Uma das mudanças mais curiosas trazidas pelos medicamentos análogos ao GLP-1 acontece no cérebro. Quando a comida deixa de ocupar o mesmo espaço emocional e sensorial de antes, o prazer procura novos caminhos. E, segundo o estudo The Future 100 2026, da consultoria VML, um dos destinos dessa migração tem sido os rituais de beleza. À medida que Mounjaro, Wegovy e Ozempic reduzem o apetite, o prazer sai do prato e migra para os sentidos.
Por que isso acontece? A resposta está no cérebro, não no estômago. Por muito tempo, imaginou-se que as canetas emagrecedoras agissem apenas retardando o esvaziamento do estômago e prolongando a sensação de saciedade. Hoje sabemos que o efeito vai além: os análogos de GLP-1 atuam em regiões cerebrais ligadas ao apetite e, principalmente, no sistema de recompensa. Muitos pacientes descrevem o desaparecimento do chamado “ruído alimentar”, aqueles pensamentos insistentes sobre comida.
Em busca de uma nova fonte de dopamina, os usuários de GLP-1 descobriram os rituais de beleza. Há até um nome para isso: caloria sensorial, a ideia de que esses produtos entregam o prazer e a descarga de dopamina associados à comida, sem as calorias. Um deleite sem culpa, que satisfaz a mente sem passar pelo estômago.
A considerar o aumento do uso desses medicamentos, o número de adeptos do beauty gourmand, a tendência de produtos de beleza inspirados em aromas, cores e sensações associadas a alimentos, deve aumentar. Dados do UBS Investment Bank estimam que serão 40 milhões de usuários de análogos GLP-1 em todo o mundo até 2029, o que deve representar um mercado de US$ 126 bilhões.
As vendas de perfume para usuários de GLP-1 nos Estados Unidos cresceram 23% em 2025, segundo a NielsenIQ. Os lançamentos de fragrâncias com notas de biscoito, cereja e sobremesa subiram 24%, de acordo com a Mintel. E, segundo o próprio relatório da VML, um em cada três novos produtos de beleza traz alguma referência comestível, transformando o skincare em sobremesa.
Esse fenômeno faz sentido do ponto de vista biológico. A pele é o maior órgão do corpo e um dos mais ricos em receptores sensoriais. Tato e olfato são canais diretos para as áreas do cérebro ligadas à emoção e à recompensa. Quando aplicamos um creme de textura agradável, sentimos um aroma de que gostamos e dedicamos alguns minutos a esse gesto, o corpo responde com liberação de dopamina e ocitocina.
A saúde da pele não está separada do nosso estado geral. O estresse crônico e o cortisol elevado pioram quadros como acne, rosácea e dermatites; comprometem a barreira cutânea e aceleram o envelhecimento. Sendo assim, um ritual prazeroso e constante de cuidado com a pele deixa de ser apenas vaidade e passa a ser uma forma de autorregulação que beneficia o organismo.
Mas, como sempre, é preciso atenção antes de aderir a tendências. Prazer não é sinônimo de eficácia. Um creme de aroma delicioso e toque aveludado não é, necessariamente, um tratamento. O sensorial e o científico podem e devem conviver, mas há um risco de deixar o estímulo sensorial virar um álibi para dispensar a evidência.
*Dra. Letícia Nanci é especialista em dermatologia pela Associação Médica Brasileira (AMB) e pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), membro efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, da Academia Americana de Dermatologia (AAD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD)
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