Já tem um bom tempo que uso a inteligência artificial para me ajudar a encontrar artigos científicos e textos de meu interesse. Outro dia, fiquei pensando quantas horas me custaria fazer isso sem a ajuda dela. Provavelmente, muitas, talvez dias. Logo em seguida, me veio outra pergunta: o que será que eu aprendia naquelas horas de busca na internet que hoje já não aprendo?
É compreensível termos nos rendido às tecnologias e outros atalhos porque queremos remover ou encurtar o tempo gasto de tudo que nos atrapalha. Queremos resolver problemas em poucos cliques, encontrar o caminho mais rápido, evitar esperas, só para citar três exemplos. Em tempos de agendas tão apertadas, poupar tempo faz bem. Mas me pergunto se, ao buscarmos afastar toda e qualquer dificuldade, não estamos também perdendo a oportunidade de desenvolver capacidades importantes.
A paciência, por exemplo, não é algo com que se nasce, nem a capacidade de lidar com a frustração ou de persistir quando o resultado demora a chegar. Essas são habilidades que desenvolvemos ao longo da vida, justamente quando somos colocados frente a algo que leva mais tempo do que gostaríamos ou quando precisamos tentar de novo porque não há outra saída.
Sentir dificuldade, portanto, não é necessariamente sinal de que algo vai mal. Muitas vezes, é a constatação de que o próprio aprendizado está acontecendo. Pense em quem desiste de um instrumento ou de um idioma porque não foi bem nas primeiras tentativas. Essa pessoa abandona exatamente quando o processo começaria a dar frutos.
A questão é que cada vez mais pessoas têm se acostumado a driblar as dificuldades. Se uma resposta ou solução não chega imediatamente, procuramos outra ferramenta. Se uma tarefa parece complicada (veja o meu exemplo de buscar papers científicos com ajuda), buscamos alguém ou alguma tecnologia que a faça por nós.
Há ainda outro aspecto que, penso, vale a pena atentar: o que acontece com a confiança que temos na nossa capacidade de resolver problemas. Quando não desistimos de uma tarefa difícil, quase sempre passamos pelas etapas de tentativa, erro e experimentação, até conseguir avançar.
E é justamente porque insistimos que criamos recursos para enfrentar dificuldades. Se recorremos sempre a uma resposta pronta, podemos perder a oportunidade de exercitar a autonomia e de descobrir que temos recursos para enfrentar uma infinidade de coisas.
Logicamente, não estou defendendo que devemos complicar a vida de propósito quando há uma ferramenta que pode nos ajudar. A tecnologia é uma aliada extraordinária porque nos poupa de muitos obstáculos inúteis. A questão é saber diferenciar aquelas que deveriam ser eliminadas daquelas que podem nos ensinar alguma coisa. Uma fila de banco, por exemplo, não ensina nada a ninguém. Já as horas gastas para enfrentar um texto difícil podem ser o que nos faz aprender a crescer.
Como psiquiatra, considero essa diferenciação importante para a saúde mental. Aprender a tolerar frustrações, por exemplo, significa reconhecer que nem sempre podemos controlar as circunstâncias e que, nessas situações, podemos desenvolver recursos para lidar com elas. Na clínica, vejo com frequência que evitar sistematicamente o desconforto tende a aumentar, e não a diminuir, a sensação de incapacidade. Autonomia, afinal de contas, é a capacidade de encontrar alternativas, corrigir erros e pedir ajuda quando necessário.
Antes de buscar uma solução imediata para cada obstáculo que encontrar, pense se aquela dificuldade precisa mesmo desaparecer. Porque, ao eliminarmos todo esforço, toda espera e toda possibilidade de errar, podemos estar abrindo mão de algo precioso: a oportunidade de descobrir do que somos capazes.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.
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