O ano de 2026 tem se mostrado bastante desafiador para a geopolítica e o comércio internacional. Tivemos eventos importantes, como a continuação da Guerra na Ucrânia, o conflito no Irã com o fechamento do Estreito de Ormuz, as medidas de salvaguarda para a carne bovina na China — cujas cotas terminam oficialmente em outubro –, o tarifaço dos Estados Unidos, o embargo da União Europeia a algumas cadeias devido à proibição do uso de antimicrobianos, a chegada do Super El Niño e a crise global de fertilizantes e energia.
Esses são alguns dos acontecimentos que causaram reveses ao agro brasileiro. Para enfrentarmos esses e futuros cenários desfavoráveis, devemos agir com estratégia: diversificar nossa pauta exportadora agregando valor e ampliar nossos parceiros comerciais, reduzindo riscos. O planejamento de médio e longo prazo para definir onde queremos chegar é essencial para alcançarmos nossos objetivos.
O desafio do novo cenário global
A política internacional vem sendo marcada pelo enfraquecimento dos órgãos multilaterais, pelo avanço do protecionismo e pela eclosão de guerras tarifárias. Esses fatores desestabilizam o comércio global e exigem reflexão estratégica sobre como tais características, somadas aos eventos desafiadores atuais, podem afetar o comércio internacional do país.
Para mitigar esses efeitos adversos, é fundamental agir estrategicamente. Uma das saídas é celebrar cada vez mais acordos de livre comércio, garantindo abertura de mercados, acesso simplificado e tarifas preferenciais para os nossos produtos.
As oportunidades nos acordos com a UE e a EFTA
Recentemente, dois importantes acordos celebrados pelo Mercosul entraram em vigor: o Acordo com a União Europeia e o Acordo com a Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA).
O acordo com a União Europeia trouxe grandes inovações e poderá servir de modelo para negociações futuras. Além disso, prevê a implementação das medidas do chamado Pacote de Brasília, com mecanismos de reequilíbrio que permitem tratar situações em que ações posteriores de uma das partes afetem significativamente o equilíbrio comercial bilateral, garantindo acompanhamento contínuo e diálogo constante para a resolução de eventuais conflitos.
O mercado europeu representa aproximadamente 452 milhões de pessoas, com PIB per capita médio de US$ 62.930 entre os países-membros — um grande mercado consumidor com alto poder de compra.
O outro acordo firmado, com a EFTA, embora englobe um mercado menor (de apenas 15,18 milhões de pessoas), abrange países com PIB per capita médio de US$ 106.786, o que demonstra um poder de compra expressivo.
Esses dois blocos evidenciam o potencial para a venda de produtos com valor agregado e para a obtenção de um tíquete médio elevado, com a União Europeia oferecendo ganhos de escala. Para aproveitar essas oportunidades, precisamos intensificar nossa presença nesses mercados, vender produtos agropecuários de alto valor e promover itens mais beneficiados do setor. É preciso diversificar a pauta exportadora, compreender as tendências de consumo, comprovar a sanidade dos nossos alimentos e combater qualquer manifestação de protecionismo nessas regiões.
Abertura de frentes de negociação na Ásia e nas Américas
Ainda temos acordos em negociação, e o atual cenário de guerra comercial e de tarifaço norte-americano mostra-se propício para negociar e fechar novas parcerias. Mantemos tratativas relevantes e consultas públicas abertas com países como Japão e Coreia do Sul, que podem representar uma alternativa para a carne bovina brasileira após as medidas de salvaguarda chinesas, além de constituírem mercados importantes para outros setores. É possível incluir nessas pautas o combustível sustentável de aviação (SAF), o etanol, frutas, produtos industrializados e outros itens beneficiados.
Também há negociações em andamento com a Índia e o Vietnã — dois países com grandes contingentes populacionais –, bem como com o Canadá, que traria maior segurança para o abastecimento de fertilizantes. Ademais, avançamos no diálogo com a Indonésia, país com o qual travamos uma importante disputa na OMC sobre a carne de frango.
Embora o Brasil tenha saído vitorioso, surgiram novos impasses que impediram o cumprimento integral da decisão pela outra parte. A Indonésia possui hoje uma população maior que a brasileira, havendo relevante complementaridade entre as pautas exportadoras: o Brasil exporta farelos, açúcares, tabaco e petróleo, enquanto importa óleos vegetais, carvão, calçados e borracha.
Por fim, os Emirados Árabes Unidos figuram como outro destino estratégico para produtos de alto valor agregado. O país precisa garantir sua segurança alimentar, e o Brasil tem capacidade para contribuir diretamente nesse objetivo.
Do celeiro ao supermercado do mundo
Diante do cenário atual, é indispensável que o Brasil trace uma estratégia clara e estabeleça metas bem definidas para os próximos 5, 10 ou 15 anos. Essa visão deve contemplar a diversificação de destinos, a agregação de valor à pauta exportadora do agronegócio e a celebração de acordos comerciais com países estratégicos por meio de uma política externa pragmática.
Precisamos deixar de ser apenas o celeiro do mundo para nos tornarmos o supermercado de diversos produtos. Potencial para isso, o Brasil e os produtores brasileiros têm de sobra.
*Claudia Costa é advogada, com LL.M. em direito internacional e produtora rural. Atualmente é coordenadora do Comitê de Relações Internacionais e diretora da Sociedade Rural Brasileira. Possui experiência em comércio internacional e órgãos multilaterais.
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