Passei boa parte da minha vida profissional defendendo a importância de incorporar hábitos saudáveis, como se exercitar, comer bem, cuidar do sono e cultivar amigos. Eles são excelentes ferramentas de cuidado da saúde mental.
Continuo prescrevendo tudo isso, mas, recentemente, comecei a fazer um movimento que parece contrário ao que sempre recomendei: em vez de acrescentar mais atividades saudáveis à minha agenda, passei a rever o que realmente fazia sentido manter. Um exemplo disso foi reduzir as atividades físicas que fazia para me concentrar no que mais importa para a minha idade: treinar o VO2 máximo e fazer musculação.
Isso não significa que abandonei hábitos importantes, mas que reconheci que, muitas vezes, uma rotina saudável que mira a “excelência” pode se tornar exagerada e difícil de sustentar.
Esse tema tem despertado a atenção de pesquisadores. Em 2021, um estudo publicado na revista Nature mostrou que, diante de um problema, tendemos a buscar soluções que acrescentam alguma coisa e ignorar as que retiram algo.
Quatro anos depois, pesquisadores britânicos observaram que o mesmo acontece quando o assunto é saúde mental. Os conselhos mais comuns, e os mais bem avaliados, são os que mandam fazer mais, mesmo quando parar ou reduzir alguma coisa é uma opção.
Você certamente já praticou ou já viu algum conhecido fazendo isso: está estressado? Entra na meditação. Está dormindo mal? Busca um suplemento que ajuda a pegar no sono.
O estudo da Nature traz outro dado interessante. Essa tendência se acentua quando a mente está sobrecarregada. Ou seja: vira um círculo vicioso. Quanto mais ocupados estamos, mais difícil parece ser perceber que precisamos eliminar alguma coisa da lista de tarefas.
Arrisco dizer que o mesmo raciocínio vale para a agenda de quem tenta fazer tudo certinho. A nossa cultura valoriza o fazer, e assim vamos transformando o autocuidado em mais uma obrigação a cumprir. Isso, é claro, não significa abrir mão de todas as coisas que fazem bem à saúde, mas é preciso admitir que o excesso de compromissos, mesmo os mais prazerosos, pode deixar pouco espaço para o descanso e o convívio com outras pessoas.
Tenho feito esse experimento de encarar a minha própria rotina a partir dessa perspectiva, repensando o que eu poderia deixar de fazer para viver melhor. Esse é um exercício de escolhas e de reconhecer o que de fato é realmente prioridade.
Se aprendemos que cuidar da saúde mental nos exige incorporar bons hábitos, também podemos aprender que, em certas circunstâncias, preservar o bem-estar significa simplesmente fazer menos.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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