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A Startup Argentina Que Leva Tecnologia Genômica À Pecuária e Está de Olho no Brasil

Conheça a Bulltrack, dos irmãos Scanlan, que já com um pé no Uruguai e planos de expansão por aqui e Estados Unidos

7 min

Um velho ditado do campo afirma que “é o olho do dono que engorda o gado”. Certamente, durante muitas décadas e até séculos foi assim. Mas parte desse perfil produtivo começa a mudar com a incorporação da informática, da genômica, da inteligência de dados e da digitalização dos processos. Todos os anos, milhões de vacas na Argentina precisam ser cobertas para iniciar um novo ciclo de reprodução na pecuária. Por isso, os produtores precisam comprar machos para “entourar” essas fêmeas e, quanto melhor for a qualidade do sêmen fornecido pelos touros, melhor será o resultado após o nascimento dos bezerros.

A questão é que hoje esse processo de seleção dos animais continua sendo feito, em sua grande maioria, “a olho”, com a experiência acumulada ao longo dos anos e o conhecimento dos criadores, mas sem dados científicos que garantam um resultado positivo. Foi justamente nesse espaço entre a certeza e o acaso que a Bulltrack decidiu se posicionar e já está operando. Trata-se de uma startup 100% argentina, um empreendimento familiar localizado em Carmen de Areco, na província de Buenos Aires.

“O projeto surgiu depois que meu irmão Benjamín, que é criador e produtor de Aberdeen Angus e já vinha utilizando genética para selecionar touros, comentou comigo que os estudos genéticos fornecem muita informação técnica, mas ela é difícil de interpretar pelo produtor. Como trabalho com tecnologia, startups e desenvolvimento de aplicativos, ele me convenceu a levar esse projeto adiante”, diz Santiago Scanlan, gerente de Operações da Bulltrack.

O valor da genética

Trata-se de uma plataforma que processa informações genômicas e as transforma em rankings, que depois permitem comparar animais e, assim, ajudam os pecuaristas a tomar decisões de produção. Já não é necessário confiar apenas no olho experiente ou avaliar se determinado touro ou vaca conquistou várias rosetas em exposições. Tudo começa com um tufo de pelos do animal, enviado para análise genômica por meio da tecnologia Inherit, da Zoetis, companhia líder com sede nos Estados Unidos e originada a partir da Pfizer, que fornece todas as informações genômicas e técnicas necessárias para melhorar a reprodução do gado.

“O que a Bulltrack faz é analisar os dados brutos que recebemos, elaborar rankings e disponibilizá-los em uma aplicação web, que pode ser consultada pelo computador ou pelo celular”, explica Scanlan.

É a primeira startup do país a atuar no processamento do genoma bovino e, segundo Scanlan, também seria pioneira em nível mundial. Para isso, a Bulltrack utiliza software próprio e análise de dados com inteligência artificial. Além disso, desenvolveu um catálogo de touros genotipados e outro catálogo de sêmen, que podem ser consultados gratuitamente pelos produtores. O pagamento ocorre apenas quando o produtor deseja fazer uma análise genética.

“Os pecuaristas têm muitas vacas que precisam emprenhar todos os anos, mas a questão é com qual touro você emprenha suas vacas, e a genética desse touro pode melhorar a produção”, afirma Scanlan.

Bulltrack_DivulgGado apartado para avaliação

Efeito multiplicador

A empresa alerta que uma vaca ruim que entra no rebanho produzirá abaixo da média durante toda a sua vida útil. Portanto, um “erro” nesse ponto dura pelo menos cinco anos, com o custo econômico que isso representa. Ao mesmo tempo, a genética de um touro se multiplica por 99, ao cobrir 33 vacas por ano durante três anos de serviço. Com isso, a genética desse animal, boa ou ruim, repercute sobre toneladas de carne.

A Bulltrack analisa 24 características produtivas, e todas têm impacto sobre a novilha e sobre os futuros bezerros. Alguns parâmetros são a eficiência de conversão, ou seja, quanto o animal ganha de peso ao comer, a capacidade de armazenar gordura, a área de olho de lombo que produzirá, o marbling, ou marmoreio, do animal, muito valorizado e bem remunerado nas exportações, o tempo de gestação, a docilidade do animal, entre outros.

Um estudo elaborado pela Bulltrack determinou que o pilar mais relevante não são os quilos, mas a eficiência de conversão, já que uma vaca eficiente “libera pasto”. Da mesma forma, um novilho consome uma quantidade menor de ração no confinamento. Assim, uma boa escolha gera retorno ao longo de cinco anos consecutivos, que correspondem à vida útil do animal, com efeito acumulativo à medida que as crias são incorporadas.

O estudo indica que, para cada 10% de melhora genética em uma matriz, medida por meio do ranking, é possível ganhar US$ 57,60 (R$ 286) por vaca por ano. Assim, no caso de uma novilha, estima-se que “o valor de cada matriz escolhida corretamente equivale a US$ 206 (R$ 1 mil) por animal, diante de um custo de US$ 49 (R$ 244), que é o valor do teste genético”, realizado apenas uma vez. Ou seja, esse custo inicial se paga quatro vezes.

No caso do touro, a conta é muito maior, uma vez que os US$ 49 (R$ 244) do teste são multiplicados por 50 para chegar a um “ganho” por animal de US$ 2.460 (R$ 12,2 mil), em razão da melhora genética.

Bulltrack_DivulgGado angus, que também é criado no Brasil, é alvo da Bulltrack

Números promissores

O projeto foi lançado em fevereiro deste ano com um investimento inicial de apenas US$ 5.000 (R$ 24,8 mil) para a compra do domínio, servidores e algumas outras tecnologias, embora o investimento mais relevante, “e difícil de quantificar”, tenha sido em horas de trabalho dos quatro especialistas que lideram o projeto.

Benjamín Scanlan lidera a Bulltrack e é responsável pela área produtiva e genética. Seu irmão Santiago responde pelas funções operativas. O primo John Scanlan é engenheiro agrônomo e geneticista, enquanto Adolfo Custidiano, cunhado de Santiago, é arquiteto de software.

A Bulltrack começou a crescer rapidamente graças às indicações boca a boca e à boa receptividade dos produtores. Nos primeiros seis meses de operação, entre fevereiro e agosto, já havia faturado US$ 170.000 (R$ 845 mil). Hoje, possui 5.000 genomas carregados no banco de dados, pertencentes a 55 produtores, com um rebanho potencial de 50.000 bovinos.

“Projetamos encerrar o ano com um faturamento próximo de US$ 300.000 (R$ 1,5 milhão) e, para o próximo ano, pretendemos chegar a US$ 800.000 (R$ 4 milhões)”, afirma Santiago Scanlan, com otimismo, em conversa com a Forbes Argentina.

Um dado importante para o crescimento do negócio é que a Bulltrack é uma tecnologia que pode ser utilizada tanto por produtores muito pequenos, com apenas 100 animais, quanto por rebanhos muito maiores, como é o caso do frigorífico no Uruguai, o Las Piedras, onde essa tecnologia já é utilizada e que possui 10.000 animais.

Bulltrack, Bulltrack

Com a agenda de 2027 já em mãos, a Bulltrack avalia partir para uma rodada de investimentos de venture capital, com o objetivo de internacionalizar o negócio, chegando aos Estados Unidos e ao Brasil.

Por enquanto, as análises genéticas são direcionadas à família Bos taurus de bovinos, que inclui, entre outras, raças britânicas como Aberdeen Angus, Shorthorn, Hereford e Holstein. No entanto, não está descartada uma futura ampliação também para animais Bos indicus, os zebuínos, como a raça Brahman, entre outras.

Publicada originalmente em Forbes Argentina

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