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Como o Agro Brasileiro se Tornou uma Potência Mundial em 166 Anos

No Dia da Agricultura, setor celebra um PIB de R$ 3,2 trilhões, com liderança nas exportações globais após décadas de ciência, crédito e inovação no campo

11 min

O agronegócio brasileiro vive um de seus momentos mais relevantes da história. A cadeia movimenta R$ 3,2 trilhões, responde por 25,13% do Produto Interno Bruto (PIB), deve colher cerca de 360,1 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26 e foi responsável por US$ 169,2 bilhões em exportações no último ano, o equivalente a quase metade de tudo o que o Brasil vende ao exterior.

Líder mundial em produtos como soja, café, suco de laranja, açúcar e carne bovina, o país também começa a incorporar inteligência artificial, bioinsumos e monitoramento por satélite ao dia a dia das fazendas.

Esse cenário é resultado de uma construção que atravessou gerações. Foram exatos 166 anos. Muito antes dos drones, dos algoritmos e das máquinas conectadas, um decreto assinado por Dom Pedro II, em 28 de julho de 1860, criou a Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, embrião do atual Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Foi justamente no ano do centenário do Mapa, em 1960, que a data entrou no calendário oficial brasileiro como o Dia da Agricultura, instituído pelo então presidente Juscelino Kubitschek. Entre aquele ato administrativo e o agro altamente tecnológico dos dias atuais, alguns acontecimentos mudaram definitivamente a produção agrícola brasileira. Confira os principais marcos do agro ao longo desse mais de um século e meio de história.

1860, um decreto que lançou as bases da agricultura brasileira

A criação da Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas representou a primeira estrutura nacional voltada à organização das políticas públicas para o setor. Ainda distante da agricultura moderna, o país começava a construir uma base institucional que acompanharia o desenvolvimento da atividade nas décadas seguintes.

O café era o carro-chefe do agro naquele ano. Dados recuperados pelo IBGE apontam uma produção de cerca de 3,2 milhões de sacas de 60 quilos (190 mil toneladas), volume que equivalia a 75% da produção mundial na segunda metade do século 19. Atualmente, o País produziu 55,2 milhões de sacas de 60 quilos (3,3 milhões de toneladas) em 2025.

1882, a soja começou a escrever sua história

fotokostic/Getty ImagesTrator fazendo aplicação de defensivos agrícolas numa lavoura de soja

Em 1882, o professor Gustavo D’Utra, da Escola Agrícola São Bento das Lages, no Recôncavo Baiano, realizou o primeiro cultivo de soja no Brasil. A empreitada fracassou, pois o material genético, desenvolvido para climas frios ou temperados, não se adaptou às condições da Bahia.

Em 1891, cultivares de soja foram testados no Instituto Agronômico de Campinas (IAC-SP). Mas a efetiva trajetória de sucesso da produção comercial de soja somente teve início no Rio Grande do Sul, entre as décadas de 1920 e 1940.

O trabalho de melhoramento genético abriu caminho para a expansão da cultura nas décadas seguintes e preparou o terreno para que o grão se transformasse na principal commodity agrícola do país. Com colheita finalizada da safra 2025/26, a soja alcança uma produção de 180,6 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

1898, o fazendeiro transformou a pecuária nacional com o zebu

Cleverson Nunes/Getty ImagesDetalhe de bovinos de corte em área de curral de confinamento

A chegada das primeiras raças zebuínas vindas da Índia mudou a história da bovinocultura brasileira. Apesar da introdução desse gado ter ocorrido anos após a chegada dos portugueses ao país e de outros ciclos pecuários, foi em 1898 que ocorreram as primeiras importações de interesse comercial.

Segundo dados da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), as importações foram realizadas por fazendeiros do Triângulo Mineiro. Essas operações se destacaram porque os próprios produtores viajaram até a Índia para buscar os animais.

Adaptados ao clima tropical, animais como Nelore, Gir e Guzerá permitiram ganhos de produtividade e deram origem à base genética que hoje sustenta o maior rebanho comercial do mundo, estimado em 238,2 milhões de bovinos, segundo o IBGE. O avanço foi decisivo para a consolidação da pecuária brasileira.

1952, a força dos pastos

O pasto, a forma mais barata de produzir carne bovina, começou sua história oficial em 1952, com a introdução de gramíneas do gênero Brachiaria adaptadas aos solos tropicais ácidos do Brasil, por meio da chegada da Brachiaria decumbens. O uso em larga escala e a expansão para o Cerrado e a Amazônia ganharam força a partir de 1965 e se consolidaram nos anos 1980, com cultivares como o capim-marandu.

Essa transformação gradual dos pastos brasileiros fortaleceu a pecuária, que hoje ocupa uma área estimada em 164 milhões de hectares, segundo dados recentes do MapBiomas. A revolução iniciada pela pesquisa ganhou força com a expansão da agricultura sobre o Cerrado.

1965, o crédito acelerou a modernização do campo

A criação do Sistema Nacional de Crédito Rural marcou o início de uma nova fase da agricultura brasileira. Trata-se do principal conjunto de regras e instituições criado pelo governo para financiar a agropecuária nacional, gerido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e operacionalizado com regras aplicadas pelo Banco Central (BC).

A carteira de crédito agropecuário soma hoje cerca de R$ 1,2 trilhão, segundo o BC. Com financiamento para máquinas, equipamentos, insumos e tecnologia, os produtores passaram a ter condições de investir em produtividade e modernizar as propriedades rurais, preparando o setor para um novo ciclo de crescimento.

1972, produzir mais na mesma área

Wenderson Araujo/Trilux/CNA
Wenderson Araujo/Trilux/CNAPlantadeira do grão em área de plantio direto sobre palhada

Naquele ano, em 23 de outubro, o produtor brasileiro Herbert Bartz, da Fazenda Rhenânia, em Rolândia (PR), realizou o primeiro plantio comercial por meio de uma técnica que havia ganhado notoriedade nos Estados Unidos. Era o início do Sistema Plantio Direto (SPD) no país. A data é hoje oficialmente celebrada como o Dia Nacional do Plantio Direto na Palha.

A técnica se espalhou do Sul para o Cerrado brasileiro, adaptando-se às grandes lavouras de grãos. A adoção do Sistema Plantio Direto reduziu a erosão, preservou a umidade do solo e aumentou a eficiência das lavouras.

Foi nessa fase que o país consolidou um modelo baseado em tecnologia, manejo e uso mais eficiente dos recursos naturais. Atualmente, estima-se que até 40 milhões de hectares sejam cultivados sob o SPD, colocando o Brasil entre os líderes mundiais nessa tecnologia de conservação do solo.

1973, a Embrapa mostrou que os trópicos também podiam produzir

A criação da Embrapa é considerada um dos principais marcos da transformação da agricultura brasileira. A empresa desenvolveu tecnologias adaptadas às condições tropicais e ajudou a derrubar a ideia de que apenas países de clima temperado poderiam alcançar altos índices de produtividade agrícola.

As pesquisas também abriram caminho para a ocupação produtiva do Cerrado, considerado, até então, um ambiente de baixa aptidão agrícola. Técnicas de correção dos solos, novas cultivares e sistemas de manejo transformaram a região em uma das maiores fronteiras agrícolas do planeta.

1975, a produção de energia no agro

O Programa Nacional do Álcool (Proálcool) impulsionou o desenvolvimento da cadeia sucroenergética. A iniciativa do governo brasileiro, criada em novembro de 1975, teve como objetivo incentivar a produção de etanol a partir da cana-de-açúcar para substituir a gasolina e reduzir a dependência externa do petróleo.

O programa surgiu como resposta direta ao primeiro choque do petróleo, em 1973, quando os preços internacionais do barril dispararam e desequilibraram a economia e a balança comercial do Brasil.

Hoje o Brasil é o maior produtor e exportador mundial de açúcar e um dos líderes globais em etanol. A safra brasileira de cana-de-açúcar 2025/26 encerrou com uma moagem total de 673,2 milhões de toneladas, com uma produção de 44,2 milhões de toneladas de açúcar e 37,5 bilhões de litros de etanol.

1982, a liderança brasileira no suco de laranja

Getty ImagesFrutos de laranja maduros no pé

O Brasil assumiu a liderança global na produção e exportação de suco concentrado de laranja no início da década de 1980, mais precisamente em 1982, após superar os Estados Unidos em razão da expansão dos pomares paulistas e das fortes geadas que atingiram os cultivos na Flórida.

O país produz anualmente entre 1 milhão e 1,1 milhão de toneladas de suco de laranja, abastecido por uma colheita superior a 290 milhões de caixas da fruta.

1990, o órgão que passou a contar e acompanhar as safras agrícolas

A Conab foi fundada em 12 de abril de 1990 da fusão de três órgãos federais: a Companhia de Financiamento da Produção (CFP), a Companhia Brasileira de Alimentos (Cobal) e a Companhia Brasileira de Armazenamento (Cibrazem).

O órgão fortaleceu o monitoramento das safras e das estatísticas agrícolas, oferecendo mais segurança para produtores, mercado e formuladores de políticas públicas.

2000, o Brasil ganhou o mundo, mercados, tecnologia e mais sustentabilidade

Depois de décadas de investimentos em ciência e inovação, os resultados passaram a aparecer também no mercado internacional.

Em 2004, o país assumiu a liderança mundial nas exportações de carne bovina, superando concorrentes tradicionais, como Austrália e Estados Unidos. Segundo o Mapa, naquele ano o Brasil exportou 1,2 milhão de toneladas, que renderam US$ 2,5 bilhões.

Poucos anos depois, conquistou espaço entre os maiores exportadores de soja e milho, tornando-se um dos principais fornecedores de alimentos do planeta.

A expansão em larga escala dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) no Brasil ganhou forte impulso entre 2009 e 2012. Esses sistemas fortaleceram o agro brasileiro ao combinar aumento da produtividade com recuperação de áreas degradadas.

O ano de 2009 marcou o lançamento do Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), enquanto 2012 registrou a criação da Rede ILPF, consolidando essa tecnologia no país. Atualmente, a Embrapa contabiliza 17,43 milhões de hectares com algum tipo de arranjo de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta.

Em 2016, foi lançada comercialmente a primeira soja transgênica desenvolvida integralmente no Brasil: a Cultivance, fruto de uma parceria entre a Embrapa e a empresa alemã Basf. A cultivar é resistente a herbicidas da classe das imidazolinonas.

Vale lembrar que a primeira soja transgênica cultivada no país, tolerante ao glifosato, foi introduzida no fim da década de 1990 e regularizada em 2003, mas utilizava tecnologia desenvolvida no exterior.

2020 e o futuro, a inteligência artificial inaugura uma nova revolução no campo

Na safra 2019/2020, outro marco histórico foi alcançado: o Brasil superou os Estados Unidos e tornou-se o maior produtor mundial de soja.

Em 2023, consolidou também a liderança nas exportações globais de milho, confirmando o protagonismo da agricultura brasileira no comércio internacional.

No fim de 2025, outra conquista: o Brasil superou os Estados Unidos e tornou-se, pela primeira vez na história, o maior produtor mundial de carne bovina, com uma produção de 12,3 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

A tecnologia que transformou o campo no século passado agora ganha um novo aliado: os dados. Sensores, drones, imagens de satélite e plataformas digitais passaram a orientar decisões sobre plantio, irrigação, adubação e colheita.

Na pecuária, sistemas de inteligência artificial ajudam a monitorar o desempenho dos animais, enquanto ferramentas de seleção genômica aceleram o melhoramento dos rebanhos.

Outra frente de inovação está nos bioinsumos. O uso crescente de microrganismos, como Bradyrhizobium e Azospirillum brasilense, contribui para aumentar a eficiência das lavouras e reduzir parte da dependência de fertilizantes sintéticos.

Ao mesmo tempo, pesquisadores da Embrapa Digital desenvolvem soluções que utilizam inteligência artificial e sensoriamento remoto para monitorar pastagens, estimar biomassa e apoiar a tomada de decisões no campo, ampliando a precisão do manejo agrícola e pecuário.

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