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Da Medicina Diagnóstica À Cannabis Medicinal. A Estratégia de Juliana Komel para Faturar R$ 84 Milhões

A co-CEO da Alko do Brasil detalha a transformação da indústria de sua família para atuar como uma farmacêutica voltada para cannabis e fitoterápicos

8 min

Em um trecho da Estrada dos Bandeirantes, na zona oeste do Rio de Janeiro, onde durante décadas funcionaram algumas das principais indústrias farmacêuticas no país, como a suíça Roche, a fábrica da Alko do Brasil permanece de pé. A companhia fundada por João Augusto de Oliveira continua ocupando o mesmo endereço e amplia sua atuação no setor da saúde por negócio inusitado: a cannabis.

Agora, os galpões que durante décadas produziram itens para diagnóstico por imagem passam por uma nova transformação. A empresa prepara suas instalações para envasar medicamentos à base de cannabis, etapa que marca o início de um projeto que prevê investimentos de R$ 40 milhões. Desse total, R$ 10 milhões já foram destinados ao registro dos produtos, validações regulatórias, importação e adaptação da fábrica.

Hoje, a Alko registra faturamento anual entre R$ 50 milhões e R$ 60 milhões e projeta crescer cerca de 40%, chegando a R$ 84 milhões, com a nova divisão farmacêutica. Os primeiros produtos, cerca de cinco mil frascos, chegam às grandes redes de farmácias até setembro deste ano. A expectativa é produzir 15 mil frascos anuais em 2027 com uma gama de 32 produtos já registrados no País.

A meta de Juliana tem todo o sentido de ser. O mercado de cannabis medicinal no país é próspero. Já atingiu a marca de R$ 971 milhões em 2025 no Brasil, segundo o relatório da Kaya Mind, e tem um potencial estimado de até R$ 9,5 bilhões, nos próximos anos.

“Acredito que a inovação vai da pesquisa até a coragem de desenvolver esse novo mercado”, diz Juliana Komel Oliveira, co-CEO da empresa ao lado do irmão Augusto Luís Komel de Oliveira.

“Precisamos desmistificar algumas coisas da cannabis e entender que, para o tratamento de pacientes que sofrem, esse produto é relevante.”

Trajetória na área da saúde

Yanukit Raiva/Getty ImagesCultivo de cannabis na estufa

Ao lado do pai, Juliana cresceu acompanhando a rotina da indústria. Enquanto outras crianças conheciam o trabalho dos pais apenas pelas histórias contadas em casa, ela passava pelos laboratórios, observava equipamentos, acompanhava processos produtivos e convivia com um ambiente que ajudou a definir sua profissão.

“Eu cresci dentro da indústria farmacêutica, desde quando nasci. Também sou formada em Farmácia e cresci acompanhando de perto os desafios para a criação de um medicamento no Brasil”, afirma.

Foi o pai quem estruturou a empresa há quase quatro décadas e desenvolveu um contraste digestivo à base de sulfato de bário, utilizado em exames radiológicos. Naquele período, a Alko consolidou sua atuação em produtos voltados ao diagnóstico por imagem, segmento que se tornaria o principal negócio da companhia.

A trajetória da família, porém, mudou de rumo em 2013. Com a morte de João, Juliana e o irmão assumiram a segunda geração da empresa. Augusto passou a responder pela administração. Ela ficou responsável pela área técnica, inovação e assuntos regulatórios, justamente os setores que exigiam uma visão de longo prazo sobre o futuro da indústria farmacêutica.

Foi nesse período que uma ideia antiga voltou a ocupar espaço. Desde os tempos da faculdade, Juliana acompanhava os primeiros estudos científicos envolvendo cannabis medicinal. Enquanto a discussão ainda dava seus primeiros passos no Brasil, ela observava a evolução das pesquisas internacionais e o avanço da regulamentação em outros países.

Quando precisou pensar nos próximos passos da empresa familiar, enxergou naquele segmento uma oportunidade que fazia sentido para sua formação e para a história construída pelo pai.

“Como farmacêutica, eu já vinha estudando a cannabis desde a época da faculdade. Quando nosso pai faleceu e tivemos que interromper a fabricação do sulfato de bário, conversei muito com meu irmão. Ele disse: ‘Vamos. Temos capacidade, conhecimento regulatório, controle de qualidade e área de produção. Vamos entrar nesse mercado com o pé no chão’.” A conversa marcou o início de um projeto que levaria anos para sair do papel.

A lógica da Alko segue a linha de demais farmacêuticas como Eurofarma, Aché, Hypera, Biolab, Teuto e, mais recentemente, União Química. No entanto, a curiosidade da Alko foi adaptar seu negócio para acomodar a fabricação de medicamentos à base de cannabis.

“As grandes farmácias estão olhando para este segmento, mas a Alko quer manter o foco na cannabis para entender a fundo a inovação de produtos que podemos trazer.”

Uma decisão construída ao longo de uma década

Divulgação/Alko do BrasilProcesso de envase de medicamentos da Alko

Ao contrário de muitas empresas que decidiram ingressar rapidamente no mercado de cannabis medicinal, Juliana preferiu construir o projeto gradualmente. Como a Alko é uma empresa de capital próprio, a estratégia sempre foi acompanhar a evolução da regulamentação antes de ampliar os investimentos.

Ela passou anos pesquisando fornecedores internacionais, visitando fabricantes e avaliando padrões farmacêuticos capazes de atender às exigências que pretendia levar para o mercado brasileiro. A busca terminou no Canadá.

Antes de fechar parceria com a MediPharm Labs, Juliana fez questão de conhecer pessoalmente a fábrica da empresa. Queria acompanhar o processo produtivo, entender os controles de qualidade e confirmar que os medicamentos atendiam ao padrão farmacêutico que imaginava para a Alko.

“O paciente precisa estar respaldado por um produto que não vá trazer riscos para ele.”

O rigor regulatório sempre esteve presente na rotina da executiva. Ela lembra que acompanhava auditorias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde criança e que continua recebendo os fiscais da mesma forma que aprendeu dentro da empresa.

“Tenho profunda admiração pela Anvisa e pelos auditores. Mais do que uma instituição, são profissionais que assumem a responsabilidade legal de assinar o registro de um medicamento no Brasil. Sempre recebo essas equipes como uma oportunidade de aprendizado.”

Foi essa visão sobre qualidade, segurança e desenvolvimento farmacêutico que acabou moldando a forma como Juliana decidiu conduzir a entrada da companhia em um mercado que ainda está em construção no país.

A cannabis como ponto de partida

Ao falar sobre a nova divisão, Juliana evita tratar a cannabis apenas como um produto. Na visão dela, a planta representa o início de uma transformação mais ampla dentro da companhia.

“Não estamos entrando no mercado de cannabis apenas para comercializar um produto. Estamos investindo em uma nova fronteira tecnológica.”

A estratégia explica por que a empresa decidiu estruturar uma operação farmacêutica capaz de ir além dos medicamentos à base de cannabis. A intenção é utilizar a estrutura industrial que está sendo preparada no Rio de Janeiro para ampliar, gradualmente, o portfólio de fitoterápicos destinados principalmente ao tratamento de doenças relacionadas ao sistema nervoso central.

“A cannabis vai ser, para nós, a porta de entrada de um projeto promissor para outros fitoterápicos.”

Nesse primeiro momento, ela comercializará produtos fabricados pela canadense MediPharm Labs. Paralelamente, adapta sua fábrica para iniciar o envase nacional dos medicamentos e, posteriormente, avançar para etapas mais complexas da produção. Segundo Juliana, a nacionalização completa da cadeia deve ocorrer de forma gradual, acompanhando o amadurecimento da regulamentação brasileira e da demanda do mercado.

A decisão também reflete a forma como ela enxerga o desenvolvimento da indústria farmacêutica nacional.

“O Brasil tem toda a condição de ser protagonista nesse segmento de cannabis. Temos centros de pesquisa, profissionais extremamente qualificados e uma biodiversidade que pode contribuir para o desenvolvimento de uma cadeia produtiva e de propriedade intelectual.”

Na avaliação da executiva, a evolução do mercado não depende apenas da ampliação da oferta de medicamentos. Ela acredita que o país tem condições de desenvolver pesquisa, tecnologia e inovação próprias, reduzindo, no futuro, a dependência de produtos importados.

Crescimento com os pés no chão

Embora aposte na expansão da nova divisão farmacêutica, Juliana faz questão de ressaltar que o crescimento da Alko continuará seguindo o mesmo ritmo adotado pela empresa desde a sucessão familiar.

Segundo ela, a companhia cresceu de forma orgânica nos últimos anos, preservando a gestão familiar e priorizando investimentos compatíveis com a evolução do mercado.

Essa postura também explica a decisão de iniciar a operação com um lote controlado de medicamentos e ampliar a capacidade produtiva conforme a demanda aumente.

“Somos uma empresa de capital próprio. Gostamos de trabalhar com números que nos deixem em uma posição confortável e permitam um crescimento sustentável.”

A executiva acredita que, no longo prazo, a divisão farmacêutica poderá até superar o faturamento obtido atualmente com produtos para diagnóstico por imagem. Ainda assim, ela não vê as duas operações como concorrentes dentro da companhia. Pelo contrário.

Enquanto o segmento de diagnóstico continua acompanhando a evolução tecnológica dos exames médicos, a nova frente farmacêutica amplia o campo de atuação da empresa em um mercado que ainda está sendo construído.

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