Como presidente da Fundação Bienal de São Paulo, voltei há poucas semanas de Veneza, onde estive para a abertura da Biennale Arte 2026. Tenho a honra de ser a comissária da participação nacional brasileira, a exposição “Comigo ninguém pode”, uma curadoria de Diane Lima com obras das artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão. Composta por obras históricas e trabalhos inéditos, realizados especialmente para a ocasião, a mostra de dois dos maiores nomes da arte nacional tem sua potência ampliada pelo próprio Pavilhão do Brasil, que é apresentado ao público de forma renovada, resultado de um processo de recuperação conduzido ao longo de três anos pela Fundação Bienal de São Paulo, em parceria com os ministérios da Cultura e das Relações Exteriores.
Com mais de um século de história, a Bienal de Veneza mantém-se fiel à tradição das representações nacionais, ou seja: para além da mostra principal, conduzida por uma equipe curatorial convidada, mais de cem países organizam apresentações próprias, com maior ou menor afinidade com o tema central. Esta edição foi fortemente afetada por dois acontecimentos marcantes: a morte, no ano passado, da curadora Koyo Kouoh, cujo projeto foi levado adiante por sua equipe em sua homenagem; e debates no meio artístico em torno da participação de alguns países, o que levou à renúncia coletiva do júri poucos dias antes da pré-abertura.

Embora o luto e as tensões políticas fossem quase palpáveis entre as ruas dos Giardini venezianos e os largos corredores do Arsenale, também era possível sentir com igual ou maior força a potência do encontro de tantas expressões artísticas, concentradas nos 7,6 km2 do centro histórico veneziano. Nos Giardini, além do próprio Brasil, os pavilhões da França, da Espanha e da Alemanha merecem uma menção especial. A franco-marroquina Yto Barrada – participante da 29ª e 35ª edições da Bienal de São Paulo, aliás –, o espanhol Oriol Vilanova e a dupla composta pela vietnamita Sung Tieu, que esteve na 34ª Bienal de São Paulo, e a alemã Henrike Naumann (também uma participação póstuma) mobilizam pesquisas e sensibilidades distintas, porém igualmente marcadas pelo rigor conceitual e estético. No Arsenale, o Pavilhão da Índia, com curadoria de Amin Jaffer, traz delicadas participações de cinco artistas ao redor do conceito de “lar”. Por fim, vale o deslocamento até o Giardino Mistico dei Carmelitani Scalzi e o Complesso di Santa Maria Ausiliatrice para visitar a sensível exposição do Pavilhão do Vaticano, com curadoria de Hans Ulrich Obrist e Ben Vickers. E não poderia deixar de mencionar os pavilhões da Áustria e do Japão, que causaram burburinho por suas propostas polêmicas e ousadas.

Mas o encanto de Veneza vai além da própria Biennale. As instituições locais apresentam o melhor de seus programas em paralelo à abertura da mostra bienal – como acontece aqui, quando a cena artística da cidade se mobiliza para acompanhar a abertura da Bienal de São Paulo. A recém-inaugurada Fondazione Dries Van Noten oferece um espetáculo barroco que celebra a capacidade e o alcance do fazer manual. A sempre imperdível Fondazione Prada apresenta um diálogo entre Arthur Jafa e Richard Prince, dois grandes artistas estadunidenses que, de acordo com a curadora Nancy Spector, compartilham um processo criativo baseado na apropriação e manipulação de imagens de diferentes fontes. As instituições da Pinault Collection tampouco podem ser esquecidas: enquanto a Punta della Dogana traz duas individuais do grande artista brasileiro Paulo Nazareth e da americana Lorna Simpson, o Palazzo Grassi apresenta individuais do pintor Michael Armitage e do cineasta a artista multidisciplinar Amar Kanwar.
Entre o orgulho e a emoção de inaugurar uma exposição histórica para o Pavilhão do Brasil e a riqueza dos encontros com obras de centenas de artistas, alguns conhecidos, outros descobertos agora, voltei ao Brasil repleta de energia para a realização da próxima Bienal de São Paulo, que se avizinha – setembro de 2027 está mais perto do que parece e temos muito a fazer para abrir as portas do Pavilhão Ciccillo Matarazzo não apenas para a comunidade artística brasileira e internacional, mas principalmente para as centenas de milhares de pessoas que encontram na exposição um espaço que é de lazer, mas também de ampliação de horizontes.
*Andrea Pinheiro é presidente da Fundação Bienal de São Paulo, conselheira do MASP e patrona da Pinacoteca. No âmbito corporativo, é membro do Conselho de Administração e do Comitê de Auditoria da Vivo, e conselheira e membro dos Comitês de RH e de Tecnologia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
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