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Todas as Emoções de uma Viagem de Expedição

Explorar destinos remotos é trocar certezas por emoções, e isso é o que torna cada expedição inesquecível

6 min

Muitas daquelas viagens que até poucos anos atrás julgávamos impossíveis de se viver, foram se tornando possíveis com a modernização dos meios de transporte e com a ampliação das ofertas no mercado de hospedagem – complementadas pela enxurrada de opções que emergem todos os dias no universo do turismo de aventura. Diante desse panorama, muitos dos sonhos que julgávamos inalcançáveis estão se tornando cada vez mais próximos.

Aconteceu comigo nos anos 90, quando ainda era considerado praticamente impossível para um passageiro regular desembarcar no continente austral. Naquela época não havia internet para fazermos consultas, os agentes de viagem não tinham informações sobre esse roteiro e não eram muito divulgadas as raras possibilidades de cruzeiros de expedição para aquele destino. Lembro de ter ido atrás do meu sonho por conta própria quando embarquei para a Argentina na temporada de 1994/95, sem saber se conseguiria embarcar naquele navio polar.

Surpresas no caminho

Sem imaginar o que viria pela frente, os imprevistos se transformaram em temperos especiais da jornada de emoções que eu viria a sentir. Aquela viagem não apenas foi possível, mas posso dizer que a realidade superou a minha imaginação. Entendi que, se eu quisesse seguir conhecendo destinos inalcançáveis, deveria ir atrás de cada um deles.

O turismo polar na Antártica, no modelo de viagem como conhecemos hoje, teve início em 1969 com o navio MV Lindblad Explorer. Na ocasião, foi permitido à apenas 104 passageiros o acesso uma área do planeta que fazia parte do imaginário remoto de muita gente. Ao longo de 6 décadas esse número cresceu espantosamente. Conforme registros da IAATO -International Association of Antarctica Tour Operators-, a contabilidade da temporada de 2023/24 somou mais de 80 mil visitantes, embarcados em 72 navios e em outras 553 diferentes embarcações menores, e existe projeção de crescimento para os próximos anos. Os passageiros que buscam esse destino geralmente são aqueles que já têm tudo o que o dinheiro pode comprar, já conhecem grande parte do globo e agora buscam por novas experiências.

Desde que eu vivi a minha primeira experiência na Antártica, segui buscando por outras viagens transformadoras, construindo novas possibilidades ao desenhar meus próprios roteiros. Isso me fez aprender algumas lições e muitos aprendizados: No turismo de observação de natureza temos que estar sempre prontos para o inesperado, uma vez que não existe garantia do que iremos viver. Não é possível determinarmos o momento para avistagem de animais raros, a menos que eles estejam sempre descansando numa área específica. Caso contrário, o avistamento de animais selvagens em grandes territórios pode ser que não aconteça.

Existem ocasiões em que, mesmo tendo buscado ver um animal ao longo de um dia inteiro, pode acontecer que somente seja possível numa focagem noturna. Da mesma maneira, não podemos definir previamente o horário e o local para vislumbrarmos a mais linda aurora boreal de todas (no meu caso foi inesperada e aconteceu num posto de gasolina na Islândia).

Quando vi os gorilas em Uganda, por exemplo, foram necessários apenas 15 minutos de caminhada na Floresta Impenetrável de Bwindi – apesar de eu ter ouvido que um casal que procurou vê-los na véspera, não conseguiu encontrá-los no prazo máximo permitido que é de 4 horas, mesmo eles tendo caminhado muito pela floresta. O que devemos somar nessa conta é que, mesmo 15 minutos caminhando na floresta pareçam pouco tempo, para viver esse encontro foram necessários 10 dias de viagem para se chegar até eles.

Outra incerteza das viagens de expedição é que não se pode garantir o horário para as refeições. Quando estava num navio próximo às ilhas Shetland do Sul, um grande grupo de baleias-Fin (o segundo maior animal existente no mundo) surgiu na proa do nosso barco. O grupo seguiu acompanhando a nossa velocidade. Foi tão surpreendente e hipnótico que ninguém se lembrava de que a refeição já tinha sido servida.

Aconteceu também numa aproximação da mítica Ilha Elefante durante uma madrugada. No navio todos sabíamos sobre previsão de mau-tempo e da incerteza sua visualização; porém, os passageiros mais otimistas puderam avistá-la, magicamente, em meio à nevasca. Já no Ártico, no Arquipélago de Svalbard, ainda era muito cedo quando uma família de ursos surgiu próxima ao nosso barco. Diante do anúncio feito pelo sistema de som do barco, passageiros corriam para as portas se reunindo no deck trajando roupão e pantufas. Saí da minha cabine e corri ofegante pelos corredores do navio, trocando as lentes da câmera enquanto corria, para conseguir captar a melhor imagem possível.

Dessas inúmeras viagens de exploração e aventura, destaco que um dos maiores aprendizados é a importância de se aprender a fazer uma mala compacta e leve, de preferência levando em mãos. Já viajei em família por 2 semanas, visitando 4 diferentes países da África, sem bagagem alguma após seu extravio ainda no primeiro trecho aéreo. Com isso aprendi a levar uma mochila básica comigo. Quanto menor a nossa bagagem, mais preparados estaremos para viagens incomuns.

Nas jornadas de expedição, as incertezas e o fantasma das surpresas podem nos acompanhar durante todo o percurso. A incerteza pode acontecer ao pisarmos numa pedra solta, num deslize no cume, no último gole de água da garrafa sob um calor escaldante, na última milha a pé no contravento sobre a banquisa, numa tempestade de areia no deserto. Viagens de natureza são assim. Temos que entregar nossas emoções para o novo e estarmos prontos para o inesperado o tempo todo. Mas, ao chegarmos de volta à nossa casa, temos a certeza de que todo o risco valeu a pena.

Até a próxima jornada!

*Por Marina Bandeira Klink: fotógrafa de natureza, com atuação reconhecida internacionalmente por registros das regiões mais remotas do planeta. É autora de três livros de fotografia e dois livros infantojuvenis adotados em escolas públicas e privadas. Seus trabalhos estão em exposições, livros didáticos, jornais e revistas no Brasil e no exterior. Em suas palestras, aborda temas como mudança de mindset, liderança, empreendedorismo, superação e meio ambiente a partir de experiências vividas em expedições pouco convencionais.

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