As tarifas de importação impostas ao Brasil pelo governo Trump, somadas a tentativas de ingerência na política nacional, reacenderam na sociedade brasileira o debate sobre soberania. Embora legítimo, o sentimento despertado no povo precisa ser traduzido em ações concretas e duradouras. A construção da soberania não se dá apenas por meio de reações pontuais, mas exige políticas de Estado consistentes, sobretudo nas áreas de ciência e educação. Sem produção de conhecimento, nenhuma nação se torna verdadeiramente autônoma.
A pandemia de Covid-19 escancarou a vulnerabilidade brasileira na área da saúde. Mais de 90% dos insumos farmacêuticos ativos (IFAs) utilizados no país são importados, e apenas metade dos equipamentos médicos é produzida nacionalmente. Essa dependência comprometeu a capacidade de resposta do Sistema Único de Saúde (SUS) e evidenciou a urgência de fortalecer o complexo econômico-industrial da saúde. O tarifaço de Trump, embora de menor impacto, reforça essa fragilidade: a dependência externa nos deixa em posição desfavorável nas negociações internacionais.
Nesse cenário, alguns passos têm sido dados. A Estratégia Nacional para o Desenvolvimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), lançada em 2023, propõe investimentos de R$ 42,1 bilhões até 2026 para fortalecer a produção nacional de medicamentos, vacinas, insumos e tecnologias. Ao integrar ciência, tecnologia e inovação com políticas públicas, a iniciativa caminha no sentido de ampliar a autonomia sanitária e de reduzir a dependência externa. Seu potencial impacto na saúde pública é, sem dúvida, significativo.
A modernização do SUS, com uso de inteligência artificial, big data e nanotecnologia, pode tornar o atendimento mais eficiente e acessível. A geração de empregos e o estímulo à produção econômica também são promissores, com estimativas de retorno de até R$ 2,83 para cada real investido. No setor farmacêutico, o CEIS promove parcerias entre instituições públicas e privadas para viabilizar a produção de medicamentos complexos, como os biofármacos e os oncológicos, além de estimular a autossuficiência em IFAs.
Um exemplo concreto é o investimento de R$ 150 milhões anunciado pela Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) e pelo Ministério da Saúde em projetos de inovação, entre os quais a criação do primeiro Centro de Competência em RNA mensageiro (mRNA) do país. A iniciativa, que prevê colaboração com startups, universidades, empresas e instituições científicas e tecnológicas nacionais e internacionais, visa desenvolver vacinas, terapias avançadas e soluções digitais para diagnóstico em áreas remotas, além de produzir tratamentos para doenças negligenciadas e reduzir o custo de medicamentos.
As ações, sem dúvida, são um avanço relevante, que insere o Brasil na corrida global por autonomia em biotecnologia avançada, favorecendo a redução da dependência e, sobretudo, acelerando a resposta a eventuais pandemias, que, como sabemos, estão no nosso horizonte. Num panorama de crescente desmatamento e urbanização acelerada, de mudanças climáticas e desequilíbrios ecológicos, de alta mobilidade global e de resistência a medicamentos, temos de estar preparados para lidar com novas emergências sanitárias de alto impacto.
Outra notícia positiva é a inauguração da nova fábrica da Hemobrás em Pernambuco, onde serão produzidos insumos que têm sido importados a altos custos. Atualmente, a empresa exporta o plasma brasileiro para fracionamento no exterior e, depois, importa os medicamentos hemoderivados resultantes (albumina, imunoglobulina e os fatores VIII e IX).
Mesmo diante de iniciativas promissoras, no entanto, é preciso cautela. O sucesso da estratégia depende da superação de desafios estruturais, como a forte dependência de financiamento público, que torna os projetos sujeitos à descontinuidade por cortes orçamentários, as desigualdades regionais, os riscos de concentração de mercado e as limitações tecnológicas. A vulnerabilidade às instabilidades globais e a necessidade de políticas contínuas e bem coordenadas também exigem atenção. Sem isso, os avanços podem ser pontuais e insuficientes.
Além disso, o Brasil ainda carece de uma política científica consistente e de longo prazo. A comparação com países como Estados Unidos e China é inevitável. Nos EUA, há investimentos bilionários em engenharia biomédica, inteligência artificial, cibersegurança e física avançada. Na China, cerca de 50% dos universitários se formam em áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, e o país conta com uma rede de laboratórios nacionais distribuídos por todo o território. É importante ressaltar que a interdisciplinaridade é cada vez mais necessária ao desenvolvimento de estudos na área de saúde.
Enquanto isso, a produção científica brasileira enfrenta obstáculos sérios. Além da infraestrutura concentrada no Sul e no Sudeste, as bolsas para pesquisadores em tempo integral são muito baixas (entre dois e três salários mínimos), um claro desestímulo à carreira científica. Falta no Brasil uma cultura de valorização do conhecimento. Sem uma estratégia clara e contínua, o país corre o risco de ficar para trás.
A ciência é o caminho para fortalecer o SUS, impulsionar a indústria nacional, enfrentar desigualdades e garantir soberania. O Brasil tem competência e inteligência, mas ainda carece de visão de futuro e de vontade política para transformar iniciativas pontuais em políticas estruturantes.
Claudio Lottenberg é mestre e doutor em oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp). É presidente do conselho do Einstein Hospital Israelita e do Instituto Coalizão Saúde.
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