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Uma Jornada Imersiva no Coração do Cerrado

Viagem geográfica para a tríplice divisa entre a Bahia, Goiás e Minas Gerais

7 min

“Tudo o que já foi é o começo do que vai vir…” Durante o percurso dos 390 km que separam o aeroporto de Brasília da Pousada Trijunção, vinham à memória trechos do romance Grande Sertão: Veredas. Enquanto acompanhava a conservação do bioma em toda a sua potencialidade, tons solares, áridos e terrosos enchiam os olhos, revelando aquela região como um destino brasileiro genuíno, lindamente descrito na obra de Guimarães Rosa. Ao viajar por essa vastidão, entendemos por que razão o autor não fixa a narrativa em uma única cidade, mas em uma vasta área geográfica.

O destino dessa viagem era o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, marco geográfico localizado no coração do Cerrado. Situado entre serras, chapadões, rios e oásis hídricos, aquele é o ponto de encontro de três estados: Bahia, Goiás e Minas Gerais. Foi curioso saber que o parque, criado em 1989, teve a obra de Guimarães Rosa como orientação para o estabelecimento de seus marcos de divisa. O leitor brasileiro que conhece o livro automaticamente associa essa região geográfica a Riobaldo, um dos seus personagens, descrito na obra como um ex-jagunço que compartilha suas reflexões sobre a vida por meio de dilemas existenciais marcados por conflitos, medos e andanças pelo sertão mineiro e baiano.

Visitar essa região nos traz uma pura sensação de encantamento. Ao fecharmos os olhos, percebemos que a paisagem do cerrado também canta. Como “passarinheira” que sou, gosto de viajar para despertar ouvindo os mais diversos cantos de aves. Existem espécies migratórias e outras nativas do bioma, e isso me transporta automaticamente a diferentes paraísos. Estar no Cerrado é, para mim, uma oportunidade especial. Como é bom desvendar novos campos e encontrar diferentes poções mágicas. Dessa vez, me encantei com a delicada beleza das Sempre-vivas. Em outra época do ano, essa região se pinta de rubro, cor trazida pela florada das emblemáticas Calliandra dysantha, também conhecidas como “flores vermelhas-do-cerrado”, que, com suas flores em tom de vermelho intenso, atraem beija-flores e inúmeras borboletas.

Uma parte interessante de viajar em um grupo de pessoas de interesse específico é conviver com quem busca experiências semelhantes. No caso de uma viagem de observação de aves, encontramos quem também ama observar pássaros livres. Essas são viagens que requerem o exercício do silêncio para que seja possível a escuta de sons muito sutis. Também é necessária atenção constante para que sejam visíveis passarinhos muito pequenos. Os menores pousam sempre apressados em galhos secos e retorcidos, em arbustos espinhosos e, silenciosas, essas aves diminutas também se escondem com velocidade nas sombras dos grandes buritizais.

Na grande região de Cerrado e Caatinga, mais de 240 diferentes espécies de aves já foram registradas, entre elas as grandes Araras-vermelhas, o Gavião-de-penacho, as Seriemas, as Corujas-buraqueiras e diversas espécies de psitacídeos (periquitos e papagaios), além dos lindos Beija-flores. Por isso, o grande diferencial dessa viagem foi contarmos com a presença do fotógrafo e professor João Quental, que liderou o nosso grupo de seis observadores de aves. Incansável por horas, seguindo em carro aberto, João, juntamente com o exímio guia local Vinicius Viana, buscava nos mostrar as espécies características do bioma. Juntos, eles enriqueciam a nossa lista de pássaros avistados.

Dentre as espécies observadas nessa viagem, destaco o pequeno Beija-flor Chifre-de-Ouro. Como grandes atrações, seria impossível não citar a beleza das revoadas de araras; Araras-canindé e Araras-vermelhas proporcionavam espetáculos sob o sol. Os pequenos Mineirinho e o Meia-lua-do-cerrado se mimetizam na vegetação e, mesmo todos nós com grandes objetivas, óculos de sol e binóculos, frequentemente nos confundíamos com espécies similares.

Apesar de termos avistado tantas aves, o símbolo maior da região é o Lobo-guará. Na Trijunção, foi muito interessante conhecermos a equipe da unidade local do Onçafari, uma associação não governamental atuante na conservação de espécies ameaçadas e no ecoturismo no Brasil. As unidades do Onçafari fazem monitoramento permanente na região, e tivemos muita sorte por, já na primeira noite, termos avistado um Lobo-guará bem próximo à pousada. Eles são ariscos e, ao ver humanos, se escondem. Vimos rapidamente também nas noites seguintes. No último dia, levantamos mais cedo para acompanhar a equipe no trabalho de campo. Pelas imagens de um drone, vimos um lobo-guará caminhando tranquilamente pelo campo, adentrando a relva alta.

A pelagem avermelhada, os membros alongados e o caminhar singular tornam os Lobos-guará inconfundíveis. Eles são territorialistas e, devido ao desmatamento, suas populações têm sofrido um declínio significativo, sendo a perda de habitat a principal ameaça à espécie. Um dos motivos é a expansão da agricultura, e outra razão é a predação ocasional do Lobo-guará, o que causa grande pressão sobre as populações remanescentes.

Essa é uma região que não oferece muitas opções de hospedagem e, mesmo em um lugar remoto, minha hospedagem na Pousada Trijunção foi impecável. Autêntica e confortável nas acomodações, oferecia experiências selvagens. A gastronomia, orgânica, valoriza ingredientes regionais. Os cuidados nos detalhes, a ambientação e a atenção da equipe fazem a experiência ser inesquecível.

Alguns detalhes coroam a experiência de viajar para lugares remotos: durante uma das nossas saídas fotográficas, comentei que tinha apreciado muito os docinhos de Buriti oferecidos em um dos nossos piqueniques. No final da viagem, recebi uma sacolinha com os insumos para o seu preparo e a receita para eu fazer em casa e, ao voltar para o meu quarto para fechar as malas, encontrei ali um exemplar do livro Grande Sertão: Veredas. Foi uma viagem fechada com chave de ouro.

Observações e vivências sempre transformam o viajante e, como bem escreveu Guimarães Rosa: “O mais importante é que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando.” Trago comigo essa reflexão presente no livro e a certeza de que somos capazes de transformar muitas das nossas experiências em importantes aprendizados.

Até a próxima jornada!

Por Marina Bandeira Klink: fotógrafa de natureza, com atuação reconhecida internacionalmente por registros das regiões mais remotas do planeta. É autora de três livros de fotografia e dois livros infantojuvenis adotados em escolas públicas e privadas. Seus trabalhos estão em exposições, livros didáticos, jornais e revistas no Brasil e no exterior. Em suas palestras, aborda temas como mudança de mindset, liderança, empreendedorismo, superação e meio ambiente a partir de experiências vividas em expedições pouco convencionais.

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