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Os Limites dos Chatbots na Saúde Mental

Apesar de ampliarem o acesso à informação e ao acolhimento, ferramentas de IA ainda não substituem o vínculo e a avaliação de um profissional de saúde mental

4 min

Confesso que a ideia de ter um interlocutor disposto a falar sobre saúde mental 24 horas por dia sem a necessidade de sair de casa e a uma fração do custo de uma consulta particular é sedutora, e com razão.

Vivemos um gargalo real de acesso aos cuidados em saúde mental. Primeiro, porque especialistas não são encontrados em muitas cidades brasileiras. Segundo, porque no serviço público, mesmo nas capitais, dificilmente se consegue uma consulta rapidamente. Sob essa ótica, a popularização dos chatbots alimentados por inteligência artificial traz uma contribuição enorme, ao democratizar o início de uma conversa.

Para muitas pessoas que ainda veem com receio ou com vergonha uma consulta com um psiquiatra (o estigma ainda existe e por isso não são poucas, infelizmente) ou ficam impossibilitadas de buscar ajuda por causa da distância, trocar mensagens com um bot funciona como uma primeira quebra de isolamento. O chatbot pode funcionar como um contato inicial que responde a uma angústia e até eventualmente ajuda a dar nome para aquilo que está fazendo sofrer. Num mundo superconectado, mas também um mundo em que muitos se sentem sós, não dá para negar que o bot possa de alguma forma ajudar alguém a descarregar o seu sofrimento.

Penso que o problema está em confundir um texto vindo de uma inteligência artificial com a presença clínica “em carne e osso” de um especialista.

Tanto a psiquiatria quanto a psicoterapia – que muito ajuda a nós, psiquiatras – se apoiam na premissa mais básica da medicina: o tratamento e, por vezes, a cura acontece no encontro entre dois seres humanos. É a partir dessa relação de confiança, olho no olho, que o tratamento se desenvolve.

E essa relação vai muito além das palavras faladas ou escritas. Ela passa pelo olhar, pelos gestos, pelo vínculo que se constrói consulta após consulta e pela responsabilidade que o médico assume pelo seu paciente.

Mesmo quando “ouve” a voz do usuário, um algoritmo não consegue “ver” uma mão que treme de nervoso, nem enxerga a manifestação de uma ansiedade que se manifesta no corpo. Mais do que isso, o bot não sabe o que fazer com o silêncio que, muitas vezes, sabemos estar presente na nossa prática clínica. No consultório, o silêncio pode dizer tanto quanto as palavras. Para o bot, ele é apenas o intervalo entre duas frases.

Há outros limites reais dos chatbots. Um deles é chamado de bajulação. Essas ferramentas tendem a ser gentis e a concordar com o que o usuário escreve, porque são treinadas para manter o usuário engajado. Acontece que, em certas situações, como, por exemplo, nas dependências, precisamos ser duros com o paciente e dizer o que, no fundo, ele já sabe e não quer ouvir: “você tem de parar com isso agora”. É para isso, inclusive, que estamos ali, para ajudá-lo com tudo o que estiver ao nosso alcance. O outro limite é a alucinação, quando a IA inventa informação falsa com aparência de verdade sobre um remédio, diagnóstico ou tratamento. Se o usuário não tem algum conhecimento sobre saúde mental, pode comprar gato por lebre.

A tecnologia não deve ser condenada nem endeusada. Ela pode ser um copiloto importante nos bastidores do consultório, inclusive nos ajudando a fazer algum tipo de triagem em situações de baixo risco, mas sempre com a presença de um profissional responsável por isso. Porém, quando o sofrimento aperta, nenhuma inteligência artificial substitui o acolhimento de outro ser humano.

*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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