Os cânceres ginecológicos, que incluem tumores de colo de útero, endométrio, ovário, vagina e vulva, somam mais de 30 mil novos casos por ano no Brasil, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Entre eles, o câncer de colo de útero ainda é o mais frequente, com cerca de 17 mil diagnósticos anuais, quase sempre relacionado à infecção persistente pelo HPV. Já o de endométrio cresce em incidência, associado a fatores como obesidade e envelhecimento da população.
Mas, entre todos, o câncer de ovário segue como o mais desafiador. Conhecido como “silencioso” por apresentar poucos sintomas nas fases iniciais, costuma ser descoberto tardiamente: em 8 a cada 10 mulheres, a doença já se espalhou pelo abdômen no momento do diagnóstico. Isso acontece porque, diferente do câncer de colo de útero, não há exames de rastreamento eficazes para identificá-lo precocemente.
Avanços que mudam perspectivas
Até pouco tempo atrás, as taxas de cura eram muito baixas, variando entre 10% e 15%. Com novos tratamentos, especialmente após a quimioterapia, esse índice subiu para cerca de 30% a 40% em determinados casos. Ainda assim, a maioria das pacientes enfrenta recidivas agressivas, o que torna o câncer de ovário uma das doenças oncológicas mais desafioadoras de tratar.
Foi justamente nesse cenário que uma notícia trouxe otimismo: a aprovação, no Brasil, do mirvetuximabe soravtansina, uma terapia inovadora que atua de forma diferente da quimioterapia tradicional.
A droga faz parte de uma classe conhecida como anticorpos conjugados a drogas, apelidados de “cavalos de Troia” da oncologia, por conta de seu funcionamento. O medicamento se liga a proteínas presentes em maior quantidade nas células tumorais, “entrando” no organismo como se fosse um aliado. Uma vez dentro do tumor, libera a substância tóxica que destrói as células doentes, poupando os tecidos saudáveis.
O estudo clínico que embasou a aprovação incluiu mais de 450 mulheres que já haviam passado por outros tratamentos sem sucesso. Na pesquisa, o novo medicamento triplicou a taxa de resposta em comparação à quimioterapia, reduziu o risco de morte em aproximadamente 33% e ainda melhorou a qualidade de vida das pacientes.
A medicação é a primeira desta nova classe a modificar a história natural do câncer de ovário resistente, oferecendo novas chances de controle da doença. A expectativa é que esteja disponível no Brasil nos próximos meses.
Apesar desse avanço, o câncer de ovário continua sendo um enorme desafio. O diagnóstico precoce ainda é raro, e o acesso a tratamentos modernos não é uniforme no país. Enquanto o câncer de colo do útero pode ser prevenido com vacina contra o HPV e rastreamento regular, o ovário segue dependendo de investimentos em pesquisa, capacitação de profissionais e incorporação de novas terapias ao sistema de saúde.
*Dr. Fernando Maluf é médico oncologista, cofundador do Instituto Vencer o Câncer e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.
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