No México, o fim da colheita do milho coincide com o Día de Muertos. No Equador, uma bebida de milho e frutas é preparada para homenagear os antepassados. Na Guatemala, um prato com dezenas de ingredientes chega às mesas; no Peru e na Bolívia, pães em formatos humanos são oferecidos aos mortos. No Brasil, o Dia de Finados, em 2 de novembro, movimenta o mercado de flores. Os costumes variam, mas mantêm relações com a agricultura e a produção de alimentos.
A conexão é antiga. Em diferentes regiões da América Latina, práticas indígenas se combinaram com o calendário católico de Todos os Santos, em 1º de novembro, e dos Fiéis Defuntos, no dia 2. Hoje, colheitas, receitas transmitidas entre gerações, padarias, feiras e floriculturas participam das celebrações. Os seis países mostram diferentes relações entre memória, alimentação e economia.
México: milho, flores e bilhões em negócios

No México, as comemorações devem movimentar 53 bilhões de pesos mexicanos (cerca de US$ 2,94 bilhões) em 2026, 7% acima de 2025, segundo a Confederação de Câmaras Nacionais de Comércio, Serviços e Turismo (Concanaco-Servytur). A estimativa cobre de 25 de outubro a 2 de novembro e inclui alimentos, flores, comércio, hospedagem e transporte, não apenas a agricultura.
“Por trás de cada oferenda há uma história familiar, mas também está o trabalho de quem cultiva as flores, prepara o pão e vende nos mercados”, afirmou Octavio de la Torre de Stéffano, presidente da entidade.
Segundo a Unesco, a festa indígena dos mortos ocorre no encerramento do ciclo anual do milho. Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2008, após proclamação em 2003, a tradição reúne práticas pré-hispânicas e católicas. Famílias preparam tortillas, tamales, atole, frutas, chocolate e pan de muerto para altares dedicados aos parentes falecidos. Em algumas comunidades, acredita-se que os antepassados possam favorecer as colheitas.
A flor mais conhecida é o cempasúchil (Tagetes erecta), usado para decorar túmulos e indicar simbolicamente o caminho das almas. Em outubro, o governo da Cidade do México anunciou para este 2 de novembro a produção recorde de 10 milhões de plantas, 53,8% acima de 2025, cultivadas por 597 produtores de Xochimilco, região que preserva as chinampas, áreas agrícolas construídas em ambientes lacustres.
Guatemala: o fiambre e suas dezenas de ingredientes

Na Guatemala, o Dia de Todos os Santos, em 1º de novembro, tem um prato próprio: o fiambre. Servido frio, reúne hortaliças, conservas, embutidos, carnes e queijos. Algumas receitas utilizam mais de 40 ingredientes, que mudam conforme a região e a família. Beterraba, repolho, cenoura, vagem, palmito e pacaya, uma flor comestível, estão entre os produtos utilizados.
O preparo começa dias antes. O Ministério da Cultura e dos Esportes declarou em 2019 os conhecimentos e processos tradicionais de preparo do fiambre Patrimônio Cultural Intangível da Nação. A pasta informa que a produção também gera renda para famílias e pequenos negócios. O prato pode ser consumido em casa ou durante encontros nos cemitérios.
Peru: pães andinos e feiras de alimentos

No Peru, as t’anta wawas, pães moldados como bebês, animais e outras figuras, integram as homenagens de Todos os Santos e Finados, principalmente nas regiões andinas. As receitas e decorações mudam de uma comunidade para outra e podem ser doces ou salgadas. Milho, carnes e preparações regionais também aparecem nas refeições e oferendas familiares.
O Ministério da Cultura peruano considera os pães uma tradição associada à memória e à continuidade das famílias. Em novembro de 2025, o Museu Nacional da Cultura Peruana reuniu padeiros e artesãos de Huancavelica, Apurímac, Junín, Ayacucho, Puno e Lima para demonstrações, degustações e vendas. A tradição impulsiona a panificação artesanal.
Equador: milho e frutas na colada morada

No Equador, famílias levam comida aos cemitérios em 2 de novembro. Em comunidades andinas, os pratos incluem grãos, batatas e outros produtos locais. A receita mais conhecida é a colada morada, bebida espessa feita com farinha de milho escuro, frutas e especiarias. Pode levar mortiño, amora, abacaxi, naranjilla, canela e cravo. Segundo o Ministério do Turismo, algumas versões somam mais de 20 ingredientes.
“Somos pessoas que recordam aromas e sabores da família, especialmente aqueles preparados pelas mães e avós”, afirmou o chef equatoriano Carlos Gallardo.
A bebida acompanha as guaguas de pan, pães em formato de crianças, feitos sobretudo com farinha de trigo e, em algumas regiões, também de milho. Goiaba, figo e chocolate estão entre os recheios. A tradição amplia a produção de padarias e o comércio de ingredientes. O calendário agrícola também conta: o mortiño, fruto de regiões altas dos Andes, costuma ser colhido em setembro e outubro.
Bolívia: pães, frutas e cana-de-açúcar

Na Bolívia, as homenagens de Todos Santos começam ao meio-dia de 1º de novembro, quando, segundo a tradição, as almas visitam as famílias. Os altares recebem pratos preferidos dos falecidos, frutas, doces, flores e bebidas. No dia seguinte, ocorrem as despedidas nos cemitérios.
As t’antawawas são pães em formas humanas. Outras massas representam escadas e animais. As escadas simbolizam o caminho das almas; a cana-de-açúcar, um apoio na viagem, segundo explicações tradicionais registradas pela imprensa boliviana. Folhas de coca e alimentos como o milho também aparecem em algumas oferendas. A produção mobiliza panificadores e vendedores, mas depende dos preços da farinha, do açúcar e das gorduras. Em 2025, comerciantes relataram aumento desses custos na preparação da festa.
Brasil: Finados e o comércio de flores

No Brasil, as visitas aos cemitérios e as missas são as práticas mais comuns. A ligação comercial com a agricultura está principalmente nas flores e plantas ornamentais. O Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor) projeta crescimento de 5,2% nas vendas associadas ao Finados de 2026, ante 2025. Segundo o diretor Renato Opitz, a data responde por cerca de 8% das vendas anuais do setor. Crisântemos, kalanchoes, antúrios, violetas e orquídeas estão entre as plantas procuradas.
Na Ceagesp, em São Paulo, a previsão para as três feiras de flores de 22 a 30 de outubro, destinada a Finados, é comercializar 465.774 unidades, com receita de R$ 8,96 milhões. No período equivalente de 2025, foram 382.231 unidades e R$ 7,43 milhões. As orquídeas lideraram em valor naquele ano, com R$ 1,1 milhão, seguidas, entre os produtos destacados, pelos crisântemos, com cerca de R$ 500 mil.
“É um dos momentos de maior dinamismo e relevância econômica para o setor”, afirmou João Gabriel Alves da Costa, analista de economia da Ceagesp. Os atacadistas antecipam pedidos, enquanto o consumidor costuma comprar perto do feriado. Em Ribeirão Preto (SP), a Ceagesp prevê alta de 10% a 15% nas vendas de outubro, com cerca de 10 toneladas de flores.
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