O benefício de academia costumava ter um endereço. Agora, a TotalPass quer que ele tenha um passaporte. A empresa começou a permitir que usuários cadastrados no Brasil e no México utilizem o aplicativo para acessar unidades da Smart Fit em outros países da América Latina. A expansão leva o benefício a mais de 2,1 mil academias em 14 países e representa um passo além da simples ampliação da rede: a TotalPass tenta transformar um serviço originalmente ligado ao local de trabalho em uma plataforma regional de saúde e bem-estar.
A mudança acompanha uma transformação no próprio mercado de trabalho. Funcionários estão menos presos a uma única cidade, enquanto empresas operam cada vez mais com equipes distribuídas, modelos híbridos e deslocamentos frequentes entre países. Para os fornecedores de benefícios corporativos, isso cria um problema: serviços desenhados para uma geografia específica começam a parecer menos adequados para uma força de trabalho que se move. A TotalPass aposta que a solução é fazer o benefício acompanhar o funcionário.
Um mercado maior do que o escritório
O movimento começou como um projeto-piloto no Chile e foi expandido para Uruguai, Paraguai, Argentina, Colômbia, Peru, Panamá, Costa Rica, Honduras e Equador.
Na prática, um usuário brasileiro que viaje a Buenos Aires ou Santiago poderá utilizar o aplicativo para entrar em unidades participantes da Smart Fit nesses mercados, desde que tenha um plano TP2 ou superior. O mesmo princípio vale para usuários mexicanos.
A operação preserva a lógica de acesso já conhecida pelos clientes: o usuário faz o cadastro no país de origem e utiliza o aplicativo nas academias participantes, de acordo com as regras de seu plano. A implementação será gradual, à medida que a integração operacional avance em cada mercado.
Por trás da expansão existe uma vantagem que a TotalPass já possui: a escala da rede Smart Fit. A plataforma está presente diretamente no Brasil e no México e afirma oferecer mais de 43 mil academias e estúdios nos dois países. A rede da Smart Fit, por sua vez, permite que o benefício ultrapasse a fronteira onde ele foi originalmente contratado.
Isso muda a proposta de valor para as empresas. Um benefício que pode ser utilizado em diferentes países é potencialmente mais útil para uma companhia multinacional do que uma solução restrita à cidade ou ao país de contratação.
O crescimento que abriu espaço para a expansão
A internacionalização também não acontece no vácuo. A TotalPass chega a essa nova fase depois de acelerar sua presença no mercado brasileiro.
Segundo dados da Sensor Tower, os downloads do aplicativo cresceram 53,3% em agosto de 2026, em relação ao mesmo mês de 2025. O número de usuários ativos mensais aumentou 102,78% no período, de acordo com os dados apresentados pela companhia.
A TotalPass afirma ainda que seu aplicativo é, desde janeiro de 2026, o mais baixado no Brasil entre os aplicativos de benefícios voltados a bem-estar.
A escala é importante porque benefícios corporativos são, em essência, negócios de plataforma. O valor do serviço não está apenas no aplicativo, mas na combinação entre empresas contratantes, usuários e uma rede suficientemente ampla de estabelecimentos.
Quanto maior a rede, menor a chance de o funcionário encontrar uma situação em que o benefício não seja útil. E quanto mais útil ele é para o funcionário, maior tende a ser o valor percebido pela empresa que paga por ele.
A expansão internacional leva essa lógica a um novo patamar. “O passo agora é construir uma experiência regional, que permita aos usuários manter seus hábitos de saúde e bem-estar mesmo quando estão fora do país em que foram cadastrados”, afirma Felipe Calbucci, CEO Latam da TotalPass.
A geografia virou parte do produto
A estratégia também revela uma mudança interessante na definição de concorrência no setor de benefícios. Durante muito tempo, o diferencial estava principalmente no tamanho da rede: quantas academias, modalidades e serviços estavam disponíveis. Agora, a geografia da rede passa a ser tão importante quanto sua extensão.
Para um funcionário que nunca deixa sua cidade, ter milhares de academias disponíveis pode ser suficiente. Para alguém que viaja frequentemente, a pergunta é outra: o benefício continua funcionando quando eu cruzo a fronteira?
É aí que a TotalPass tenta criar diferenciação. A empresa não está apenas adicionando academias ao catálogo. Está tentando fazer com que diferentes mercados funcionem como partes de uma mesma experiência. A presença da Smart Fit em diversos países facilita essa estratégia porque reduz a necessidade de construir, do zero, uma rede internacional de parceiros.
O projeto também se encaixa na expansão mais ampla do conceito de bem-estar corporativo. A TotalPass já oferece, além do acesso a academias, mais de 250 modalidades e serviços ligados a saúde mental e nutrição, incluindo meditação, psicólogos para consultas online e atendimento com nutricionistas.
O próximo desafio é transformar escala em fidelidade
O crescimento rápido traz, porém, uma questão menos óbvia: crescer não basta; é preciso fazer com que o benefício seja efetivamente utilizado.
Para as empresas, um benefício pouco usado pode representar custo sem retorno perceptível. Para a TotalPass, aumentar a frequência de utilização é uma maneira de tornar o produto mais indispensável e, consequentemente, mais difícil de substituir.
A expansão internacional pode ajudar nesse ponto. Um funcionário que utiliza o benefício em sua rotina no Brasil e também durante uma viagem ao exterior passa a incorporá-lo a diferentes momentos da vida profissional.
É uma mudança pequena na experiência do usuário, mas potencialmente importante para a economia do negócio. O mercado de benefícios corporativos está deixando de ser apenas uma disputa por cobertura local. À medida que as empresas se tornam mais distribuídas e os trabalhadores mais móveis, a capacidade de um benefício atravessar fronteiras pode se tornar parte do próprio produto.
A TotalPass está apostando que a academia do futuro não será apenas aquela mais próxima de casa ou do escritório. Será aquela em que o funcionário conseguir entrar, mesmo quando estiver a milhares de quilômetros deles.