Este é um ótimo momento para experimentar a gastronomia refinada em Lisboa. Uma nova geração de chefs portugueses está assumindo estabelecimentos tradicionais e deixando sua marca com influências internacionais; outros estão abraçando fortemente suas raízes regionais e prestando homenagens culinárias às suas cidades natais; e alguns profissionais vindos de fora estão criando suas próprias propostas com confiança crescente.
Enquanto bares de vinhos naturais e cafés de brunch se multiplicam pela capital portuguesa, as chamadas “neo tascas” — versões contemporâneas das tradicionais tascas — estão ganhando destaque na crítica. A lenta distribuição de novas estrelas pelo Guia Michelin deixou alguns entusiastas da gastronomia desapontados, mas ainda há restaurantes comprometidos com a alta gastronomia em toda sua plenitude — ou em sua nova versão mais lúdica e casual — com menus degustação, serviço de carrinho e combinações de bebidas cada vez mais inventivas.
Cura

O hotel Four Seasons da cidade sempre será conhecido como o Ritz entre os lisboetas, especialmente entre os que valorizam história e arquitetura. O salão discretamente sofisticado do restaurante com estrela Michelin, Cura, já valeria a visita por si só — com o mármore simétrico atrás do bar, as poltronas elegantes em estilo Art Déco e os belos detalhes em madeira nas paredes. Nos últimos dois meses, porém, o novo chef Rodolfo Lavrador também vem destacando o restaurante como referência na cena gastronômica local.
Lavrador trabalhou em cozinhas de alta gastronomia em Madri, Nova York e Londres antes de retornar a Portugal e ingressar no Cura como subchefe, há três anos. Desde que assumiu a cozinha, passou a desenvolver menus degustação de cinco e dez etapas com alma portuguesa e uma leveza bem-vinda. Tiras de lula semelhantes a linguine são servidas com avelã, manteiga de alga tostada, bergamota e caviar Oscietra. Ervilhas frescas em formato de gota aparecem acompanhadas de chouriço, gema de ovo e atum curado. Mesmo o menu mais longo é servido em menos de três horas e proporciona uma experiência satisfatória sem excessos.
Fifty Seconds

O chef Rui Silvestre já havia se tornado o mais jovem chef português a receber uma estrela Michelin em Portugal (aos 29 anos), quando foi convidado a assumir um dos cargos mais cobiçados da gastronomia lisboeta. Ele substituiu o chef espanhol Martín Berasategui na cozinha do Fifty Seconds no início de 2024, mantendo a estrela do restaurante. Seu menu degustação com 14 etapas é mais autenticamente português do que o dos antecessores — incorporando influências tanto do continente quanto das ex-colônias.
Uma de suas avós cresceu em Goa e sua mãe nasceu em Moçambique, herança refletida no uso confiante de especiarias — não apenas curries e masalas do universo lusófono. A lagosta azul aparece com harissa, o lírio-do-mar com jalapeño, e o atum Balfegó com wasabi. O sommelier Marc Pinto já recebeu diversos prêmios por suas harmonizações e impressiona ao finalizar o serviço com garrafas grandes de vinho do Porto com rótulo próprio, servidas em um carrinho. O salão do restaurante, localizado no topo do hotel Myriad by Sana, na Torre Vasco da Gama, a cerca de 120 metros de altura (acessado por um elevador de 50 segundos), oferece uma das vistas mais impressionantes da cidade.
Boubou’s

A chef franco-portuguesa Louise Bourrat ganhou destaque na cena gastronômica lisboeta em 2018, quando chegou para ajudar o irmão e a cunhada a abrir o restaurante que leva o nome da família. Mesmo tendo vencido a versão francesa do programa Top Chef em 2022 e sido nomeada Chef Revelação em Portugal em 2024, ela mantém o foco na constante inovação dos pratos. Seu novo menu “Bloom” (com sete ou dez etapas) é considerado o mais interessante até agora.
Entre os destaques estão pedaços de barriga de atum e ouriço-do-mar com flores de rabanete roxo; aspargos brancos grelhados, crus e lactofermentados com kumquat fermentado e flores de sabugueiro; e caranguejo-real servido com gel de gerânio e uma “flor de girassol” feita com caviar e pétalas de aipo marinadas em suco de maçã. A pré-sobremesa de sorvete de ruibarbo com ruibarbo em conserva e confitado, algodão-doce ácido e chá de flor de ervilha-borboleta azul é visualmente marcante — assim como o salão repleto de plantas.
Plano

Jantar em uma noite de verão no jardim dos fundos do Plano, onde o chef Vítor Adão cozinha sobre fogo aberto, é uma das experiências gastronômicas mais marcantes de Lisboa. Mesmo dentro do salão revestido de tijolos, a experiência é memorável, tanto pela ambientação quanto pela técnica apurada do chef. Neste ano, para celebrar os seis anos do restaurante, Adão reforçou o vínculo com suas origens em Trás-os-Montes, região rural e remota no extremo norte de Portugal.
Isso já se nota nos aperitivos, como o rissol de javali da vila de Nogueira, cordeiro Mirandês grelhado de Miranda do Douro servido com waffle crocante e raita, e o covilhete de vitela Maronesa com gel de limão e nabo, apresentados em cerâmicas que imitam o relevo da região. O restante do menu degustação segue com pratos tradicionais, mas sempre como homenagem à sua terra natal, como o mille-feuille de batata feito com tubérculos da fazenda onde Adão cresceu, servido com alho-preto, maionese de coentro e trufa preta; além da sopa seca que acompanha o prato de bacalhau.
Fortaleza do Guincho

No ano passado, o restaurante do hotel Relais & Châteaux Fortaleza do Guincho, no litoral de Cascais, iniciou uma renovação que tornou o salão mais leve, mantendo o foco na paisagem atlântica. O chef Gil Fernandes também reformulou o conceito do menu, que muda conforme as estações, para destacar práticas sustentáveis. “Em Guincho, buscamos contribuir, mesmo que minimamente, para enfrentar desafios globais”, afirma.
A proposta envolve o uso de ingredientes locais, o apoio à agricultura regenerativa e orgânica, o forrageamento responsável e o respeito à sazonalidade dos produtos. Mesmo com a intenção de provocar reflexão, os pratos continuam priorizando o sabor, com preparações como amêijoas com curry e flores silvestres de oxalis, além do arroz de lapas com funcho-marinho, feito segundo uma receita tradicional.
Sem

“Estamos sempre mudando”, afirma George McLoed, chef neozelandês à frente do restaurante mais comprometido com o desperdício zero em Lisboa. Ele abriu o Sem (que significa “sem”, em português) com sua parceira brasileira, Lara Espírito Santo. O objetivo é aproveitar absolutamente tudo o que entra na cozinha — da raiz à folha, da escama ao osso, da cabeça ao rabo. O pão que sobra é fermentado e transformado em uma pasta que lembra o vegemite. O menu de seis etapas muda quase todos os dias, sempre com foco em inovação e agricultura regenerativa.
Não são utilizados foie gras nem atum gordo (na verdade, nenhum peixe marinho, devido ao risco de esgotamento), sendo priorizadas proteínas animais de espécies invasoras de água doce ou coelhos, conhecidos por sua alta taxa de reprodução. O casal também recolhe ingredientes da natureza, faz conservas, reutiliza móveis e propõe reflexões sobre sustentabilidade no setor alimentício. McLoed avisa que há muita fermentação nos pratos — e, de fato, algumas experiências sensoriais são intensas. Um exemplo é a preparação que reúne batatas com queijo da Serra da Estrela, peras curadas no feno, ervilhas grelhadas temperadas com vinagre de sumagre silvestre, molho de sementes de morango picante com acelga e garum de clara de ovo. São sabores que não se encontram em nenhum outro lugar de Lisboa.