Toda vez que vejo uma foto em que um animal olha diretamente nos olhos penso que aquela imagem, poderosa, carrega muito mais do que um enquadramento técnico.
Essa pergunta sempre me acompanha e me motiva a viajar. Foi isso o que me levou à Patagônia chilena no último mês de junho. Fui em busca de um puma em seu habitat natural.
Caminhos congelados
Viagens de fotografia de natureza normalmente envolvem uma logística complexa, mas não impossível. Essa recente viagem começou em São Paulo, num voo entre Guarulhos e Santiago, seguido por outro trecho aéreo até Punta Arenas, capital da Região de Magalhães, acrescido de uma etapa rodoviária de quatro horas pela Carretera Austral até a aldeia de Cerro Castillo.
A viagem acabou sendo mais tranquila do que eu esperava. Quase todo o trecho rodoviário já está asfaltado – o que é muito bem-vindo para quem já fez algumas vezes esse mesmo trecho quando ainda era de cascalho (ou de “rípio”, como se diz no Chile). Nessa época do ano, diante de temperaturas negativas, os veículos são obrigados a trafegarem com cravos nos pneus. As baixas temperaturas formam uma camada de gelo no pavimento, e o tornam muito escorregadio. Os cravos aumentam o atrito com o piso e fazem a viagem ser mais segura.
Vinte e quatro horas depois que embarquei em São Paulo, finalmente cheguei a Cerro Castillo. A temperatura ambiente de -3 °C era um problema embora a hospedagem fosse numa pousada rural muito aconchegante e aquecida: praticamente um oásis numa região remota.
Uma missão silenciosa
Fotografar animais selvagens é sempre um desafio técnico e emocional, mas também uma lição de paciência, respeito e silêncio.
Dessa vez seríamos um grupo de seis fotógrafos, sob a liderança de Renato Machado, profissional experiente que montou cuidadosamente o nosso roteiro. Uma das vantagens de sermos um grupo pequeno, era a flexibilidade de podermos parar para capturar momentos improváveis com os Andes como pano de fundo, o que não acontece quando viajamos em grupos maiores.
Com um motorista conhecedor da região à disposição e com ingressos de acesso ao Parque Nacional Torres del Paine já comprados, o cronograma fluía com precisão.
Café quente, rádio ligado os Andes no horizonte
Viajar no inverno implica em menores períodos de luz, mas nossa agenda de atividades começava às 8h, e ainda assim saíamos sempre antes do nascer do sol. Dormir até as sete horas é um privilégio em expedições de natureza. Mesmo com esse horário, ainda víamos o dia clarear já na estrada, emoldurado pela Cordilheira dos Andes.
Dentro da van, um rádio VHF estava sempre ligado e mantinha contato com os trekkers que mapeavam os movimentos dos pumas no parque: um recurso essencial para avistamentos específicos em áreas de grandes dimensões, como era no nosso caso. Sem esse sistema, encontrar o animal seria quase impossível.
A área do Parque Nacional Torres del Paine é de 242.000 hectares. Ali os felinos estão protegidos. Porém, basta sair dos limites do parque para esse cenário mudar. As áreas no entorno do parque servem para criação de gado e ovinos e, sem uma regulamentação específica de proteção dos pumas, na iminência de ataques a rebanhos, lamentavelmente muitos indivíduos seguem sendo abatidos.
A espera que define o clique
Seguíamos fotografando o que a paisagem oferecia: guanacos, raposas fugidias, pássaros endêmicos, cascatas quase congeladas. A luz se transformava a cada instante e a observação constante era parte do rito.
O silêncio era constante até ouvirmos, pelo rádio, alguém dizia: “puma.”
Como num flash tentávamos entrar na van, várias vezes com nossos tripés ainda armados, e apressadamente nos acomodávamos para chegarmos rápido até o ponto informado. Chegando lá, muitas vezes o animal ainda dormia. Grupos de 10 a 20 fotógrafos, de várias partes do mundo – e mais rápido do que nós – normalmente já estavam posicionados.
Nos uníamos a eles — e ao mesmo exercício de espera e juntos sentíamos frio. A garoa caía fina sobre nossos dedos, praticamente congelados, mas ninguém saía dali. Permanecemos imóveis por horas, aguardando o puma despertar.
Quando cruzamos os olhos com um animal selvagem, o que ele vê em nós?
A fotografia de natureza é, antes de tudo, um exercício de paciência.
Numa das ocasiões contamos cinco horas até que o puma acordasse. Nesse período, vários turistas iam e vinham. Tiravam fotos apressadas das costas de um animal adormecido, enquanto nós permanecíamos naquela longa espera, por tempo indeterminado.
De repente o puma despertou. Fez movimentos lentos. Ele se espreguiçou, bocejou e girou o corpo, até que nos viu. Como que visse uma plateia diante de si, ele olhou, um a um nos olhos, por um segundo inteiro. Não demonstrou qualquer surpresa, mas com indiferença. Nem a enxurrada frenética de cliques das câmeras, nem o arsenal de equipamentos fotográficos o incomodaram, o que evidenciou ainda mais estar acostumado com a presença humana.
Todos estávamos entusiasmados até que ele se deitou novamente. Para o puma éramos apenas parte da paisagem, enquanto para nós, fotógrafos, aquele instante foi o clímax da viagem.
O branco final
Após essa experiência feliz, voltávamos para a pousada quando começou a nevar. O cenário de antes foi se transformando e, em minutos, a paisagem parecia ter sido pintada de branco. Foi um presente; uma moldura perfeita para aquele dia inteiro dedicado a um único olhar.
Ver um animal selvagem de perto já é raro. Ser visto por ele é outra coisa. Aquela troca, ainda que breve, valeu cada minuto de espera. É o que me move e me faz querer voltar.
Até a próxima jornada!
Sobre a autora
Marina Bandeira Klink é fotógrafa de natureza, com atuação reconhecida internacionalmente por registros das regiões mais remotas do planeta. É autora de três livros de fotografia e dois livros infantojuvenis adotados em escolas públicas e privadas. Seus trabalhos estão em exposições, livros didáticos, jornais e revistas no Brasil e no exterior. Em suas palestras, aborda temas como mudança de mindset, liderança, empreendedorismo, superação e meio ambiente a partir de experiências vividas em expedições pouco convencionais.