Em um trecho da Estrada dos Bandeirantes, na zona oeste do Rio de Janeiro, onde durante décadas funcionaram algumas das principais indústrias farmacêuticas no país, como a suíça Roche, a fábrica da Alko do Brasil permanece de pé. A companhia fundada por João Augusto de Oliveira continua ocupando o mesmo endereço e amplia sua atuação no setor da saúde por negócio inusitado: a cannabis.
Agora, os galpões que durante décadas produziram itens para diagnóstico por imagem passam por uma nova transformação. A empresa prepara suas instalações para envasar medicamentos à base de cannabis, etapa que marca o início de um projeto que prevê investimentos de R$ 40 milhões. Desse total, R$ 10 milhões já foram destinados ao registro dos produtos, validações regulatórias, importação e adaptação da fábrica.
Hoje, a Alko registra faturamento anual entre R$ 50 milhões e R$ 60 milhões e projeta crescer cerca de 40%, chegando a R$ 84 milhões, com a nova divisão farmacêutica. Os primeiros produtos, cerca de cinco mil frascos, chegam às grandes redes de farmácias até setembro deste ano. A expectativa é produzir 15 mil frascos anuais em 2027 com uma gama de 32 produtos já registrados no País.
A meta de Juliana tem todo o sentido de ser. O mercado de cannabis medicinal no país é próspero. Já atingiu a marca de R$ 971 milhões em 2025 no Brasil, segundo o relatório da Kaya Mind, e tem um potencial estimado de até R$ 9,5 bilhões, nos próximos anos.
“Acredito que a inovação vai da pesquisa até a coragem de desenvolver esse novo mercado”, diz Juliana Komel Oliveira, co-CEO da empresa ao lado do irmão Augusto Luís Komel de Oliveira.
“Precisamos desmistificar algumas coisas da cannabis e entender que, para o tratamento de pacientes que sofrem, esse produto é relevante.”
Trajetória na área da saúde

Ao lado do pai, Juliana cresceu acompanhando a rotina da indústria. Enquanto outras crianças conheciam o trabalho dos pais apenas pelas histórias contadas em casa, ela passava pelos laboratórios, observava equipamentos, acompanhava processos produtivos e convivia com um ambiente que ajudou a definir sua profissão.
“Eu cresci dentro da indústria farmacêutica, desde quando nasci. Também sou formada em Farmácia e cresci acompanhando de perto os desafios para a criação de um medicamento no Brasil”, afirma.
Foi o pai quem estruturou a empresa há quase quatro décadas e desenvolveu um contraste digestivo à base de sulfato de bário, utilizado em exames radiológicos. Naquele período, a Alko consolidou sua atuação em produtos voltados ao diagnóstico por imagem, segmento que se tornaria o principal negócio da companhia.
A trajetória da família, porém, mudou de rumo em 2013. Com a morte de João, Juliana e o irmão assumiram a segunda geração da empresa. Augusto passou a responder pela administração. Ela ficou responsável pela área técnica, inovação e assuntos regulatórios, justamente os setores que exigiam uma visão de longo prazo sobre o futuro da indústria farmacêutica.
Foi nesse período que uma ideia antiga voltou a ocupar espaço. Desde os tempos da faculdade, Juliana acompanhava os primeiros estudos científicos envolvendo cannabis medicinal. Enquanto a discussão ainda dava seus primeiros passos no Brasil, ela observava a evolução das pesquisas internacionais e o avanço da regulamentação em outros países.
Quando precisou pensar nos próximos passos da empresa familiar, enxergou naquele segmento uma oportunidade que fazia sentido para sua formação e para a história construída pelo pai.
“Como farmacêutica, eu já vinha estudando a cannabis desde a época da faculdade. Quando nosso pai faleceu e tivemos que interromper a fabricação do sulfato de bário, conversei muito com meu irmão. Ele disse: ‘Vamos. Temos capacidade, conhecimento regulatório, controle de qualidade e área de produção. Vamos entrar nesse mercado com o pé no chão’.” A conversa marcou o início de um projeto que levaria anos para sair do papel.
A lógica da Alko segue a linha de demais farmacêuticas como Eurofarma, Aché, Hypera, Biolab, Teuto e, mais recentemente, União Química. No entanto, a curiosidade da Alko foi adaptar seu negócio para acomodar a fabricação de medicamentos à base de cannabis.
“As grandes farmácias estão olhando para este segmento, mas a Alko quer manter o foco na cannabis para entender a fundo a inovação de produtos que podemos trazer.”
Uma decisão construída ao longo de uma década

Ao contrário de muitas empresas que decidiram ingressar rapidamente no mercado de cannabis medicinal, Juliana preferiu construir o projeto gradualmente. Como a Alko é uma empresa de capital próprio, a estratégia sempre foi acompanhar a evolução da regulamentação antes de ampliar os investimentos.
Ela passou anos pesquisando fornecedores internacionais, visitando fabricantes e avaliando padrões farmacêuticos capazes de atender às exigências que pretendia levar para o mercado brasileiro. A busca terminou no Canadá.
Antes de fechar parceria com a MediPharm Labs, Juliana fez questão de conhecer pessoalmente a fábrica da empresa. Queria acompanhar o processo produtivo, entender os controles de qualidade e confirmar que os medicamentos atendiam ao padrão farmacêutico que imaginava para a Alko.
“O paciente precisa estar respaldado por um produto que não vá trazer riscos para ele.”
O rigor regulatório sempre esteve presente na rotina da executiva. Ela lembra que acompanhava auditorias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde criança e que continua recebendo os fiscais da mesma forma que aprendeu dentro da empresa.
“Tenho profunda admiração pela Anvisa e pelos auditores. Mais do que uma instituição, são profissionais que assumem a responsabilidade legal de assinar o registro de um medicamento no Brasil. Sempre recebo essas equipes como uma oportunidade de aprendizado.”
Foi essa visão sobre qualidade, segurança e desenvolvimento farmacêutico que acabou moldando a forma como Juliana decidiu conduzir a entrada da companhia em um mercado que ainda está em construção no país.
A cannabis como ponto de partida
Ao falar sobre a nova divisão, Juliana evita tratar a cannabis apenas como um produto. Na visão dela, a planta representa o início de uma transformação mais ampla dentro da companhia.
“Não estamos entrando no mercado de cannabis apenas para comercializar um produto. Estamos investindo em uma nova fronteira tecnológica.”
A estratégia explica por que a empresa decidiu estruturar uma operação farmacêutica capaz de ir além dos medicamentos à base de cannabis. A intenção é utilizar a estrutura industrial que está sendo preparada no Rio de Janeiro para ampliar, gradualmente, o portfólio de fitoterápicos destinados principalmente ao tratamento de doenças relacionadas ao sistema nervoso central.
“A cannabis vai ser, para nós, a porta de entrada de um projeto promissor para outros fitoterápicos.”
Nesse primeiro momento, ela comercializará produtos fabricados pela canadense MediPharm Labs. Paralelamente, adapta sua fábrica para iniciar o envase nacional dos medicamentos e, posteriormente, avançar para etapas mais complexas da produção. Segundo Juliana, a nacionalização completa da cadeia deve ocorrer de forma gradual, acompanhando o amadurecimento da regulamentação brasileira e da demanda do mercado.
A decisão também reflete a forma como ela enxerga o desenvolvimento da indústria farmacêutica nacional.
“O Brasil tem toda a condição de ser protagonista nesse segmento de cannabis. Temos centros de pesquisa, profissionais extremamente qualificados e uma biodiversidade que pode contribuir para o desenvolvimento de uma cadeia produtiva e de propriedade intelectual.”
Na avaliação da executiva, a evolução do mercado não depende apenas da ampliação da oferta de medicamentos. Ela acredita que o país tem condições de desenvolver pesquisa, tecnologia e inovação próprias, reduzindo, no futuro, a dependência de produtos importados.
Crescimento com os pés no chão
Embora aposte na expansão da nova divisão farmacêutica, Juliana faz questão de ressaltar que o crescimento da Alko continuará seguindo o mesmo ritmo adotado pela empresa desde a sucessão familiar.
Segundo ela, a companhia cresceu de forma orgânica nos últimos anos, preservando a gestão familiar e priorizando investimentos compatíveis com a evolução do mercado.
Essa postura também explica a decisão de iniciar a operação com um lote controlado de medicamentos e ampliar a capacidade produtiva conforme a demanda aumente.
“Somos uma empresa de capital próprio. Gostamos de trabalhar com números que nos deixem em uma posição confortável e permitam um crescimento sustentável.”
A executiva acredita que, no longo prazo, a divisão farmacêutica poderá até superar o faturamento obtido atualmente com produtos para diagnóstico por imagem. Ainda assim, ela não vê as duas operações como concorrentes dentro da companhia. Pelo contrário.
Enquanto o segmento de diagnóstico continua acompanhando a evolução tecnológica dos exames médicos, a nova frente farmacêutica amplia o campo de atuação da empresa em um mercado que ainda está sendo construído.