. Ainda assim, mantém a nossa atenção ali. E o que nos mantém olhando geralmente é aquilo que de alguma forma gostaríamos de ter: a vida do outro, a fama do outro, o corpo do outro, a carreira do outro, ou, como no meu caso, as curtidas do outro.

Como hoje se vive boa parte do dia nesse tipo de ambiente, algo muda. Começamos a nos perguntar não o que queremos, mas o que deveríamos querer. Não quem somos, mas quem deveríamos parecer. E isso pode gerar depressão, ansiedade, baixa autoestima, sensação de inadequação, como mostram estudos.

Não estou dizendo que a solução é sair das redes, até porque esse é um caminho sem volta. Estou dizendo que vale a reflexão que meu paciente e eu tardamos a fazer: quando você abre o celular pela manhã, o que está buscando?

*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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