“Meu PSA está normal, doutor. Então está tudo bem?” Nem sempre. Mesmo com o exame de sangue dentro dos valores esperados, ainda pode haver risco de câncer de próstata, especialmente em casos mais agressivos.
Essa é uma das dúvidas mais frequentes no consultório. Muitos homens acreditam que um resultado normal do PSA (Antígeno Prostático Específico) é sinônimo de tranquilidade. E, de fato, em grande parte dos casos, o exame de sangue traz boas notícias. Mas é importante saber que ele não conta toda a história. Há uma pequena parcela dos tumores, justamente os mais agressivos, que podem não elevar os níveis de PSA no sangue.
É por isso que o toque retal continua sendo tão importante. O exame, rápido e indolor, permite que o médico avalie o tamanho e a consistência da próstata, identificando nódulos que não aparecem nos exames laboratoriais. PSA e toque retal não se substituem; se complementam e podem indicar a necessidade de uma biopsia para confirmar o diagnóstico. Quando realizados juntos, aumentam consideravelmente as chances de diagnóstico precoce e de um tratamento mais simples, com melhores resultados e preservação da qualidade de vida.
A importância desse acompanhamento foi confirmada por um estudo europeu de grande porte, que avaliou o impacto do rastreamento com PSA na redução da mortalidade por câncer de próstata. O trabalho acompanhou mais de 162 mil homens, de oito países, ao longo de 23 anos.
Os participantes, com idades entre 55 e 69 anos, foram divididos em dois grupos: um que realizou a dosagem de PSA e outro que apenas fez acompanhamento clínico. Após mais de duas décadas de observação, os resultados mostraram que o rastreamento com PSA reduziu em 13% a mortalidade específica por câncer de próstata. Em números práticos, uma morte foi evitada a cada 12 homens diagnosticados com a doença e uma a cada 456 que participaram do rastreamento.
Outro ponto relevante é que o estudo não encontrou aumento de diagnósticos ou tratamentos desnecessário, uma preocupação frequente quando se fala em rastreamento populacional. Ou seja, os pacientes tiveram acesso ao cuidado e ao tratamento adequados, com menos mortes e sem prejuízos decorrentes de intervenções excessivas.
Esses dados reforçam que o rastreamento, quando indicado pelo médico e realizado de forma responsável, salva vidas. O PSA continua sendo uma ferramenta valiosa, especialmente quando associado ao toque retal e ao acompanhamento regular.
Além de discutir exames, é preciso incentivar também o autocuidado masculino. Manter consultas regulares, tirar dúvidas e enfrentar sem preconceitos a conversa sobre prevenção são atitudes que fazem toda a diferença. Afinal, quanto antes o câncer de próstata é detectado, maiores são as chances de cura e de preservação da qualidade de vida.
*Dr. Fernando Maluf é médico oncologista, cofundador do Instituto Vencer o Câncer e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.
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