Em 2014 recebi o irrecusável convite da minha amiga Margi Moss para embarcar com ela e seu marido, Gérard. Seria uma viagem de um roteiro muito interessante, quando percorreríamos mais de 2.600Km pela Estrada do Pacífico, também conhecida como Rodovia Interoceânica – um novo caminho que une o litoral sul do Peru ao noroeste do Brasil, através do estado brasileiro do Acre. Mesmo sem ter uma ideia concreta do que iríamos encontrar naquele roteiro, só de estar num carro com o casal Moss já fazia com que aquela viagem fosse uma oportunidade imperdível.
Para os Moss essa incursão no Peru tinha começado 2 anos antes, quando compraram uma Land Rover em Brasília e planejaram o roteiro de uma volta ao mundo de carro. Já seria o final da viagem deles onde seguir do Peru até o Acre seria a última etapa. No mesmo dia em que fui convidada e sem pensar duas vezes, comprei a passagem aérea (de ida) para na semana seguinte embarcar para Lima, onde nos encontraríamos.
A viagem para mim começou em Lima, de onde partimos naquela Land Rover carregada de histórias dos caminhos que eles tinham cruzado. Lembro que ainda havia inúmeros pequenos souvenires de diferentes países do mundo espalhados pelo carro. Juntos cruzamos pequenos vilarejos e muitas paisagens áridas. Três dias depois, quando percorríamos a rodovia Panamericana Sur, vimos a placa Casa Museo Maria Reiche. O Gerard, muito curioso, pegou o primeiro retorno e voltamos para ver de perto do que se tratava. O museu era simples e estava situado à beira do deserto. Aquela era a casa onde viveu a arqueóloga Maria Reiche, em condições precárias, até seus 95 anos de idade.
O acervo incluía um rico material arqueológico sobre sua pesquisa acerca dos geoglifos: mapas, fotos, desenhos e, como objeto mais peculiar, a vassoura que a pesquisadora usava para varrer e descobrir, aos poucos, as linhas de Nazca. Na época ainda não se sabia sobre a existência das linhas e, como ela guardava seus estudos como segredo, era considerada louca por se sempre vista, sozinha, varrendo o deserto.
Ainda no museu aceitei a sugestão do Gerard e fomos até o pequeno aeroporto local. Na entrada havia uma placa bastante tosca promovendo o sobrevoo para avistamento das linhas de Nazca. Não senti segurança no programa, tampouco as pequenas aeronaves estacionadas no campo de pouso pareciam seguras. Entretanto, desci do carro confiante, acreditando que o programa seria um sucesso. Embarquei num pequeno avião azul e branco enquanto o Gerard e a Margi ficaram à minha espera em terra firme. Eles já tinham sobrevoado aquela área anos antes, com o avião deles, chamado Romeo.
Animada embarquei e ocupei a poltrona atrás do piloto e apertei o cinto de segurança. Decolamos e em círculos ganhamos altura rapidamente. As linhas traçadas no solo desértico começaram a ganhar nova perspectiva e os desenhos se tornavam cada vez mais evidentes. Visto a partir de um sobrevoo, o conjunto arqueológico era muito diferentes de quando estacionamos para observá-lo a partir de numa pequena torre instalada junto à rodovia. O céu claro ofereceu a possibilidade de avistar, até de longa distância, figuras perfeitas.
A descoberta dos traçados aconteceu em 1927 e, naquele pequeno sobrevoo, percebi que o asfalto da rodovia Pan-Americana Sul, aberta em 1979, gerando impactos negativos na sua preservação inclusive por cortar, algumas linhas, inadvertidamente. Essa região cobre uma área de 50 km² e engloba um conjunto de mais de 800 linhas retas, 300 figuras geométricas e cerca de 70 desenhos que representam seres vivos. Os mais famosos são beija-flor, condor, macaco, gato, aranha e um astronauta. Ainda permanece o enigma sobre a técnica aplicada na construção dos traçados (até 30cm de profundidade) e paira também o mistério acerca dos motivos que levaram a antiga cultura Nazca (entre os anos 500 a.C. e 500 d.C.), a criar linhas que somente podem ser vistas do céu.
Acreditava-se que as imagens teriam sido feitas por ET’s, até que estudiosos e historiadores analisaram a área e entenderam a história da civilização Nazca. Sobre esse mistério, a teoria mais aceita é de que o conjunto representa um antigo calendário astronômico. Os desenhos são mantidos em sua integridade por se tratar de um dos desertos mais secos do mundo.
No início dessa viagem partimos de Lima, vendo a linha do mar no horizonte. Com o passar dos quilômetros estacionamos a 4.700m de altitude e vimos o imponente Monte Ausangate com seus 6.384m de altura. Vimos cenas lindas na paisagem da cordilheira dos Andes como a de senhoras idosas, vestindo traje típico montanhês, pastoreando lhamas enfeitadas com lacinhos coloridos nas orelhas. Na mesma viagem vimos de perto o Gallito-de-las-Rocas Andino no Parque Nacional de Manu. Em Quince Mil, acordamos ouvindo o canto dos Japus, que emitem sons semelhantes a gotas caindo do céu. No Acre, na Reserva Chico Mendes em Xapuri, abraçamos a majestosa Sumaúma com 35m de altura.
Foram muitas as descobertas ao longo dessa viagem entre o Lima e Xapuri; mas, ver as linhas de Nazca do alto foi o que mais me impressionou. Agradeço à Margi e ao Gerard Moss por terem me proporcionado mais essa experiência inesquecível.
Um abraço e até a próxima coluna!
*Marina Bandeira Klink é uma fotógrafa de natureza brasileira, com nome reconhecido especialmente por seus registros fotográficos das regiões mais remotas do globo. Atualmente, Marina propõe novas experiências para viajantes e fotógrafos que, assim como ela, deseja fazer registros em destinos não convencionais. Ela publicou 3 livros de fotografia e 2 livros infanto-juvenis – ambos adotados por escolas particulares e pela rede pública de ensino de todo o país. Além disso, seu trabalho está presente em livros didáticos, jornais e revistas e em exposições fotográficas no Brasil e exterior. Em suas palestras Marina relata experiências vividas em viagens nada usuais abordando temas como coragem para uma mudança de Mindset, desafios e superação, liderança, empreendedorismo e meio ambiente.
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