Pesquiso novos destinos com frequência e estou sempre atenta às experiências fora do comum. Sei que, mesmo se eu viajasse todos os dias, uma única vida não seria suficiente para conhecer o mundo inteiro. Por isso, seguindo as minhas preferências, procuro por viagens personalizadas, sempre que possível escapando dos roteiros óbvios e sempre buscando surpreender os meus olhos e o meu coração.
Considero que viagens de luxo não são necessariamente viagens custosas, daquelas que incluem hospedagens em hotéis glamourosos, restaurantes premiados e embarques em primeira classe. Na minha opinião, viagens de luxo são aquelas que nos oferecem oportunidades de transformação.
Anos atrás, quando estava com as minhas três filhas em Bonito (MS), planejamos mergulhar no Abismo Anhumas; entretanto, devido ao vento forte naquele dia, nosso programa acabou sendo cancelado. Isso porque o único acesso ao seu interior é uma passagem tão estreita que requer condições meteorológicas perfeitas.
Como vontade de conhecer o Abismo Anhumas permaneceu viva por anos, recentemente decidi priorizar esse programa e visitar o local na única semana do ano em que a luz do sol atravessa a entrada localizada no topo da caverna, formando um lindo facho de luz zenital no seu interior. Esse facho de luz não só ilumina a superfície da água, como também amplia o campo de visibilidade debaixo d’água, alcançando 16m de profundidade. Apesar de ser o período de fortes chuvas na região e isso poderia comprometer o meu acesso à caverna novamente, decido arriscar.
Apesar das previsões serem contrárias, dessa vez o dia amanheceu com tempo bom. Na entrada do Abismo, diante de um guincho com cabos de aço, vesti um cinto em forma de cadeirinha e engatei dois mosquetões. Dois rapazes fizeram a checagem do meu equipamento e me autorizaram a dar um passo à frente. Foi quando olhei para baixo e percebi que não era possível ver o fim da descida. Daí adiante não havia mais o que fazer a não ser acreditar que tudo seguiria bem.
Como um pêndulo, desci lentamente presa ao cabo de aço os 72m que separam a boca da caverna até o nível da água do seu lago interior. No trajeto até o lago eu me senti totalmente livre enquanto observava atentamente a beleza natural do interior da caverna, do tamanho do estádio do Maracanã.
Conforme descia, era tomada pelo eco do silêncio que intensificava na medida em que o guincho avançava para baixo. O cabo de aço só parou de descer quando meus pés tocaram no deck flutuante instalado na superfície do lago. Nesse instante liguei a luz da lanterna acoplada ao meu capacete e vesti o equipamento de mergulho alugado na véspera. Já preparada, entrei no lago devagar. Tive a sensação de que a água estava bem fria, mesmo usando roupa de borracha, mas abstraí do desconforto da sensação térmica assim que me o primeiro raio de sol entrou pela caverna.
Impactante mergulhar entre dezenas de cones submersos, que se parecem com grandes torres de calcário diferentes tamanhos, sendo que algumas chegam a medir 19 metros de altura. Juntos, esse conjunto de cones formam uma espécie de floresta de pedra, daquelas que poderíamos facilmente encontrar como cenário de um filme de ficção. Mergulhando eu ajustei meu respirador soltei bolhas de ar. Acompanhei as bolhas e olhei para cima. Vi o facho de luz do sol que entrava pelo topo da caverna, iluminando a superfície da água, transformando todo o lago num ambiente de diferentes tons de verde-esmeralda. Essa foi mesmo uma experiência inesquecível!
Sugiro anotar esse nome num cantinho do seu bloco de notas: Abismo Anhumas. Vale a pena conhecer.
Um abraço e até a próxima coluna!
*Marina Bandeira Klink é uma fotógrafa de natureza brasileira, com nome reconhecido especialmente por seus registros fotográficos das regiões mais remotas do globo. Atualmente, Marina propõe novas experiências para viajantes e fotógrafos que, assim como ela, deseja fazer registros em destinos não convencionais. Ela publicou 3 livros de fotografia e 2 livros infanto-juvenis – ambos adotados por escolas particulares e pela rede pública de ensino de todo o país. Além disso, seu trabalho está presente em livros didáticos, jornais e revistas e em exposições fotográficas no Brasil e exterior. Em suas palestras Marina relata experiências vividas em viagens nada usuais abordando temas como coragem para uma mudança de Mindset, desafios e superação, liderança, empreendedorismo e meio ambiente.
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