Vinho e tempo se relacionam fundamentalmente

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Paciência e observação enriquecem nossa percepção do que a passagem de tempo faz com a bebida

“Minhas coisas favoritas na vida não custam dinheiro. Está realmente claro que o recurso mais precioso que todos nós temos é o tempo” – Steve Jobs

A realidade do tempo adiciona profundamente à nossa experiência com o vinho. Na adega, na vinícola, tempo ajuda a amadurecer ou desenvolver o vinho em algo mais atrativo, mais harmonioso, mais completo. Na infância, vivacidade e aromas de frutas andam de mãos dadas com taninos energéticos, mas ainda pouco refinados. Muito parecido com adolescentes.

A interação com o carvalho e as leveduras podem servir como professores ou mentores, mas a experiência no tempo traz maturidade por si só. Uma delas é a polimerização dos taninos, que se transformam em cadeias moleculares maiores e dão aquela sensação de vinho aveludado.

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Entra a aposta no tempo, beber ou guardar? Abrir grandes vinhos ainda jovens é receber algum prazer, com certeza. Esperar e apostar na evolução? A maioria dos grandes vinhos já têm histórico suficiente para algumas apostas, mas, isso vale para rótulos que foram vinificados há 20, 30 ou 40 anos, um pouco diferente do terroir e clima de hoje. Será que os vinhos vinificados em 2000, 2010 ou 2020 terão esse mesmo perfil? Muito provável que não… O que não significa que sejam melhores ou piores.

Para quem tem “budget” e tempo, o ideal é comprar no mínimo 24 garrafas de cada vinho para guarda e, depois de oito a 10 anos abrir uma garrafa por ano e ir fazendo suas anotações para entender o processo de evolução do vinho. Quem não começa não termina!

Tem anos em que o vinho “adormece” e de repente no ano seguinte ele está bom de novo. Como no filme “O Julgamento de Paris”, quando os vinhos mudam de cor, eles doam as garrafas. Mas, quando percebem, com algumas garrafas que ficaram, que era só uma reação química, eles saem correndo para recuperá-los. Foi o vinho que ganhou, em uma épica degustação às cegas, em 1976, em Paris, contra os grandes vinhos franceses. O vinho em questão era o Stag’s Leap 1973. Filme histórico no mundo do vinho!

As melhores garrafas de vinho são aquelas degustadas com tempo. Muitos vinhos, como os laranja e ricos do Gravner ou champanhes do Selosse, precisam respirar antes de serem tomados. Seja na taça, na garrafa ou no decanter. Decanter acelera um pouco o processo, mas é interessante usar o tempo a seu favor como, por exemplo, ao fazer um almoço ou jantar abrir uma, duas ou três garrafas, dependendo da turma, e ir degustando lentamente. No preparo, na refeição e depois. Essa paciência e observação nos enriquecem na nossa percepção do tempo e o que ele faz com o vinho. O que sobrar, às vezes no dia seguinte, pode trazer inesperadas sensações positivas. Caso não lhe agrade, coloque em bandejas de gelo e congele para usar no preparo de pratos, como refogados, risotos, caldos, sopas e afins.

O vinho nos ajuda a imaginar e ponderar o mistério do tempo. Quando você gira sua taça, sente os aromas, experimenta e saboreia, considera, talvez, a substância do tempo nas nossas vidas.

Que as nossas escolhas considerem o tempo que teremos. Afinal, porque a pressa?

Tchin tchin!

Carolina Schoof Centola é fundadora da TriWine Investimentos e sommelière formada pela ABS, especializada na região de Champagne. Em Milão, foi a primeira mulher a participar do primeiro grupo de PRs do Armani Privé.

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