1. Início
  2. /
  3. Colunas
  4. /
  5. A Pele Fala: o Que a Medicina Já Consegue Ouvir
Colunas

A Pele Fala: o Que a Medicina Já Consegue Ouvir

A tecnologia amplia a capacidade de identificar sinais do organismo em tempo real, enquanto a pele revela alterações que podem antecipar desequilíbrios e doenças

4 min

Em uma manhã de segunda-feira, logo depois de acordar, me deparei com um índice de 16% de Recovery no Whoop. Era um sinal de alerta, mas não exatamente uma surpresa. Na noite anterior, eu tinha ido com a família a um restaurante japonês, algo não me caiu bem e afetou meu sono.

Para quem não conhece, o Whoop é um rastreador de saúde e desempenho físico focado no monitoramento contínuo de dados biológicos. Basta usar o monitor no pulso e acompanhar as informações na tela do celular. O Recovery é a pontuação de recuperação, uma métrica diária (de 0 a 100%) que mede quão restaurador foi seu sono com base na análise da qualidade do sono, da frequência cardíaca e da frequência respiratória.

Além de apresentar a pontuação, ele traz recomendações. No meu caso, foi: reponha eletrólitos e tome um banho gelado. Depois me lembrou que eu havia jantado tarde e que, quando dormimos com o sistema digestivo ainda ativado, o corpo não consegue se recuperar de verdade. Por trazer a pontuação a cada manhã, ele faz algo que a medicina tradicional ainda não consegue fazer de forma contínua: acompanha o corpo em tempo real, afinal ele realmente é dinâmico – responsivo, em constante mudança. É possível até enviar resultados de exame que ele armazena e inclui como base de comparação em suas análises. Enquanto um check-up anual é uma fotografia, o monitoramento contínuo é um filme. E a diferença entre os dois pode ser anos de antecedência na identificação de desequilíbrios que, ignorados, podem se tornar doenças.

Esse episódio é uma prévia do que a medicina associada à tecnologia pode nos trazer de qualidade de vida. Em um texto publicado recentemente, a médica e neurocientista Dra. Christin Glorioso projeta como será uma manhã comum em 2036: logo após acordarmos, o banheiro já terá feito uma análise de microbioma e urina enquanto escovamos os dentes e o espelho terá identificado uma nova pinta no rosto e encaminhado para avaliação por inteligência artificial. A cama terá gerado um relatório de sono, um patch no braço terá monitorado marcadores de inflamação cerebral durante a noite e detectado uma alteração que merece atenção semanas antes de qualquer sintoma aparecer. Tecnologia para isso já existe.
O mercado global de dispositivos médicos vestíveis foi estimado em US$ 42,74 bilhões em 2024 e deve atingir US$ 168,29 bilhões até 2030, crescendo a uma taxa de 25,53% ao ano, segundo a Grand View Research. É uma revolução em curso.

O que me fascina, como dermatologista, não é a tecnologia em si. É o que ela confirma algo que sempre soubemos, mas raramente conseguíamos medir com precisão: a saúde não é um estado, é um processo contínuo. Ela flutua e responde de formas diferentes à nossa rotina. Ela manda sinais o tempo todo – cabe a nós saber identificá-los.

Getty ImagesSinais na pele podem revelar alterações no organismo e até indicar doenças sistêmicas antes de outros sintomas

A pele, como maior órgão do corpo e o único que conseguimos enxergar por inteiro, é o lugar onde esses sinais aparecem primeiro. Muitas doenças sistêmicas têm manifestações cutâneas (vermelhidão, mancha, coceira ou escamação). A pele é uma forma de o corpo se comunicar.

A pele fala, e meu trabalho, como médica, é saber ouvi-la.

Por Dra. Letícia Nanci, especialista em dermatologia pela Associação Médica Brasileira (AMB) e pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), membro efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, da Academia Americana de Dermatologia (AAD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD).

*Reportagem publicada na edição 141 da Forbes Brasil, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.