Uma empresa com US$ 10 mi de receita e 36 meses para captar investimento

Luis Alvarez/Getty Images
Luis Alvarez/Getty Images

É preciso coragem, ousadia, determinação e uma boa ideia para construir uma empresa e ir contra o sistema

Quatorze anos atrás, o obstinado Joseph Heller decidiu passar um tempo na China para analisar o mercado local e verificar in loco quais negócios disruptivos existentes no país asiáticos poderiam servir de inspiração para que ele criasse a sua própria startup de impacto. Com base na experiência que acabou coletando em negócios manufatureiros de pequenos empresários chineses, Heller criou uma startup chamada The Studio, cujo modelo de negócios consistia em uma plataforma capaz de conectar, de uma forma totalmente digital, estes pequenos empreendedores aos respectivos fabricantes. A grande sacada de Heller foi criar um canal que tornaria mais fácil para as pequenas empresas encomendarem produtos personalizados de microfábricas na China, dando-lhes acesso às mesmas oportunidades que as grandes marcas, mas em lotes muito menores.

Em entrevista concedida ao “Techcrunch”, Joseph Heller contou como foi construir sua empresa do zero e detalhando a odisseia que travou para conseguir investimento. Dez anos depois do empreendedor aportar na China, sua startup já lucrava US$ 10 milhões e contava com 100 colaboradores, ou seja, estava consolidada. No entanto, quando decidiu retornar ao mercado norte-americano para tentar captar investimento, o empreendedor percebeu que, sem contatos influentes, o Vale do Silício não era assim tão receptivo com novatos de fora do ‘clubinho’, nem mesmo com aqueles que já apresentavam resultados expressivos.

Mesmo sendo extremamente bem-sucedido já em um primeiro momento, não foi nada fácil para Heller sair em busca do financiamento do projeto. Foi uma luta inglória para conseguir reuniões. Embora Heller seja negro e reconheça que há preconceito racial no ecossistema de investimentos, durante a entrevista, ele não atribuiu as dificuldades apenas a pessoas negras, e sim a todos os indivíduos não brancos.

E, infelizmente, essa dificuldade não é exclusividade da economia norte-americana. Como mostrou esta matéria publicada em julho pela Forbes Brasil, afrodescendentes têm crédito três vezes mais negados por instituições financeiras.

A matéria trata do conteúdo de uma live (https://youtu.be/CGGD7aLig1U) transmitida pelo Instagram e conduzida pelo CEO e publisher da Forbes, Antônio Camarotti, com Nina Silva, CEO do Movimento Black Money, integrante do time da Mulheres mais Poderosas do Brasil da Forbes e eleita pela ONU como uma das pessoas afrodescendentes com menos de 40 anos mais influentes do mundo.

A executiva lembra que afrodescendentes são 56% da população autodeclarada, representam 67% dos desempregados e maioria carcerária. E que quando empreendem, no nano e no microempreendimento, nem 29% consegue empregar outra pessoa em seu próprio negócio e tem crédito três vezes mais negado por instituições financeiras. Nina explica que, no Brasil e em boa parte dos países do mundo, não falta apenas representatividade, falta inclusão, e foi nesse contexto que Heller sofreu para conseguir o dinheiro necessário para alavancar ainda mais o negócio.

Demorou, mas finalmente, depois de 18 meses de intermináveis reuniões com dezenas de investidores, finalmente o financiamento foi obtido por Heller: US$ 11 milhões da Ignition Partners. De lá para cá, mesmo com a pandemia, o negócio não para de crescer e hoje já atinge US$ 20 milhões em receita anual e 150 colaboradores.

De tudo isso, o que fica para o empreendedor brasileiro é que as conexões certamente contam, como Heller descobriu na pele, mas às vezes o mercado não é nada favorável para empreendedores não brancos, e que também é preciso coragem, ousadia, determinação e uma boa ideia para construir uma empresa e ir contra o sistema. Isso é o que Heller melhor pode nos ensinar.

Outro ponto importante é que o ecossistema empreendedor já percebeu esta injustiça histórica vivida por empreendedores negros. Por isso, cada vez mais têm surgido iniciativas com o objetivo de atenuar as dificuldades envolvendo captação de recursos.

Pensando em alimentar empreendimentos destes profissionais, a Estação Hack, centro de inovação do Facebook no Brasil, lançou em 2018 o programa AfroHub, projeto de capacitação e aceleração de startups lideradas por negros. O programa foi idealizado por empreendedores de três empresas, o Instituto Feira Preta, a startup de turismo Diáspora Black e a plataforma de networking Afrobusiness.

A própria Nina Silva lidera o Movimento Black Money que, por conta da pandemia causada pelo novo coronavírus, lançou o projeto Impactando Vidas Pretas, a iniciativa emergencial tem por fim prestar assistência a família negras lideradas por mães solteiras e empreendedores afro. “Se a gente diminui o poder de consumo das pessoas, a gente para a economia”, comenta Nina. Durante a segunda fase de captação a campanha levantou R$ 166 mil.

Já a aceleradora Artemisia é outro exemplo neste sentido e tem sido bem-sucedida ao impulsionar negócios que possam solucionar problemas sociais por meio de programas de incentivo, entre eles a Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia (Anip), em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV) e a produtora A Banca.

Camila Farani é um dos “tubarões” do “Shark Tank Brasil”. É Top Voice no LinekdIn Brasil e a única mulher bicampeã premiada como Melhor Investidora-Anjo no Startup Awards 2016 e 2018. Sócia-fundadora da G2 Capital, uma butique de investimentos em empresas de tecnologia, as startups.

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