Meu apartamento ficaria pronto em julho. Depois, em setembro. Vieram as chuvas, e a previsão passou para novembro. Faltou mão de obra: dezembro. Agora, com as festas de fim de ano, fala-se em janeiro, talvez fevereiro.
Quem já reformou uma cozinha ou construiu uma casa reconhece o enredo. E reconhece também o sentimento que o acompanha: uma irritação que se acumula a cada nova data, até virar uma pergunta insistente. De quem é a culpa?
A pergunta é natural. Culpar alguém ajuda a organizar e dar um endereço à raiva: o arquiteto que prometeu demais, o engenheiro que não previu, o empreiteiro que sumiu numa segunda-feira. Mas, depois de mais de quarenta anos ouvindo pessoas falarem de frustração, aprendi a desconfiar do alívio que o culpado oferece. Ele acalma por uma tarde e não move um tijolo.
Parte dessa raiva nasce de uma expectativa que já começa errada. Nos anos 1970, os psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky deram nome para esse erro: a falácia do planejamento. Somos sistematicamente otimistas ao estimar quanto tempo e dinheiro um projeto vai consumir, mesmo quando sabemos que projetos parecidos, inclusive os nossos, atrasaram. Olhamos para o mundo ideal e esquecemos a chuva, o fornecedor, a peça que chega errada, a decisão que nós mesmos adiamos. O atraso, nesse sentido, não é a exceção. É a regra previsível que preferimos não prever.
Vejo esse tipo de otimismo também no consultório. Uma das primeiras perguntas que os pacientes nos fazem é: “doutor, em quanto tempo isso se resolve?” A resposta mais honesta geralmente é a que eles não querem ouvir. Quem já passou por tratamentos de questões de saúde mais sérias sabe que quase sempre o caminho é mais longo do que imaginava. Mesmo assim, a maioria costuma querer prever uma data. Antes de botar fé em um cronograma, será que não valeria ter pesquisado quanto tempo obras parecidas demoraram?
Isso não absolve ninguém. Há profissionais desorganizados, e há prazos irreais prometidos só para fechar contrato. Mas há algo mais a ser analisado: qual é a sua parte no atraso?
Porque há uma parte que é nossa. Quem contrata uma equipe entrega para ela a execução, mas continua responsável pelo rumo da obra. Delegar não é abdicar. Quem some e só reaparece para cobrar a data final descobre os problemas tarde demais. Reuniões curtas e regulares, um cronograma à vista de todos e decisões tomadas no tempo certo (o piso, a torneira, a cor da parede) fazem mais pela obra do que qualquer bronca. Acompanhar de perto é uma forma de estar presente.
Há, ainda, outra questão: o que fazemos com a frustração. Mandar embora toda a equipe raramente resolve, porque recomeçar com outra costuma custar mais tempo. Ruminar a cada mensagem do mestre de obras destrói o humor e não acelera nada. A obra pode ser a mesma para duas pessoas. O que protege a saúde mental de uma delas é a relação que se tem com o imprevisto.
Uma obra é uma boa metáfora para quase tudo o que importa. Nos preparamos para uma maratona durante meses, e todo corredor sabe que a planilha de treinos nunca é cumprida à risca. Um casamento, uma carreira, a educação de um filho são projetos de longo prazo, executados em parte por outras pessoas, sujeitos a chuva.
Vejo isso com clareza no tratamento da dependência. Ele não termina na data marcada porque pode haver recaídas e recomeços. Uma recaída muitas vezes exige mudança de planos, mas não apaga o que foi construído. Quando o prazo não é cumprido, raramente a primeira alternativa é começar tudo do zero.
A saída é a mesma que tento aplicar ao meu apartamento: planejar com realismo, acompanhar de perto, corrigir a rota sem drama e aceitar que a data final é uma estimativa, não uma promessa.
Se tudo correr bem, em fevereiro escrevo a coluna da casa nova. Anotei esse prazo na agenda. Só que a lápis.
Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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